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Por Fátima Fonseca

15 de Abril de 2004



   Acabo de ler no jornal “ Público” uma interessante entrevista com a Drª Margarida Neto, Comissária para os Assuntos de Família, a propósito da subida de 46% da taxa de divórcio, em Portugal, em 2002, em que a mesma era justificada como uma espécie de “ inevitabilidade relacionada com a nossa forma de viver e com a forma como fomos banalizando o divórcio, e de certo modo, o casamento.”

 Acrescentava que “ (...) cultivamos pouco a relação (conjugal) e as expectativas de satisfação, de sexualidade, de amor, de realização pessoal e profissional e de viver um amor com aquela pessoa (com quem se casa) são muito altas. Mas este número avassalador de divórcios significa que não conseguimos manter essas expectativas (...) e tudo isto (se processa) com grande sofrimento. (...) Aos psiquiatras chegam em primeiro lugar os professores, e depois, muitas mulheres de 40 e poucos anos, completamente espatifadas (...) que tentam funcionar como super-mulheres (...)”.

 Referia-se ainda, a Dra Margarida Neto, ao impacto tremendamente negativo do divórcio na estrutura social, afirmando abertamente que “ uma sociedade coesa e forte precisa da família estável, de empresas estáveis, e de repente, olhamos para a sociedade portuguesa e vemos as famílias desestruturarem-se, empresas (com situações) complicadas, uma vida que é um stress permanente (...)!”

Ao ler estas palavras que nos alertam uma vez mais, para além da urgência de melhor construir e proteger conjugalidade e parentalidade, também para a difícil conciliação Família – Trabalho, lembrei-me que estou em falta para com a tão estimável e estimada APFN – Associação Portuguesa de Famílias Numerosas – já com perto de 3.000 sócios! – que tantos esforços tem envidado em defesa não só das famílias numerosas, como de todas as famílias portuguesas, e cujo Presidente, em finais de Março último, foi muito justamente escolhido para Presidente da Confederação das Associações Europeias de Famílias Numerosas.

 De facto, ainda aqui não mencionei o recente e valioso contributo da APFN para a celebração dos 10 anos do Ano Internacional da Família, com a realização na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, do II Congresso Europeu de Famílias Numerosas, no passado dia 27 de Março, em que estiveram presentes vários membros do governo, representantes e delegados de todo o País – Continente e ilhas – e dez estrangeiros, representantes de outras associações europeias congéneres, bem como muitos outros participantes.

Num ambiente de frescura, alegria e criatividade- com coros de crianças e jovens, momentos de poesia e distribuição de flores a todos os presentes por mais de 40 crianças, filhas de alguns dos muitos participantes, que estiveram presentes no início e no final do Congresso intitulado “Famílias Numerosas : Primavera numa Europa envelhecida”- foram excelentes as diversas intervenções.

 De realçar sobretudo, no dizer de muitos, a apresentação da Profª Drª Maria Teresa Ribeiro, do Observatório dos Assuntos de Família, um estudo inédito e arrasador da Deloitte and Touche sobre “Família e Fiscalidade na Europa” e ainda a apresentação da Profª Drª Nuria Chincilla (IESE, Univ. de Navarra), intitulada “Empresas familiarmente responsables”, complementada pelo Engº Ramalho Fontes (director-geral da AESE).

Sem querer menosprezar ou relegar para segundo plano a insubstituível necessidade de mulheres e homens, mães e pais de família, assumirem lealmente os seus compromissos e fazerem escolhas responsáveis, não posso deixar de resumir aqui algumas das pistas deixadas para Governos e empresas, que ali foram apontadas como caminho para uma melhor conciliação Família-Trabalho, a saber: urgência de políticas de flexibilidade de horários e  locais de trabalho, políticas de cuidado e atenção aos dependentes, políticas de oferta de serviços domésticos e outros, de aconselhamento profissional e pessoal, políticas de formação e desenvolvimento e ainda, incremento de outro tipo de benefícios e prémios extra-salariais que privilegiem de facto, a defesa das famílias e do seu bem-estar como garante dum maior empenho e dedicação dos trabalhadores.

(Dir-me-ão “mas vocês já têm a promessa de 100 medidas do Governo! Não é justo que esqueçam tão boas vontades!” e responderei que sim, nós, as famílias, agradecemos, reconhecemos o esforço...mas... por ex. o desagravamento fiscal face a quem decide divorciar-se é francamente pena que tenha ficado esquecido...).

A terminar, queria ainda salientar o recente lançamento de um estudo do Prof . João Carlos Espada, da UCP, sobre a experiência familiar norte-americana, dos últimos 30 anos, e do qual se retiram importantes conclusões com forte interesse até pedagógico, para a leitura dos acontecimentos no nosso país... Por ex.: “ (...) as crianças criadas em famílias biparentais, casadas, em comparação com outras tipologias familiares, completam mais anos de escolaridade, conseguem níveis de rendimento mais elevados e aparentam ter uma maior probabilidade de não caírem na delinquência juvenil.”

 Com efeito, comprova-se aí, entre outros dados relevantes, que “a monoparentalidade contribui decisivamente para níveis mais altos de criminalidade e delinquência juvenil, abandono e insucesso escolar e reflecte-se nos padrões de comportamentos familiares destas crianças no seu futuro”, quando adolescentes, jovens e adultos.

Fiquemo-nos por aqui! Para pensarmos, divulgarmos e reagirmos dentro e fora das nossas próprias famílias, a tempo, enquanto é tempo.