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Por Fátima Fonseca

29 de Fevereiro de 2004



   Aguardo luz verde, junto ao semáforo da minha rua, e embora sabendo que é urgente escrever sobre o recente Congresso “Pais no séc XXI- um desafio a vencer !!!” , sinto-me ainda demasiado dispersa para começar a escrita... e pouso um olhar distraído na tabuleta da tasca da esquina , onde se lê em letras grandes  -  “ Hoje:  Pézinhos de coentrada”, ( ai, os famigerados “pézinhos e  mãozinhas” que a minha mãe tão sabiamente nos fazia provar e que eu tanto detestava, quando era pequena! Aquilo é que era saber educar!). Logo a seguir, vejo um enorme “outdoor” anunciando uma peça de teatro com referência a qualquer coisa como nove dedinhos (?)e do outro lado um pé enorme segurando entre os dedos um telemóvel para divulgar o sistema  de falar sem mãos. (Olho para as minhas mãos geladas e enrugadas, e de imediato me lembro do belo conto de Trindade Coelho(?) sobre “As mãos “ queimadas e cheias de cicatrizes da mãe que salva o filho das chamas....lá estou eu em plena divagação...).

   Entre mãos e pés, regresso a casa, recordo uma imagem projectada no écran da sala, mostrando uns pézinhos descalços, de criança, dando passos sobre uns pés calçados de pai (e revejo-me nos anos distantes da minha infância, a aprender a dançar, terna e confiantemente, sobre os sapatos do meu pai!) e... começo, finalmente, o “flash-back” do Congresso deste último fim de semana, na Universidade Católica de Lisboa!

   Meia dúzia de Associações – AFEP – Associação para a Formação Parental, Escola de Pais Nacional (do Porto), Associação Famílias (de Braga), MDV-Movimento de Defesa da Vida, CEPCEP- Instituto de Ciências da Educação da Universidade Católica de Lisboa, e CENOFA- Centro de Orientação Familiar, juntaram-se há cerca de um ano atrás para iniciarem os primeiros passos da constituição de uma Federação de Associações para a Formação Parental. Agora, aproveitando a feliz iniciativa e a impecável capacidade de liderança da AFEP, no sentido de organizar um Congresso sobre Educação Parental, a Federação (FEPAFP) veio dar-se a conhecer, contando com o apoio claro e incondicional, desde a primeira hora, da jovem e enérgica Coordenadora Nacional para os Assuntos de Família, Dr.ª Margarida Neto.

   Neste ano de celebração mundial dos dez anos sobre o Ano Internacional da Família, em plena acesa discussão nacional sobre legislação referente a abortos, embriões congelados e educações sexuais, com o pano de fundo da crise nacional de economia, valores, auto-estima e cultura, não podia ter sido mais feliz a coincidência de serem precisamente meia dúzia de Associações “carolas”, na sua maioria trabalhando e sobrevivendo sem apoios estatais e à custa de verdadeiro e generoso voluntariado, a virem falar da necessidade de ajudar os pais na sua irrenunciável tarefa de primeiros educadores! 

   De facto, ali naquela casa, tendo sempre presentes as gritantes necessidades de apoio das famílias mais  em risco e das suas crianças, bem como das famílias – tantas vezes esquecidas! – ditas normais e clássicas, passaram muitas e variadas pessoas, que quer como oradores, moderadores ou assistentes, puderam dar e receber, ouvir e aprender, e viver momentos de grande intensidade e riqueza. Ali ouvimos as vozes sábias de mestres sem presunção , as experiências humanamente comovedoras de quem não se envergonhou de abrir o coração e falar da sua vida pessoal enquanto pais e enquanto filhos , e as vozes ternas e argentinas de crianças ricas e pobres.

   Não cabe aqui, nem seria capaz de resumir ou “revisitar”- como tão bem soube fazer a relatora do Congresso – todos os grandes momentos do Congresso.  Contudo, seguindo o modelo “impressionista” proposto por um famoso político ali presente - entre outros que vieram dar o seu precioso aval à iniciativa... deixo-vos algumas pinceladas de ideias-chave e testemunhos ali transmitidos :  

  1. “...mesmo quando o não conseguimos manter, o modelo ideal de família é, e continuará sempre a ser, a família constituída por mãe, pai e filhos, num ambiente de permanência e estabilidade...” ( Prof Rebello de Sousa );
  2. “...a alta taxa de divorcialidade e de mulheres a trabalharem em “full –time” são dados estatísticos altamente preocupantes da realidade portuguesa actual ...”, “ os pais - em regra- são peritos relativamente aos seus filhos, querem o melhor para os seus filhos, gostam de partilhar as experiências educativas, têm frequentemente sentimentos ambivalentes e crescem na alternância de tentativa/ erro ( Prof Gomes Pedro)”;
  3. “...é preciso ouvir os filhos com o coração...”. “Os meus pais têm sido a minha retaguarda familiar fantástica...estou sozinha com o meu filho há cinco anos, mas o meu filho tem o melhor pai que ele poderia ter tido”, “...não quero impor nenhum modelo a ninguém, mas eu preciso de ir diariamente à Missa das sete à Igreja, para – como diz o Padre Zé Manel- “ ali juntar tudo o que andámos a dispersar durante o dia...” ( Laurinda Alves);
  4. “...aprende-se a amar em casa, com o exemplo, sempre vi os meus avós unidos e felizes, o mesmo com os meus pais, e espero – agora que tenho a minha sogra a viver lá em casa, como nas imagens do National Geographic em que quando a leoa está velha e doente é levada para junto da manada e não a deixam só! – espero que os meus filhos saiam doutorados em amor!...”(António Pinto Leite);
  5. “...da relação com os meus pais queria falar aqui em três aspectos essenciais para a minha formação: o exemplo moral e espiritual como católicos comprometidos, animadores, abertos, no serviço à paróquia, aos vizinhos, à família alargada, aos outros; o optimismo entusiasta com que sempre nos animaram a sermos autónomos e nos fizeram olhar as coisas bonitas da vida, elogiando e ensinando a ver o lado positivo de tudo; o porto de abrigo que são, em todos os sentidos, mesmo agora que já não vivo em casa...”( Nuno Archer de Carvalho).

   É certamente uma injustiça deixar tanto  por dizer e não citar sequer os nomes de  tantos outros que por ali passaram durante aqueles intensos dois dias , mas o” m2”  já vai longo...para terminar porém, ficaria mal comigo própria se não felicitasse aqui a pessoa  mais responsável por esta importante iniciativa e que mais incansavelmente contribuiu para que ela se concretizasse : a presidente da AFEP e da Federação, Conceição Seabra Gomes ! Parabéns, São, as famílias agradecem-lhe!

       Valeu bem a pena !