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Por Fátima Fonseca

30 de Outubro de 2003



   Estou ao computador. Sobre a mesa misturam-se alguns dos vários temas possíveis para hoje: os dramas vários dos DLD (Desempregados de longa duração), dos DCE (Desempregados com esperança) e dos DSPE (Desempregados sem ponta de esperança ), a quem distingo pelo olhar vazio e pelo vaguear nas ruas, pela avidez com que lêem os anúncios de jornal e pela forma como estão sentados à mesa de café, ou nos bancos de jardim ; a necessária avaliação de vários produtos da Comunicação Social, entre eles e com inesperada urgência, a incrível capa e história de “gays” da última revista “Única”, pertença – pasmem só! - do Expresso ( “até tu...?!”), por favor, se como eu vos indigna esta história num jornal com tanta responsabilidade e fama, digam do vosso desencanto...não fiquem calados!!! Pensava ainda abordar esta crescente crise de auto-estima e vergonha que a todos nos afecta, ao vermos a imagem que Portugal tem vindo a dar nos Media internacionais... (que fazer? Como provocar uma contra-maré? Que coisas desconhecidas podemos Bem-dizer e apregoar, para não continuarmos nesta novela cheia de lixo e de novos episódios cada vez mais sujos??? Prof. Joaquim Azevedo, por favor, quando começa o seu prometido programa de “Boas notícias” e boas práticas?).

  Estava eu indecisa, mergulhada nestas conjecturas, entra-me uma minha filha porta adentro, chegada da chuva, cabelos molhados, cara gelada, um beijo quente, um abraço terno e pondo-me uma mão maternal sobre o ombro, diz-me assim:

  -“Mãe, não pode continuar a escrever tanto! Ninguém lê! Olhe que o meu prof de Comunicação já disse que só se pode escrever no máximo, cinco écrans, e lá na Faculdade, pus-me a contar o último m2 e cheguei à conclusão de que a Mãe ultrapassa todas as regras, por isso ninguém lê. Acredite, Mãe, que é verdade!!!”

  Tenho de acreditar e docilmente, aprendendo com quem sabe mais, vou- me disciplinar. Para que os meus leitores me leiam, vou voltar ao modelo inicial: um m2 pequenino, que se leia depressa, depressa...

  Então hoje, só vos quero recordar aqui, um breve programa que ouvi há pouco na TSF: “Mel e Fel”, com a escritora Alice Vieira e o médico Eduardo Barroso. Diziam eles e bem, duas curtas mensagens que subscrevo inteiramente! Reconto-vos:

  Alice Vieira recordava o muito de bem que é a normalidade e que a grande maioria dos professores faz no seu dia a dia com as crianças nas escolas, mas que não é narrado por ninguém, porque as únicas notícias que são notícia, habitualmente, são as coisas más: alunos toxicodependentes, escolas destruídas, etc.

  Eduardo Barroso lembrava, por outro lado, como aliás já muita gente receia, que com tanta preocupação legalista se acabe por não fazer justiça alguma no caso Casa Pia, recorrendo ao estratagema de adiamento sucessivo dos julgamentos dos arguidos, enquanto as crianças vítimas são esquecidas e caladas.

  Têm toda a razão. Disseram pouco, depressa e bem! O meu aplauso!

  Deixem-me só acrescentar: Tudo passa e continuará a passar pela Educação. Tudo o que a Comunicação Social diz, mostra e sugere, comenta e aprova, ou desaprova, tem influência directa sobre nós todos, adultos, jovens e crianças. Ninguém fica imune e quanto mais frágeis, mais permeáveis! É uma acção lenta, constante, gradual e profunda. É como que uma outra escola muito mais subtil.

  Quando muitos dos responsáveis pela Comunicação Social quiserem compreender um dia (?), que o seu indiscutível poder contribui decisivamente para o aparecimento de gerações sem escrúpulos, sem noção de deveres e direitos, convencidos de que Educação é só saber ler, escrever e contar, e de que na vida o que importa é ter sucesso, prazer e dinheiro, seja a que preço for, talvez nesse dia seja possível, suficiente e real a norma da auto-regulação...

  Talvez nesse dia se apercebam também, de que é tarde demais e que já são muitos os prejudicados...

  Mas, pronto, pronto, o m2 vai acabar já, curtinho, “rapidinho”, pequenino, para se ler depressa e incomodar pouquinho...desculpem lá! Está tudo dito em três écrans!