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Por Fátima Fonseca

21 de Maio de 2004



   Era o dia 1 de Maio de 2004. Levantei-me muito de mansinho, para não acordar ninguém, vesti o roupão, tomei um café e sentei-me ao computador. Não queria barulho e preparava-me para me lançar a fazer um texto de imediato, rés-vés ao coração, para que nada se interpusesse entre sentir - pensar - escrever. Queria começar por falar-vos daquela corajosa viúva, professora, mãe de família numerosa, cuja filha de 21 anos - não menos lutadora e valente!- está doente e internada com uma leucemia aguda. E queria pedir a todos quantos me lêem uma cadeia de oração, e a quem não crê neste poder, mas se quiser solidarizar, uma cadeia de “pensamento positivo”...

 De repente, porém, no silêncio da manhã, desatam a “grasnar” como cornetas desafinadas nas traseiras da minha casa, os pavões, meus vizinhos residentes no Palácio das Galveias. Para cúmulo, minutos depois, ouço na cozinha, “não há pão! não há leite!”, “Hoje não sou eu, não é a minha vez...fui ontem...hoje és tu!”, “oh, mãe, venha ver os pavões em cima do telhado... vê-se logo que é Primavera, até os pavões estão apaixonados !”. Bem, é escusado, nem ao fim-de-semana se consegue um pouco de calma ...desisto! Outros deveres me chamam...

( E assim se foi a inspiração...e a oportunidade.)

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Espero  uns dias e...recomeço, não já para falar ,  - como se impunha ! - do Dia da Mãe ( Maio, Mãe, Maria), nem do túnel do Marquês, nem das trapalhadas do Major, nem de mil outras coisas , grandes e pequenas, sempre a acontecer, e de que todos falam ou já falaram, mas apenas, desta vez, da  recente ida da ACMedia, Associação de Consumidores de Media, a duas escolas de Coimbra, a Silva Gaio e a Martim de Freitas.

Vale a pena dizer bem, quando tanta gente critica o nosso ensino, as nossas escolas e os nossos professores. Há de facto, gente maravilhosa que, mesmo quando falta o dinheiro, consegue fazer “milagres” para interessar e motivar alunos, para recuperar alunos difíceis e integrar alunos estrangeiros, conseguindo níveis de sucesso bem elevados.

A ACMedia , em mais uma das suas visitas às escolas, com o objectivo de sensibilizar alunos e educadores para um uso mais criterioso dos “media”, foi encontrar professores e jovens alunos altamente interessados e participativos, que nos alimentam a certeza de que vale a pena lá irmos, semear, despertar...e congregar boas vontades!

Pelo caminho, pudemos ver como de uma velha casa-de-banho desactivada se fez um simpático gabinete de atendimento permanente para alunos que querem desabafar e questionar os adultos, que procuram um ombro, um colo, ou simplesmente um coração e uns ouvidos disponíveis, porque são tantas as vezes em que os professores têm de fazer de pais dos seus alunos... E soubemos também, como de alunos considerados casos perdidos para a escola e para a família, se tem feito, e em boa hora, um reencaminhamento para cursos profissionalizantes, levando à descoberta de verdadeiros talentos na cerâmica, nas electrónicas, etc, além de se lhes abrir a porta de acesso ao mundo do trabalho e da integração social !

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( E volto a interromper, desta feita porque tenho de terminar e entregar o trabalho final de Pós Graduação na UCP, antes de partir em viagem a Lourdes, em peregrinação militar internacional... o tempo urge e falta, desculpem, por favor!!!)

................... .......................................................allô, allô? Ainda aí está algum leitor?

 As minhas desculpas por tão grande atraso!

 Voltei finalmente, encantada, e desta viagem vos quero falar! Não sei se alguma vez tiveram notícia desta peregrinação internacional de militares a Lourdes. Por mim, devo dizer-vos que nunca ouvira falar nela. Contudo, foi a 46ª vez que ela se realizou e vou contar-vos a sua génese, porque num tempo como o nosso, de conflitos e insegurança, reunir 15.000 pessoas, em grande parte militares, trajando os seus vistosos uniformes característicos, vindos das mais variadas e distantes paragens (Croácia, Eslovénia, Eslováquia, África do Sul, Coreia, etc), representando os seus países numa belíssima manifestação de Fé e Fraternidade, em que a própria Ministra da Defesa de França esteve presente, bem merece ser notícia !

Segundo reza a história verídica, pouco tempo após a 2ª Guerra Mundial, certo dia encontraram-se na gruta de Massabielle, em Lourdes, no meio de muitos outros peregrinos, a rezarem aos pés da Virgem, um oficial francês e um oficial alemão. Reconheceram-se mutuamente, pois um tinha estado preso num campo de concentração em que o outro era um dos guardas. Ao encontrarem-se ali, levados pela mesma fé, comoveram-se, abraçaram-se, rezaram em conjunto e logo ali combinaram que tudo fariam de futuro para, vencendo as barreiras do ódio, ali reunirem militares de todo o mundo num esforço sobre-humano de Perdão e  Paz .

 Desde então, todos os anos ali se reúnem, durante três dias, em Maio ou Junho, numerosos representantes militares e suas famílias, num memorável encontro e espectáculo de cor, música, juventude, alegria, esperança, fraternidade e fé! Ali se misturam o religioso e o profano, numa alegria e entusiasmo contagiosos, num local onde tantas doenças de corpo e de alma têm encontrado cura, humana e cientificamente inexplicável !

Primorosamente organizada, este ano pelos Capelães militares da Armada, acompanhados pelo Bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, e num gesto significativo e concreto da sua importante missão pastoral, a peregrinação deste ano levou de autocarro, cerca de 400 portugueses, entre militares e civis. Alguns destes peregrinos são autênticos veteranos, pois voltam ano após ano- alguns já lá foram 20 vezes! – incapazes de esquecer esta experiência .

“O Senhor é o meu rochedo” era o lema da peregrinação deste ano, ano em que se comemora o 150º aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição e em que o Papa planeia, segundo corre, uma nova ida a Lourdes no próximo dia 15 de Julho. Ali, num local belíssimo, onde a Senhora da Conceição apareceu  a Bernardette Soubirous, militares e civis, doentes e sãos, fomos todos – mais e menos crentes! -  em romagem de homenagem à Virgem, pedir saúde de corpo e de alma, conversão dos nossos corações empedernidos e prometer que, nos nossos países, nos esforçaremos por ser testemunhas e construtores da Paz  e Fraternidade.

Deixo-vos notícia de como é bom peregrinar. Sinto-me grata. Vale a pena ir a Lourdes!