Quem somos
Temas
Intervenção
 

Por Fátima Fonseca

15 de Fevereiro de 2004



   A Sida cresce em Portugal? “ - Ah! É tudo por falta de Educação Sexual...!” 

  Os jovens portugueses não ligam e continuam com comportamentos de risco? “- Dêem-lhes Educação Sexual...!”  

  Os Portugueses têm uma das mais altas taxas de gravidez na adolescência? “- O que faz falta é Educação Sexual nas escolas ...!”  

  O aborto é um flagelo em Portugal? “- Então mude-se a lei e...Educação Sexual já! Aborto?! Oh,filha, claro que o aborto é uma coisa horrível, mas quem é que se preocupa com isso? Olhe, nos outros países já nem se fala nisso! Nós é que estamos sempre atrasados! A Educação Sexual é que é preciso ...!” 

  ...pois é, parece que o politicamente correcto e o que está aí na ordem do dia é considerar a Educação Sexual como a panaceia para todos os males !

  No Parlamento, nos corredores, nas sedes dos vários partidos, nas revistas, nos jornais, nos cafés e autocarros, todos discutem o tema.

  Mas afinal- perguntarão os mais distraídos e talvez quem não tenha filhos, nem netos em idade escolar – que histeria é esta e porquê tanta celeuma?  

  Na verdade, é caso para nos perguntarmos, como é que tanta gente sobreviveu sem Educação Sexual na escola e ainda por cima, sabia o que era amizade, atracção, amor, namoro, paixão, casamento, fecundidade, gravidez... e também sabia, ou aprendia, mais tarde ou mais cedo, o que era erotismo, adultério, homossexualidade, promiscuidade, pornografia, doenças sexualmente transmissíveis...e conseguia distinguir Bem e Mal, e conhecia o significado de palavras como respeito, fidelidade, liberdade e responsabilidade...? E não eram felizes?

   Que aconteceu de tão estranho nas famílias para as mães e pais terem deixado de saber explicar aos seus filhos os mistérios mais naturais e belos da vida humana, como se se tratasse de novíssimas tecnologias, destas que implicam tirar complicados cursos de computadores, teclados, botões e Internets? Que se passa com os professores de Biologia, os compêndios de Ciências, os velhos desenhos do corpo humano e as antigas aulas de Psicologia que falavam de emoções, paixões e outras coisas mais, que nos iam abrindo os olhos gradualmente, nos tornavam observadores e nos ensinavam como reagimos nas mais diversas situações? E como é que os adultos de hoje já não conseguem fazer-se ouvir, nem precaver os jovens contra todos os perigos ?

    Afinal o quê que está a falhar? 

   E por que razão não nos conseguimos entender, como se fossemos falantes de línguas diferentes, ou irmãos desavindos?

   ...pois é, o problema é que não conseguimos entender-nos acerca do que importa ensinar às crianças e jovens, nem a quem cabe essa função de ensinar, nem sequer o que se pretende atingir com esses ensinamentos, porque esta matéria não é, nem nunca será neutra, na medida em que implica opções pessoais, livres e responsáveis, que se traduzem em valores, comportamentos, atitudes e formas de estar na vida que nos marcam profunda e irremediavelmente.

  É por isso, que nunca conseguiremos estar todos de acordo. E por isso, quem governa não pode esquecer que se os pais são os primeiros e principais responsáveis pela educação dos seus filhos, como tal, têm direito a escolher o que querem para os seus filhos e não lhes pode ser imposto um modelo único e totalitário!

  Na verdade, a Educação Sexual não começa na escola com a explicação do aparelho reprodutor, não termina com os conselhos sobre métodos de contracepção ou como evitar gravidezes precoces, nem tão pouco visa em especial, reduzir drasticamente a sida e outras doenças sexualmente transmissíveis.

   Educação Sexual é muito mais do que isso, porque ela faz parte da Educação dos Afectos, que por seu turno é abrangida por aquilo que se chama de Educação Integral, isto é que comporta Educação Intelectual, Física, Artística, Moral e Espiritual.

  Com efeito, não educamos uma criança para o sexo, mas sim para o amor, no amor e com amor e isso significa que a sua principal referência desde que abre os olhos, é o amor que recebe de quantos a rodeiam, através do tacto, dos beijos, dos sorrisos, da ternura e cuidados com que a envolvem e através do amor que aos poucos vai presenciando à sua volta entre os próprios pais, irmãos, avós, etc à medida que cresce.

 

   Se hoje chegámos onde chegámos, as responsabilidades cabem não só às famílias em desagregação e conflito, sem tempo nem lugar para crianças, mas também à escola, educadores e políticos, confusos e desorientados nas suas próprias vidas, saberes, papéis e convicções, e ainda aos Media que espelham, e continuamente, multiplicam à exaustão, os erros da sociedade de consumo que criámos...

  Com efeito, a nossa é uma sociedade que permanentemente busca o lucro a qualquer preço, que tudo transforma em objecto de compra e venda, que incentiva ao gozo irresponsável e ao prazer fácil, ao ter já, aqui e agora, sem espera, sem mérito, sem esforço e sem honestidade, ao poder efémero e provisório, sem escrúpulos nem limites, tudo resumindo ao “ goza agora e não te preocupes com o depois”, “pensa em ti e os outros que se lixem”( passe a expressão!)...

  Como poderemos confiar a Educação Sexual dos nossos filhos a quem assim pensa? Como poderemos ficar tranquilos se soubermos que na escola dos nossos filhos há máquinas de preservativos ao dispor e lhes dizem entre muitas outras coisas, que “as relações sexuais entre namorados são perfeitamente aceitáveis desde que não haja gravidezes indesejáveis, usem preservativo e, se possível, estejam apaixonados?”

  E como poderemos ficar indiferentes ao saber que, por exemplo, a mentalidade actual já permite que num exame de faculdade se peça, hoje, aqui e agora, que os alunos descrevam / inventem a estratégia a usar para convencer/ persuadir (os partidos tal e tal) a aceitarem o aborto e o seu novo referendo?

  Como nos poderemos entender? Como confiar a estes “iluminados” a educação da inteligência, da vontade e dos sentimentos dos nossos filhos?

  Como poderemos nós ensinar aos nossos filhos, crianças, adolescentes e jovens, a serem responsáveis nas suas decisões, a enfrentarem com fortaleza as dificuldades, contradições e dores, a empenharem-se generosamente na defesa de ideais de solidariedade, por exemplo, a estudarem com esforço e perseverança para serem alguém e tornarem este mundo melhor com o seu trabalho e o seu serviço, se depois na escola e nos Media se deparam com uma perfeita lavagem ao cérebro diária, com mensagens consumistas, massificantes e medíocres, cheias de um relativismo agnóstico, vazio e materialista, mascarado de uma alegria alarve e de um vago sentimentalismo confuso e egoísta...?

  E querem que nos calemos e votemos arrastados por modas e pressões?

  Por favor, caros pais e educadores, acordem, estejam atentos, vão às escolas e saibam o que lá se passa e o que andam os vossos filhos a aprender, antes que seja demasiado tarde! Não deixem que outros decidam por vós! Não cruzem os braços!