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Por Fátima Fonseca

15 de Setembro de 2003



   Vou falar-vos da Paula. Estou certa de que ela não se importará que vos conte a sua história, que não vem nos jornais, nem passa nas televisões e por isso de poucos será conhecida. Como sempre, lá estava ela à porta do supermercado, de camisola e boné amarelo, a vender a revista Cais. Conheço-a há muito, sempre simpática e franzina, ainda que um tanto precocemente envelhecida, para os 42 anos que tem. Só hoje, porém, lhe falei, talvez por ser este um dia especial para mim.

(Os dias que precedem e sucedem ao casamento de um filho são naturalmente dias diferentes, marcados sobretudo por alguma azáfama anormal , mais emoção e muitos sentimentos contraditórios. Sabemos que é a ordem natural das coisas - nascer, crescer, estudar, trabalhar, tornar-se independente e depois, sair de casa e casar, ou abraçar uma outra vocação – alegramo-nos aliás, por vê-los apaixonados e felizes, mas sentimos também que é o final de uma etapa , com tudo o que isso significa...“ ...tinhas razão meu amigo, quando me dizias, que partir é morrer um pouco...secam-se as lágrimas, diz-se um adeus e logo tudo se acaba...” - era assim a letra de uma balada cantada à viola na minha juventude...

Porém, não me refiro propriamente ao mais mediático casamento da semana - o do filho do Dr Ferro Rodrigues com uma filha do Dr Dias Loureiro - falo sim do casamento de um filho meu, que sendo o 2º a sair de casa para casar e muito embora deixando ainda vários irmãos e irmãs em casa, não deixa de fazer aqui falta e de se sentir um vazio real, físico e psicológico !...)

Mas voltemos então à história da Paula. Uma das minhas filhas já me tinha alertado para o interesse do seu caso. Metendo conversa com ela hoje, nem sei bem porquê, contou-me então que há já vários anos que vende a Cais (por sinal bem interessante, esta semana , sobretudo para os apaixonados do célebre “Jurassic park”, lembram-se?) e que tendo-se afundado na toxicodependência e alcoolismo, por sua exclusiva responsabilidade, está a tentar levantar cabeça. “Graças a Deus e ao Exército da Salvação, consegui curar-me , tirar um curso de Informática e fazer provas para que o Ministério reconheça as minhas habilitações. É que eu deixei todos os documentos em Angola, perdi tudo e fiquei sem nada, mas agora já tenho outra vez o diploma do 9º e vou finalmente começar outro curso” dizia-me com manifesta alegria.

Quando lhe perguntei se não tinha família, respondeu-me que sim, mas como não tinha seguido os seus conselhos e se fechara na sua concha, “agora não quero incomodar ninguém e quero sair desta com o meu esforço pessoal! Sim, e eu sei que hei-de conseguir, porque quando se fecha uma porta, Deus abre sempre uma janela!”

Felicitei-a pela sua coragem , desejei-lhe boa sorte e afastei-me comovida, como sempre ajoujada de sacos de supermercado, em direcção ao carro. Depois porém, enquanto arrancava, pensei que ela era uma pessoa extraordinária, digna de toda a minha consideração e voltei atrás para lhe dar um beijo amigo, com desejo de que ela pudesse sentir a sinceridade dos meus votos e da minha admiração. Abraçou-me, por seu turno, e por trás das lentes grossas, vi uns olhos azuis marejados de lágrimas.

Ficámos amigas.

De regresso a casa, só pensava como era pena que esse tal Spencer Tunick, fotógrafo nova-iorquino que tem a mania de fazer fotografias excêntricas, juntando multidões de nus , em vez de vir para Sta Maria da Feira fazer fotos que não deixam de ser um atentado ao pudor, no mínimo, dos habitantes locais, não se preocupasse antes em fotografar quem tem alguma coisa mais, dentro de si e com interesse, cuja história merece ser divulgada e pode ajudar tantos outros...

Pensava também, comparando com a situação da Paula e o esforço que faz para viver com um mínimo de dignidade e sair da pobreza, quão injusto e deseducativo é estarmos a sustentar um grupo de jovens inúteis, a viverem meses fechados dentro de uma casa “Big Brother”, apenas à espera de exibir as suas ilusórias paixonetas e zangas , e de provocar sexo e conflito entre eles, tudo ali à nossa vista.. num claro incentivo à irresponsabilidade, preguiça e deseducação total (começando pela sexual!).E anda uma boa parte da população deste país a perder tempo com estes espectáculos de puro e estéril exibicionismo – uns a tentarem por força concorrer, outros a oferecerem-se como voluntários para as tais fotos e para tudo quanto é concurso, e outros a verem !...Razão tem o Dr José António Saraiva, no magnífico editorial de sábado, do Expresso, ao referir num contexto ainda que um tanto diferente que “... o vazio de valores da sociedade ocidental, nos últimos 20 anos, conduziu a uma preocupação obsessiva com a fama, o dinheiro e a imagem...(...).”

Se ,ao menos, as pessoas aprendessem a escolher programas de televisão, em vez de simplesmente consumirem qualquer lixo que lhes aparece no écran!

Se, ao menos, algum realizador e jornalista se empenhasse mais em descobrir e revelar essas histórias humanas, que se encontram aí escondidas pelo país fora, no campo e na cidade!...

(Mas desculpem que volte a falar no casamento do meu filho João, não para fazer página social ou fofoquice, como devem calcular. Embora pessoal, gostaria de vos contar um pouco do que foi a despedida familiar na véspera, só com pais, irmãos e avô. No meio de brincadeiras, versalhadas e alguma emoção, sentados à mesa de um restaurante chinês quase só por nossa conta, às tantas, entre pauzinhos de arroz xau-xau e porco agridoce, cada um quis dar um conselho ao noivo, começando dos mais velhos para os mais novos. Não resisti, e perante um dos meus temas preferidos - como conseguir uma família feliz- peguei no bloco-notas e pus-me a apontar o que diziam, precisamente para fazer este “ metro quadrado”... Na verdade, quase me parecia estar a a participar numa sessão dos cursos divulgados no site “Smart marriages” ou aqui mais próximo, nos cursos de preparação para o casamento, promovidos pelo Cenofa... Ora vejam o que se disse, com o contributo de casados e solteiros, mais velhos e mais novos, dos 88 aos 16 anos. Registei apenas os mais sérios...1º Aprender a fazer cedências mútuas; 2º Manter sempre a comunicação, muita comunicação!; 3º Arranjar tempo para estar a sós os dois, mesmo depois de nascerem os filhos!; 4º Não deixar que a intimidade faça esquecer pormenores de delicadeza e boa educação;5º Nunca adormecerem zangados um com o outro.

Houve ainda quem lembrasse...”Mas também não te esqueças de nós, que somos a tua família de origem e gostamos muito de ti!” e por fim, o pai lembrou aquele conto tradicional que lhe fora contado há alguns anos atrás, na Alemanha, de um pai idoso que, prestes a morrer, reuniu os sete filhos e lhes pediu que quebrassem primeiro uma vara apenas, o que foi fácil, e depois um feixe de varas, o que nenhum deles conseguiu. Então o pai doente explicou aos filhos, que é a união que faz a força e que os filhos deveriam manter sempre a concórdia e união entre todos, porque aí residiria a força e felicidade da família!

E mais não conto...que o “metro quadrado” de hoje já vai longo...até ao próximo! ).