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Por Fátima Fonseca

12 de Junho de 2004



   Um jornalista não pode atrasar trabalho. Um jornalista tem de lá estar, no local do acontecimento, se possível, com aquela intuição que lhe deve ser peculiar, ainda antes do acontecimento, ou quando muito logo após, mas sem atrasos, quando não, alguém chega primeiro e se apossa do material, a notícia!

Mas eu não sou jornalista. Também não tenho qualquer orgulho em chegar atrasada...mas a verdade é que – ( e os jornalistas deveriam dizer sempre a verdade...) –

chego atrasada muitas mais vezes do que eu quereria...não por desrespeito intencional, mas porque me entusiasmo facilmente com as pessoas, as actividades e os desafios, porque  me distraio com outros acontecimentos fora do calendário das previsões e tenho dificuldade em estabelecer prioridades...acho sempre que o meu tempo chega para tudo, mas de facto, não chega... bem, mas tudo isto para quê?

 P ara vos dizer que esta “ croniqueta” começou a ser feita no dia da Criança, 1 de Junho, mas imperdoavelmente tem estado à espera de qualquer outra coisa ( nem eu sei bem o quê!) para terminar e por isso só hoje vos chegará às mãos...e no entanto, já tanto de inopinado aconteceu , de maior e menor relevo, dentro e fora do nosso país, neste tempo de campanha política, vésperas de eleições , Rock in Rio e loucura geral!, finalmente o Euro 2004 que hoje começa ...! Tanto,  que mesmo que eu quisesse, jamais o conseguiria sintetizar aqui neste espaço do “m2” !

 A verdade porém, é que não sou jornalista, muito menos escritora, ou poetisa, e assumo-me apenas como uma “curiosa das letras” e observadora da vida, vossa companheira em trânsito na viagem desta vida, com um certo gosto por falar de pessoas e coisas que observamos, que frequentemente nos passam a correr, mesmo ao lado, e outras ainda, que pensamos, mas que poucas vezes registamos no papel. Não chegam sequer a ser notícia. Mas são garantidamente, razões da nossa esperança!

 

1 de Junho, dia da Criança. Atravesso o jardim florido da minha meninice - o recém-remodelado  Jardim da casa da Moeda - hoje, como dantes, local de encontro de crianças, mães, avós, professoras, desempregados, reformados e pobres.

De repente, encontro-a e caímos nos braços uma da outra.

Querida Senhora D. Fernanda! 92 anos bonitos, distintos, direitos! Vê-la assim tão bem

depois de a ter encontrado quase desmaiada na rua, há cerca de um ano, comove-me e espanta-me...eu que julgava que já não estaria entre nós....

Pergunto-lhe pela família. Com um olhar triste, diz-me que a filha, Maria João, exactamente da minha idade ( 53) morreu em Janeiro, após longa luta contra o cancro. Lembro-me de a ver – uma mulher muito bonita, com cabelo ou sem cabelo! – nos intervalos do tratamento, sempre de regresso ao  trabalho, uma  indomável lutadora!

Depois fala-me também, da morte do neto de 24 anos, há algum tempo atrás, ali para os lados da Portela, num desastre de automóvel que vitimou cinco dos seus seis ocupantes, no final de uma noite de excessos! E comenta apenas, no seu tom doce, digno e triste – “...chegar a esta idade para ver partir os meus, um por um...”

Abraçamo-nos no meio do passeio. Eu, grande, ela, pequena. Ela, forte, a ensinar-me, eu, frágil, a aprender. Alguns passantes olham-nos, curiosos. Limpo-lhe as lágrimas discretas e pergunto-lhe como vai o “pacemaker” e como se entretém em cada dia. Fala-me das suas rotinas: às 2ªs e 4ªs sai de casa, sempre e ainda ao volante do seu carro!, para trabalhar com outras senhoras em “registos” ( já os vi! Só queria que pudessem ver também, as obras-primas que lhe saem das mãos...) e às 6ªs vai ao convívio da 3ª idade, na sua Paróquia, para fazer e dar o lanche às “velhotas” ( e sorri, marota,-“...eu chamo-lhes as minhas velhotas, mas a verdade é que elas só têm 80 anos...).

Separamo-nos, comovidas. À nossa volta, começam a chegar em bandos esvoaçantes, crianças das escolas vizinhas, com os seus chapelinhos coloridos, correndo em direcção aos baloiços. Ela e eu voltamo-nos para nos acenarmos uma à outra e para vermos as crianças. Um passo mais e já não nos vemos mais. Separam-nos um mar de crianças e um tapete de pétalas lilases de jacarandás. Uma criança correu para ela, outra para mim. Uma professora aproxima-se sorridente e explica : “...as crianças querem dizer aos adultos que não existem só para receber...elas também têm muito para dar !” E recebo, uma cartolina recortada por dedos inseguros e com letras tortas, coladas por mãozinhas trémulas, a dizer  assim : “ Gosto de si. Quer vir hoje brincar comigo ? Dê-me um pouco do seu tempo, por favor!” Percebo o desafio a mim e à comunidade. Nós, vizinhos, porventura distraídos, destas escolas, somos convidados a visitá-las, a dar-lhes alguma atenção e a parar para nos fazermos de novo crianças...Aceito, naturalmente.

À tarde atraso tudo, conscientemente, mas vou visitar as crianças e o meu novo amigo, em especial, o Miguel, de 5 anos, um menino de origem africana, cheio de energia e afecto.

À porta da escola, encontro colada uma frase em letras garrafais, pintadas pelas crianças, dizendo assim: “Há sempre um momento na infância em que se abre a porta que deixa entrar o futuro!( Graham Green)”.

 

Foi um tempo bem passado! De regresso a casa, penso em tudo o que vi e vivi nesta tarde, e ponho-me a vasculhar entre os meus papéis até encontrar este pedacinho de tesouro imperdível, extracto de um livro que aqui transcrevo e me foi oferecido há alguns anos atrás, por uma boa amiga, a Manel, quando eu ainda andava nessas lides do ensino particular.

“Tudo o que eu devia saber na vida, aprendi no jardim de infância :

A sabedoria não se encontra no topo de nenhuma montanha, nem no último ano de um curso superior. É num pequeno monte de areia do recreio do jardim de infância que se pode aprender tudo o que é necessário saber na vida:

partilhar; respeitar as regras do jogo, não bater em ninguém , guardar as coisas nos sítios onde estavam, manter tudo sempre limpo, não mexer nas coisas dos outros , pedir desculpa quando se magoa alguém; viver uma vida equilibrada: estudar, pensar, desenhar, pintar, cantar, dançar; brincar, trabalhar, fazer de tudo um pouco todos os dias. É o que nós temos de fazer!!!

Afinal, o segredo de uma vida feliz está nas pequenas verdades do dia a dia!”