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Por Fátima Fonseca

30 de Setembro de 2003



   “...não tens nada que fazer? Então escreve o teu m2!”

  Hoje, dia 30 de Set º, cheguei a casa sem vontade de escrever, mas eu bem sei que é dia de o fazer.

   Ao longo de quinze dias, entusiasmada, fui recolhendo material vário: a ida à Figueira da Foz, ao Encontro da AORN( Associação de Oficiais da Reserva Naval), onde pude ouvir magníficas intervenções sobre o futuro de Portugal e o papel do Mar, de que logo destaquei a do prof Ernâni Lopes e a do Alm.te Vieira Matias; depois, a publicação sempre discutível e bombástica, dos resultados das escolas e acessos às universidades, mais a questão dos passeios de helicóptero ( pobres bombeiros! Ainda há bem pouco eram uns heróis nacionais, todos eles o máximo e agora já são todos péssimos, corruptos e mais não sei o quê...mas será que já se esqueceram de que “ por morrer uma andorinha não se acaba a Primavera”? Porquê esta terrível mania de dizer mal das instituições de cada vez que os homens falham???). Continuemos então: também pensei falar-vos num outro recente encontro em Almargem-Quarteira, com um grupo de Mães desejosas de reunir regularmente com seus maridos e outros casais para aprofundarem de forma sistemática diferentes temas de Educação com ajuda do Centro de Orientação Familiar de Lisboa...

  Enfim, material não falta, falta-me apenas, de repente, a vontade de o tratar...mas “Fátima, não tens nada que fazer? Então escreve o teu m2” soa-me hoje, mais do que nunca, a uma espécie de imperativo de consciência que quero guardar, lembrar e cumprir.

   Foram estas, para mim, as suas últimas palavras, enquanto conseguia falar e antes do AVC que irremediavelmente a calou e precipitou numa viagem sem regresso.

   Falo de uma pessoa muito especial, Avó dos meus filhos, Mãe do meu Marido, que acabamos de acompanhar ao cemitério ( afinal, apenas outra palavra para dormitório, não é, Padre Nuno?).

  Falo de uma Mulher corajosa, natural, descomplicada, alegre, generosa, acolhedora, disponível, prática e inteligente, sempre activa com as suas “mãos de fada” ( e olho para as minhas com pena de não saber cozinhar, nem fazer doces como ela, nem tricotar, cortar ou coser, como ela sabia !). Recordo-a sempre a trabalhar e a fazer várias coisas ao mesmo tempo...rezava as três Avé-Marias do Angelus enquanto fazia sopa para todos, no Verão, lá no Algarve, ou tricotava, com uma naturalidade única, no meio de uma assembleia atenta, enquanto ouvia uma palestra de espiritualidade...

  Risonha, afável, pequenina, enérgica, sempre pronta a servir para tornar a vida agradável aos outros, até quando doente com um cancro escondeu a notícia durante dois meses, só para não estragar o Natal à família...e não incomodar...

  (De repente dou-me conta porém, de que este m2 se afastou já por completo, das referências habituais às notícias da actualidade e mais não é do que uma homenagem e um agradecimento muito pessoal ! Que fazer?)

  Pego então, nas minhas notas, papéis e pistas, e vou à Internet à procura daquele soneto de que recordo só parte e que não me sai da cabeça ao longo destes últimos dias. Cá está ele : Apólogo da morte, de D. Francisco Manuel de Mello.

  /Vi eu um dia a Morte andar folgando/por um campo de vivos que a não viam./ Os velhos, sem saber o que faziam, a cada passo nela iam topando./ Na mocidade os moços confiando, ignorantes da Morte, a não temiam; / todos cegos, nenhuns se lhe desviam; / ela a todos com o dedo os vai contando(...)/

  Falar de morte pode parecer tétrico. A mim porém, talvez porque a conheci cedo, sempre me tem ajudado a valorizar a Vida. Mas...e que pensará quem me lê agora?

  Paro de escrever. Penso rasgar, recomeçar, mudar de rumo. Que interesse podem ter todas estas reflexões tão pessoais e porventura excessivamente íntimas?...A meio da tentação de deitar fora, toca o telefone. Nem quero acreditar!

   Sem mais , nem menos, telefona-me uma antiga aluna, a quem não vejo, nem ouço há muito, desde que foi para Macau, e vem-me participar o nascimento do seu 5º filho. Fala-me da alegria renovada de voltarem a ser pais e da incompreensão e crítica com que é olhada por tantos. Fico espantada e feliz ao ouvir as coisas que ainda guarda na memória, desse tempo distante em que eu era jovem mãe de família numerosa e sua professora !

  Quando finalmente desligo o telefone, apesar de sentimentos contraditórios, sinto energia suficiente para levar este mesmo m2 até ao fim.

  E vem-me à cabeça, aquele colóquio integrado num Congresso da responsabilidade do IFFD ( International Federation for Family Development), em Roma, Outº 2000, por altura do Jubileu das Famílias , em que se falava do papel dos Avós na educação dos mais novos e nas famílias, e em dada altura, um Amigo português levantou-se e foi muito aplaudido, ao dizer que “ a nossa sociedade pode caracterizar-se numa só frase «movimento sem memória », que é aliás, uma das definições de loucura.

  Por isso, aos avós compete, frequentemente, esse papel de trazerem sanidade à sociedade, memórias do passado, porque alguém disse um dia « nós somos o que são os nossos projectos e sem projectos nada somos». Mas não há projectos, sem experiência acumulada, sem memória do passado, sem sabedoria, pois é essa que interligada no presente nos torna capazes de construir o futuro.”

  Avós, queridos Avós! Não sei se algum me lê, neste momento, mas por mim, não precisam de fazer de conta que são novos ( saltando de pára-quedas, por ex., como aquela avó de 80 anos, recentemente noticiada !) . Por mim, prefiro-os com a idade que têm, de braços abertos e colo disponível, para os netos, brincando ou contando histórias de família ou de faz-de-conta, cheias de ternura e humanidade, fazendo o que melhor souberem, mas sobretudo disponíveis para darem aos netos do tempo que já lhes sobra e que cada vez mais falta aos pais do nosso tempo.


  ...Nos meus ouvidos ressoam ainda os últimos golpes de enxada, vejo a chuva a pingar, os rostos crispados e as lágrimas dos meus filhos, a ternura e oração de tantos amigos e parentes. Voltamos para casa, serenos, mas de coração pequenino.

  Por momentos, abro agora a janela e perscruto a noite chuvosa e sem luz, talvez na esperança infantil de “a” ver brilhar entre as estrelas do céu...em vão, “já não há estrelas no céu”!

  É tarde ! Deito-me, apago a luz, olho o tecto, penso nela, comovida, e na escuridão parecem-me escritas com uma luz fortíssima, as palavras que ouvi e guardo na memória : “...se a certeza da morte nos entristece, conforta-nos a promessa da imortalidade ... para os que crêem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma e desfeita a morada deste exílio terrestre, uma habitação eterna se adquire no céu...”.