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Por Fátima Fonseca

15 de Março de 2004



   Às vezes ela aparece aí, de mansinho, quase inadvertida. Bate à nossa porta, não a ouvimos, mas instala-se sem pedir licença, no meio da nossa actividade e em quaisquer circunstâncias, e aos poucos, com mais ou menos protesto, acabamos por aceitá-la e com ela convivemos, com maior ou menor naturalidade. Sabemos que é e será sempre assim, em todos os tempos. É o nosso fim natural, mas para poucos, será fácil conviver com ela.

Torna-se porém, tanto mais difícil, quanto mais brutal, devastadora e imprevisível.

Assim foi, uma vez mais, no dia 11 de Março: a morte chegou a Madrid, não a morte natural, mas a morte assassina, cobarde e violentamente arremessada contra milhares de inocentes de todas as idades, no início de mais um aparente dia normal de trabalho.

 

(Como em tantas outras ocasiões, o coração pede-me que pare tudo, mas a razão não me deixa parar mais que o tempo de, horrorizada, ver e ouvir as notícias, e por eles rezar uma prece... sinto-me esmagada pela sensação de catástrofe sanguinária, incredulidade, solidariedade, vulnerabilidade, um tremendo desconforto, uma espécie de luto universal que transpõe fronteiras, uma imensa pena que ultrapassa as lágrimas espontâneas, um querer parar para consolar, partir para curar, dar vida, ajudar, sem poder e sem saber como...pensar que para sempre, aqui ao nosso lado, milhares de pessoas foram afectadas directa ou indirectamente e para elas nada voltará a ser como dantes...nunca mais! Meu Deus, meu Deus, como é possível?... Quando é que nos transformamos em monstros?)

 

Este mesmo mistério imenso do sofrimento humano – dizem – está bem patente no recente e tão polémico filme de Mel Gibson, “ A Paixão “ de Jesus Cristo, que nesse mesmo dia estreou entre nós e que brevemente quero ver.

 Hoje porém, tinha pensado falar-vos antes, de dois rápidos “flashes” que apanhei por estes dias.

O primeiro foi na rádio, mais concretamente na Antena 2, à hora do almoço, no excelente programa “ Jardim da Música”, a propósito das mulheres condecoradas no passado Dia da Mulher. Ouvi apenas parte da entrevista, mas chamou-me a atenção, a segurança e alegria com que falava uma das condecoradas, a nossa jovem maestrina, Joana Carneiro, e sobretudo a referência agradecida que fez aos pais “como os grandes impulsionadores e incondicionais apoiantes, sempre presentes nos grandes momentos da sua vida profissional e familiar.”

 Por contraste, lembrei-me de uns escassos 17 jovens alunos de uma escola do centro, que na verdura e inexperiência dos seus 13-18 anos, afirmavam, contra a opinião de outros 100, num questionário sobre o Namoro, que “ O ambiente familiar em que se é educado (a) não tem influência na nossa personalidade e nos nossos projectos de vida”...Recordo como foi importante o Cenofa ir até lá, a convite de uma professora, para ajudar os jovens a reflectir sobre “Educação dos Afectos”... e revejo  uma outra professora que dizia, à despedida : “Não imagina como me sinto só...eles precisam tanto de apoio e nós próprios, directores de turma, estamos tão sozinhos, tão entregues a  nós mesmos e aos nossos recursos...”.

 Pergunto apenas: Que Educação estamos a dar aos nossos jovens, hoje? Alguém pensa nas dificuldades dos professores? Na sua indispensável formação humana e espiritual, para lá do seu saber específico, que aqui não ponho em causa? Acham porventura, que os professores são meros técnicos ou “robots” incumbidos de transmitir informações???

 

O outro “flash” foi um breve encontro com a “ D. Dourada”- como lhe chamamos, por brincadeira, aqui em casa, fazendo um trocadilho com o seu verdadeiro nome. É uma autêntica “public relations” e mulher de negócios na verdadeira acepção da palavra, ainda que só tenha provavelmente, a antiga 4ª classe. Ia comigo no carro, há alguns dias atrás e confessava-me as suas grandes preocupações com o filho único de 30 anos, desempregado, que por traumatismo de parto, sofre de uma pequena deficiência motora, aprendeu a falar só aos nove anos e não conseguiu acabar o 9º ano de escolaridade. Ainda há pouco trabalhava num restaurante dum familiar, mas teve de sair porque um colega passava o tempo a gozar com ele, troçando das suas dificuldades. A mãe, vendo o sofrimento do filho, acabou por tirá-lo, não sem antes dar uma magnífica lição de humanidade ao jovem trocista. E comentava para mim, de lágrimas nos olhos, do alto da sua imensa sensibilidade maternal e com a sua elevada inteligência emocional:

-“ Quando ele era pequenino, sabe, eu queria tanto que o meu filho fosse inteligente como os outros meninos e como o meu marido! Esperava tanto que ele tirasse um cursozinho e fosse mais que a gente...sofri muito...mas sabe a senhora? Apesar de tudo, quando olho para ele penso que antes quero que ele seja bom como é, do que ter muitos estudos, estar muito bem na vida e não ter coração...”.

Obrigada, D. Dourada! Deixe-me que lhe diga aqui, nestas linhas que nunca lerá, que a senhora tem uma tal delicadeza e finura de sentimentos que me lembra umas palavras que em tempos li, a propósito de uma grande senhor, já falecido, que pouco ligava ao seu aspecto exterior, apesar de não lhe faltarem meios, nem educação e projecção social, “...aquele levava as rendas e os pergaminhos vestidos por dentro!”