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Por Fátima Fonseca

30 de Dezembro de 2003



   É o tempo de que mais gosto :  Natal! Está um tempo maravilhoso e estou onde mais gosto : na Praia.   

  Porém, de vassoura em punho, ando pela casa a fingir que limpo, cansada, aborrecida e sem vontade, a limpar os intermináveis restos dum dia de Natal em família alargada.

  Ninguém em casa, só eu. Lá fora , faz frio neste lindíssimo dia de Inverno! O sol brilha, o céu muito claro e azul sem mancha, aqui e ali apenas o risco branco de um avião, e o cheiro a pinhas, lenha e  maresia, tudo convida a passeio no pinhal. Saio, a ver se passa a dor nas costas, dou a volta à casa, respiro fundo a aragem fina e fria , e resolvo arrumar a vassoura ...já sei, vou até à cabeleireira cortar dois dedos de cabelo... (pode ser que fique com melhor disposição! Sei lá porque estou aborrecida ? Há dias assim...até me aborreço comigo própria por estar aborrecida...).

  Entro decidida, na casinha modesta e sem tabuleta, para ninguém saber que é mais do que uma simples casa de habitação . Dou-lhe um beijo e digo ao que vou, mas percebo logo que algo de grave se passa. Chorando, pára de pentear uma cliente, abraça-me e diz-me apenas : “A minha vida está num caos!”

  As horas passam e não sei como consolá-la. Conheço-a desde miúda. Resta-me ouvi-la e confiar-lhe a minha cabeça. Ao meu colo, um doce bebé de 15 meses, chupeta na mão, bolacha na boca, vai mirando e remexendo em tudo. É o neto dela que acaba de perder o pai - com 30 anos - na sequência dum enfarte do miocárdio agudo e ao fim de dois meses em coma.  Era um rapaz saudável, só que vivia em grande ansiedade desde que perdera o emprego nos Correios, sobretudo agora que se aproximava o fim do subsídio do desemprego...

  Corte aqui, corte ali, o meu cabelo vai desaparecendo, sem que eu quase dê conta, tal a dimensão da tragédia e a sem - importância do cabelo cortado. Entretanto fico a saber que também ela tem o marido - de 59 anos - desde o Verão, com um cancro no estômago. Está a perder o andar por nova metástase na coluna... e começa a faltar-lhes tudo , pouco a pouco, com o marido na cama, os gastos a crescerem e a falta de tempo para trabalhar de cabeleireira. A comunidade evangélica da zona, maioritariamente inglesa, já se mobilizou e generosamente , já lhes está a pagar o telefone. Mas, e o gás, a mercearia, os remédios, a fisioterapia...???

  Regresso a casa quase sem cabelo, é certo, mas certa de não ter direito a estar aborrecida! Sou uma felizarda! Agarro na vassoura e, furiosamente, entre lágrimas, acabo o trabalho.

  No dia seguinte, a aventura do costume : regressar a Lisboa, no meio de malas e malinhas, sacos, cabides, uma infinidade de coisas, saídas nem quase sabemos donde, carregamentos escada abaixo, escada acima, horas a arrumar e lá me vem outra vez  aquele “aborrecimento aborrecido” sem bem saber porquê...todos apertados dentro do carro, de repente solta-se uma gargalhada e esfuma-se a sensação desagradável. Sobre o meu colo  um presunto, meio preso, meio solto, espreita da caixa de cartão e cai-me sobre os pés. Ri-se a minha filha Maria Ana e rio-me eu até às lágrimas. A cena parece de filme!

  Adormecemos por escassos momentos na viagem, mas ao acordar volto a lembrar-me que não tenho razões, nem direito a aborrecer-me...recordo a história da cabeleireira e depois a do ex-tipógrafo, - relatada numa destas revistas dos jornais de domingo, que acabei de ler - hoje paraplégico, homem jovem que se vê impossibilitado de comunicar a não ser através de pancadas com a cabeça num dispositivo tipo - rato de computador, em que consegue ir escrevendo pensamentos e desejos, até poesia, graças a uma outra colega de infortúnio, presa também ela a uma cadeira de rodas, mas que inventou um código que lhe permite decifrar e passar ao papel tudo o que ele vai criando na riqueza do seu espírito...( perante gente tão admirável, como posso sentir-me aborrecida? ).

  No final do dia, como por encanto, desaparece-me o cansaço... frente à televisão, revejo as notícias de tantos horrores, lá fora no Irão, no Iraque, e cá dentro...e fujo (?) das desgraças fazendo um zapping mesmo a tempo de rever o inesquecível filme “Favores em cadeia”...Trevor, um menino de 11 anos,  com uma sensibilidade e uma maturidade fora do vulgar, faz tudo o que pode para mudar o mundo “mau” à sua volta! Inspirado por um professor não menos invulgar, tem uma ideia genial e transforma-a em projecto real : acredita que se fizer três coisas difíceis, três favores, a três pessoas diferentes e se cada uma delas , por seu turno, fizer o mesmo a outras três e também lhes pedir que continuem a fazer e a pedir a outros que o façam, conseguirá uma cadeia de favores que contribuirão para tornar o mundo melhor...e assim começa por levar para casa um vagabundo toxicodependente e esfomeado , consegue que a mãe abandone o vício do alcoolismo e...não posso contar o resto ! Digo apenas a quem não viu, que vale a pena ver ! Um pouco daquele idealismo não nos faz mal nenhum !...Só pode fazer bem!

  Desculpem, mas não posso acabar este m2 de fim de ano – mesmo alongando-me um pouco mais!- sem vos falar de outro projecto transbordante de idealismo nesta nossa cidade ! Soube-o através de colegas da Universidade Católica que nele trabalham: uma equipa de rua, orientada pelas Irmãs Oblatas e composta por várias outras pessoas, faz trabalho com prostitutas, contactando uma por uma e convidando-as a frequentarem aulas de duas horas diárias ao longo de um ano. Aprendem arte, dança, teatro, poesia, ioga, ofícios e recebem um pequeno subsídio, patrocinado pela Câmara Municipal . São tratadas como pessoas, descobrem o que é fazer amizade e sentirem-se estimadas e estimáveis, e ao fim desse período de formação e mudança, muitas delas querem trocar de vida, passam a viver numa residência com os seus filhos pequeninos, quando os têm, e conseguem outro modo de vida e uma reinserção na sociedade...

  Guardo na memória as palavras de uma nossa professora, à saída da aula, comentando este mesmo projecto :-“ Sabem? Há muitos anos que ando a trabalhar ligada a projectos interculturais com imigrantes, ciganos, etc. e cada vez estou mais convicta de que é sempre possível fazermos e mudarmos alguma coisa....nos interstícios dos sistemas há sempre um pequenino espaço para actuarmos, se quisermos...é por isso que sou uma pessoa optimista! É possível mudar o que está errado...se cada um se esforçar!”

  ... Um Bom Ano, meus Amigos! Até Janeiro de 2004, se Deus quiser!