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Por Fátima Fonseca

15 de Dezembro de 2003



   Abro a caixa do correio, à chegada a casa, como de costume, mecanicamente, enquanto vou cantarolando a música dos Tribalistas, “Velha Infância”( que confesso, me “apanhou” por completo!). Entre o correio habitual da época encontro um enorme envelope de correio azul, cuja letra incerta, difícil e torta, logo me denuncia a sua proveniência! Lá dentro vem um pequeno cartão de Boas Festas, com um presépio, todo escrito nos quatro lados, com aquela inconfundível caligrafia, que guardo intacta na memória! É da G., eu sei, e nem precisaria de ler o remetente! Lá está!

  Recordo a história já distante daquela rapariguinha então de 13 anos, hoje mulher feita, com dificuldades imensas de expressão e articulação das palavras, mas com uma vontade férrea e uns pais e dois irmãos sempre disponíveis e protectores.

 Fisicamente, a G. continua quase igual, mas agora vive numa cidade do litoral  e alcançou a autonomia possível, trabalhando numa loja.

 Recordo os seus olhos negros tão expressivos, as suas zangas quando não conseguia o que queria, os seus imensos esforços e as suas pequenas-grandes vitórias tão aplaudidas!

  Mesmo sem querer, vem-me à memória como aqueles pais foram corajosos e viveram a sua maternidade e paternidade com angústia, sim, mas com responsabilidade e ternura, sem darem ouvidos a quem já então lhes dizia que era melhor abortar, dada a problemática gravidez...Pessoalmente, tenho de vos dizer que foi para mim um autêntico desafio e um privilégio, ser professora da G. durante três anos e manter estreito contacto com aquela família!

  ...Volto ao carro, mesmo a tempo de o retirar, ante o perigo iminente de ser alvo de mais uma lição de cidadania rodoviária por parte da Polícia Camarária, com os seus novos métodos – o chamado “perigo amarelo”! (Conhecem?) ! A meu lado, uma carrinha com luzes azuis, girando em alerta, lá dentro dois guardas, muito aplicados: um aplica coimas, outro, os bloqueadores... serenamente, ambos dizem cumprir apenas ordens superiores para que a desordem e o caos não sejam ainda maiores nas ruas de Lisboa. De facto, não gosto e complica-me a vida, mas a verdade é que tenho de reconhecer que alguém tem de dar sinais claros de que o respeito pelo outro e o bem de todos tem de estar acima dos meros interesses egoístas de cada um de nós... neste caso, o meu (farta que estou de dar voltas e reviravoltas ao quarteirão em busca de um lugar...).

 Ligo o rádio e neste fim de tarde, enquanto vou tentando circular pelas ruas de Lisboa, tão cheias de belas decorações de Natal, volto a ouvir a minha música favorita, “ Velha infância”:...seus olhos, meu clarão, me guiam dentro da escuridão...seus pés me abrem o caminho...eu gosto de você...

 E dou comigo a pensar de repente, se neste Natal, vão ser estas luzes sempre fascinantes  do comércio e das ruas, das janelas e varandas, a iluminar enganadoramente a nossa escuridão, ou se  vai ser antes, essa Luz que permanece e  nos vem do Presépio.

 Pergunto-me baixinho, se ainda é Ele que vai guiar os nossos passos, ou se vamos deixar que sejam as leis dos homens, feitas e desfeitas ao sabor de maiorias, modas, caprichos e cegueiras de governantes e legisladores, venham eles donde vierem!- que nos vão dizer como pensar e actuar...e moldar esta nossa tão frágil consciência...que de tão pouco e mal usada, já nem sequer consegue perceber que uma interrupção voluntária da gravidez é e será sempre tirar a vida a outro, neste caso, um filho, por mais pequeno, incómodo e deficiente que ele possa ser!

 Santo e feliz Natal, meus Amigos !