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Por Fátima Fonseca

15 de Outubro de 2003



   Esta é uma semana cheia de motivos de alegria para muitos, sobretudo para os homens e mulheres de boa vontade! Por isso , apesar das catadupas de informações em que nos afogamos diariamente, em geral mais negativas do que positivas, esta semana as manchetes de jornais e os noticiários farão obrigatoriamente uma pausa para dizer bem do Bem! E por diferentes e boas razões !

  Também eu me irei esquecer dos prejuízos causados pelo fogo e pelas chuvas.

   E não me demorarei a constatar que, depois das chuvas de novo se ateou um outro “fogo”, em que, desta feita, “arderam” bombeiros e ministros. Umas achas mais, da responsabilidade de Governantes e Media, e aí se gerou a confusão total – como é sabido- entre justiça e política, estudantes e propinas, verdades e mentiras ,cunhas e diplomas, prisões preventivas e libertações inesperadas, seguidas de festa rija e destruidora no Parlamento!

   Proponho-me antes falar-vos de outros assuntos igualmente actuais, mas bem diferentes...lembrando-me de alguém que, com autoridade e noção de oportunidade, em jeito de conselho chamava a atenção para o facto de que um cristão não se pode distinguir “ por dizer mal do Mal, mas por dizer bem do Bem e procurar fazer esse Bem!”.


  Nesta semana decorre, como tem sido largamente noticiado, a celebração dos 25 anos de Pontificado do Papa João Paulo II – esse “homem que não só fez história como faz a História” (como diz Paulo Teixeira Pinto em mais um dos seus excelentes artigos no jornal “Público”), um Papa que tanto ama Portugal e a quem ninguém fica indiferente, independentemente das suas convicções! - bem como a cerimónia da beatificação da Madre Teresa de Calcutá.

  Sobre ela me vou deter um pouco mais, no m2 de hoje! (Não parem já de ler, os previsivelmente menos crentes, por favor!).


   Começo pois, por relatar-vos um episódio a que assisti, um destes dias, ali na zona J, do Bairro de Chelas (considerado o bairro mais perigoso de Lisboa. Conhecem as casas roxas e laranjas no alto de um morro ali perto dos Olivais? O repórter não estava lá, mas eu faço de conta que sou!).

   Eram 11.30 de uma manhã de domingo e à porta das Missionárias da Caridade, vulgo das Irmãs da Madre Teresa de Calcutá, estavam cerca de sete estrangeiros de diferentes idades e ar andrajoso, aparentemente ucranianos ou russos, em atitude de espera. De repente, abre-se a porta de grades e uma das residentes, indiana, já de certa idade, sai com vários sacos de plástico contendo comida, entregando-os de seguida a cada um e despedindo-se com um “até logo” amigável. Com que sofreguidão os estrangeiros pegaram nos sacos, espreitaram o seu conteúdo e foram - se embora ! Quem conhece esta congregação, porém, sabe bem que ali se vive, dia a dia, sempre em flagrante pobreza de meios, embora com abastança de amor...mas ali até o pouco é dividido de forma a chegar para todos quantos lhes batem à porta! Efectivamente, ali não se dá do que lhes sobra – como habitualmente todos nós fazemos! - dá-se do que lhes falta.

  Vim para casa “ removida” por dentro, se assim se pode dizer e pus-me aqui na Internet à procura de mais informações sobre a Fundadora daquela Ordem. Transcreverei apenas um mínimo, para vosso e meu alimento mental, afectivo e espiritual, para lermos em tempo de pausa entre as múltiplas actividades que nos apaixonam, escravizam e entontecem diariamente....

   Certo dia, um crítico da sua obra sugeriu-lhe que para acabar com a pobreza era melhor que “ensinasse a pescar, em vez de andar a dar peixe”, ao que a madre Teresa lhe respondeu: -“ Sabe? Mas é que as pessoas a quem ajudo não podem bastar-se a si mesmas, nem sequer se aguentam de pé, pelo que não podem segurar numa cana de pesca. Mas eu vou dar-lhes de comer e depois vou mandá-las ao senhor para que os ensine a pescar!”

   Dizia também que “ quanto menos possuirmos mais podemos dar; pode parecer impossível, mas não é, é simplesmente a lógica do Amor”. E vivia-a!

  “Actualmente no mundo, não há só fome de pão. Há sobretudo fome de amor, fome de ser querido, de ser amado.”

  (E não pude deixar de recordar o horror recente em França, quando por causa do calor tanta gente idosa morreu e foi enterrada sem que um único familiar aparecesse a acompanhar e identificar o falecido! E não posso deixar de lembrar que morrem diariamente cerca de 43 pessoas num dos nossos grandes hospitais de Lisboa, longe da família e talvez sem um qualquer carinho nos seus últimos momentos de lucidez...)

  Sem perder tempo com discussões sobre o papel da Mulher na Igreja e sempre fiel aos seus ensinamentos, a Madre Teresa dizia que “ a maior pobreza que conhecia não estava nas ruas e arredores de Calcutá, mas nos países ricos, onde falta o amor, e nas sociedades que permitem o aborto. Se conheces alguém que não ame o seu filho, ou que tenha medo de ter um filho e esteja grávida, diz-lhe por favor, que mo dê a mim!” ( e recordo como estas palavras encontraram eco- mesmo que não o façam por sua influência!- num casal de gente jovem aqui em Lisboa, já com três filhos seus, o mais velho de 6 anos e que apesar de viverem numa pequena casa, sem quartos para todos, acabam de adoptar um menino moçambicano de 2 anos apenas ...).

  Ah, quem dera que estas palavras me e vos tocassem até ao mais íntimo do que somos!

  Quem dera que fossemos diferentes e certamente já seria uma realidade bem mais visível a ”civilização do Amor” que este queridíssimo Papa João Paulo II tanto nos pede que ajudemos a edificar ...”ama até que doa. Se te doer, esse é o melhor sinal!” disse a Madre Teresa.

  De facto, não é verdade que as coisas nos doem mesmo, quando contrariamos os nossos caprichos e egoísmos, quando vamos contra-corrente e todos se riem de nós, quando nos sentimos incompreendidos, perdidos e sós, quando nos sentimos desprezíveis e temos vergonha do que somos, mas estamos conscientes do tesouro que trazemos em “vasos de barro”...? Não é verdade, que nós bem sentimos que estas são certamente algumas das dores boas que nos aproximam uns dos outros e a todos de Deus, mesmo que não saibamos bem quem Ele é?


  Vou acabar, mas não posso deixar de referir que hoje, segundo notícia do Expresso e outros, uma loja do Chiado vai dar roupa de marca, nova, a quem lá entrar nu, ou se despir à entrada. De parceria, lojistas e Yorn, para obterem mais lucros, apelam ao mais “rasca”, comprando e vendendo fama, telemóveis e roupa, a qualquer preço, em claro desrespeito pela dignidade do ser humano. Crêem eles que assim atraem mais gente nova. Só vai quem quer, só vê quem quer, ninguém é obrigado! - dizem eles, rindo e encolhendo os ombros.

   É uma vergonha e as autoridades deste país deviam proibir este acontecimento a todos os títulos deseducativo e condenável. Porque não arranjam outra forma de dar nas vistas? Porque não convidam antes os jovens músicos vindos de escolas da província, que há pouco foram galardoados e cujo trabalho bem merece ser divulgado? Porque não oferecem roupa a quem lá for dar sangue para o Instituto Nacional de Sangue, por ex.???

  ...Falar positivo! Está bem, a última palavra tem de ser positiva!!! Já sei...ver-nos-emos no “Terço Vivo”, em honra do Papa, no próximo Sábado, no Estádio Nacional, não é verdade? Então, até lá, meus amigos!