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Por Fátima Fonseca

31 de Março de 2004



   Voltei de Moura, encantada! Tal como há um ano atrás, as ruas continuam limpas e calmas, as casas brancas sem mácula, as gentes acolhedoras, um tempo sem pressa, um barulho sem ruído...na escola secundária reencontrei a mesma infatigável directora, empenhada e encantadora, e uns alunos interessados na matéria que o Cenofa leva de escola em escola -“ Educação dos afectos”!

Pode parecer uma luta um tanto ingénua e quixotesca, mas acreditamos profundamente na necessidade de preparar os jovens para o Amor, ensinar-lhes a compreender o desassossego que os consome e distrai, ajudá-los a conhecerem-se por dentro durante a instabilidade própria da Adolescência, a não terem pressa de queimar etapas, a fazerem boas amizades, a treinarem a Inteligência emocional, a não serem dependentes de televisões e novas tecnologias...enfim, a optarem por comportamentos saudáveis e a saberem dizer “não” aos aliciantes e perigosos convites que os espreitam por trás de imagens sedutoras...somos aliados em quem podem confiar e os alunos percebem-no de imediato! Não oferecemos, nem vendemos preservativos, não trabalhamos para multinacionais, nem levamos interesses escondidos...!

No caminho de regresso porém, tudo me distraía desta realidade. Os belíssimos campos floridos de amarelo, branco e roxo, os arbustos e a esteva, os diferentes verdes da erva, das oliveiras e sobreiros, o céu escuro e ameaçador entrecortado de feixes de luz...tudo me recordava o filme...e de repente, ao cair da tarde, no cimo dum monte pareceu-me ver mesmo um Horto das Oliveiras. À beira da estrada, num café onde parei, cruzei-me com uma jovem mãe que corria para apanhar o seu menino, estendido no chão a chorar depois de uma aparatosa queda de um baloiço... e era o mesmo jeito de consolar e dar colo da outra Mãe...

Já aqui perto de casa, os vidros espelhados de um prédio novo multiplicavam caixilhos negros em cruz e pela primeira vez, retirados os andaimes, três deles pareceram-me mesmo as três outras cruzes... e no passeio, até aquele vagabundo de todos os dias, totalmente alcoolizado, alheado do mundo, todo sujo e desgrenhado, (de cujo olhar sempre fujo) me olhou de um modo diferente...parecia-me quase...não, não me atrevo a dizê-lo...

Sim, falo-vos do filme de Mel Gibson, que fui ver há poucos dias com duas das minhas filhas. Entrou-me pela vida adentro, devo reconhecer, e tornou – me a Via Sacra muito mais presente nestes últimos dias. De um modo quase incómodo, mas doce ao mesmo tempo, a Via Sacra está insistentemente aqui. É uma sensação estranha, mas parece distrair-me frequentemente das actividades que vou tendo em cada momento. Como se me distraísse do mundo. E assim, ao ligar os noticiários e ao ouvir discussões acaloradas por causa  dos deputados, das leis e dos abusos, por causa da Bombardier e dos sem-pão, por causa dos táxis, das ambulâncias, da segurança e das greves durante o Euro 2004 que se aproxima...de repente, o que me parece é o barulho da multidão a acusar Jesus...e Ele, silencioso, no meio deles, no meio de nós...

Ouço e leio as notícias, vejo as imagens, o sangue, a violência, as lágrimas, o terrorismo, os bombardeamentos, os mortos, os feridos, os doentes em cada lugar do planeta, e por mais distante, ou mais próximo que isso aconteça, evoca-me sempre a Dor do Cristo por mim, por si também - seja ou não, crente!, por nós...e o longe da Via Sacra de novo se faz próximo...e os olhares traduzem os mesmos sentimentos: o medo, a dor, o desgosto, a vergonha, o ódio, a vingança... mas sempre o perdão e o Amor de Cristo!  “Pai, perdoa-lhes, que eles não sabem o que fazem...”!

“Lembra-te de mim...” pedia o ladrão arrependido, pendurado na cruz, ao lado de Jesus.

Apetece-me pedir o mesmo... Uma sugestão apenas: não perca o filme!