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Por Fátima Fonseca

30 de Agosto de 2003



   Então, viram Marte? Foram espreitar por algum dos telescópios disponíveis?

  “Até a minha neta Marta quis ver Marte ...” dizia-me, na sua cama de hospital, a minha amiga Isabel, toda animada, embora acabada de sair de uma inesperada operação – “e foi de propósito a Tavira, mas parece que só viu uma bolinha encarnada muito brilhante...”.

  Bem, para vos dizer a verdade, eu também não vi Marte, mas ainda fui ao Planetário Gulbenkian, no Museu da Marinha, na noite seguinte, ouvir uma palestra sobre a Lua, e assim fiquei sabendo da quantidade de iniciativas interessantes em curso, do programa Ciência Viva, para divulgar conhecimentos e despertar em todos nós e sobretudo, nos mais novos, a curiosidade e gosto pela Ciência. (Tenciono lá voltar, mas aproveitei entretanto, para consultar uns quantos sites aqui na Internet, a este propósito, e encontrei um interessante artigo que começava assim “ Se você não tem o hábito de olhar para o céu...” e lembrei-me logo do meu queridíssimo Pai que nos ensinava de pequeninos, aos meus irmãos e a mim, o bom hábito de olharmos o céu e por ele nos deixarmos fascinar, naqueles meses de Setembro em que sempre íamos até à Beira Alta, lá pertinho da Serra da Estrela... longe da cidade, ali na aldeia de Matados, onde era fácil, entre outras coisas mais, aprender a descobrir a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Estrela Polar, a Cassiopeia...).

  Pois bem, segundo os cientistas e astrofísicos, parece que Marte há 50.000 anos que não estava tão perto de nós... e só enfim, uma insignificância de 55 milhões de quilómetros agora nos separam. Por seu turno, dizem os astrólogos, que até meados de Dezembro, Marte estará alinhado com Urano, no signo dos Peixes, o que provocará ainda mais agitação, desentendimento e violência cá por baixo, aqui no nosso Planeta!

  Sem querer no entanto, entrar em polémica com os defensores da influência dos astros no comportamento humano, a verdade é que violência, infelizmente, antes e depois da aproximação de Marte à Terra, é coisa que não falta permanentemente nos nossos écrans e manchetes de jornais, seja ela real ou virtual, para gáudio de alguns, espanto e horror de outros e sustento de muitos que dela vivem.

  Na verdade, a violência sob todas as formas, mas em especial sob a forma de guerra e terrorismo, abunda em gestos e palavras, perpassando a maioria das notícias vindas de muitas partes do mundo, em especial de Israel e Palestina, bem como da Libéria, da Tchechénia e do Iraque - onde ainda há pouco, juntamente com muitas outras vidas humanas de que não falamos e cujo nome ignoramos, desapareceu de forma trágica, injusta e inesperada, um homem de paz como Sérgio Vieira de Mello, logo seguido de um outro terrível morticínio à porta da mesquita de Najaf.

  Mas porque nem tudo é mau, enquanto alguns teimam em mostrar quase exclusivamente o que de pior existe no ser humano e outros persistem em fazer novos espectáculos de entretenimento, obsessiva e doentiamente maus e medíocres, há quem procure melhorar o espectador, o ouvinte e o leitor, oferecendo outro tipo de material de reflexão, inteligente e de bom gosto, capaz de nos fazer acordar do marasmo e sonolência do nosso quotidiano e de nos ajudar também a crescer humanamente.

  Com efeito, uma destas noites em que não conseguia adormecer, levantei-me e fui ligar a televisão, pela 1.30 da manhã. No meio de muito lixo e de alguns programas interessantes na BBC e no canal História, encontrei na SIC Notícias um excelente programa sobre a humanização dos serviços de Saúde em Portugal, com entrevistas a profissionais que trabalham na área da Oncologia. Impressionou-me sobretudo, a sensibilidade e a preocupação de cada um – médicos, enfermeiras e assistente social – em corresponder aos pequenos desejos quase infantis dos seus doentes terminais e em particular, uma tal drª “Catita”, assim apelidada carinhosamente pelos seus doentes, por ser essa a expressão que usa cada vez que um doente lhe fala do que sente e das suas expectativas. Tocou-me de sobremaneira, a preocupação de cada um em melhorar as condições do pouco tempo de vida dos seus doentes, vistos como Pessoas a quem é preciso acompanhar e ouvir, e de todos os modos possíveis, suavizar a dor nos últimos dias e ajudar a morrer com dignidade.

  Enfim, aquele era um dos tais programas dignos de serem vistos a outras horas, porque nos fazem bem, até na medida em que nos ajudam a desfocar a excessiva atenção quase autista que tantas vezes damos aos nossos “problemazinhos” pessoais...

  Mas por falar em fazer bem, já agora gostava de vos propor alguns “remédios” excelentes- pelo menos para meu gosto! - para quem se sinta um tanto deprimido ,quer por ainda não ter tido férias, quer porque não pôde sair de Lisboa, ou apenas pela simples antevisão dos novos programas televisivos que se aproximam...

  Por exemplo, por que não fazer uma visita ao Museu do Teatro, ao Paço do Lumiar, onde até se organizam programas para crianças, e lanchar no seu pequeno café, ou visitar os Jardins do Museu do Traje, ali contíguo?

  Ou então, ir até ao Palácio das Galveias, no Campo Pequeno, e requisitar um bom livro, – como por exemplo os “Novos Contos da Montanha” (aquilo é que é bem escrever, meu Deus!) de Miguel Torga, “O meu testamento filosófico” de Jean Guitton, ou “ Deus em questões” de André Frossard (com um breve resumo da sua extraordinária conversão!) - e ir lá para fora para a relva ou até aos bancos de jardim, tão pouco usados, mas tão agradáveis, ali no meio de um casal de pavões sobreviventes e de uns belíssimos azulejos (e se nos virem por lá, contentes por podermos usufruir daquele espaço, quem sabe se não se animarão a voltarem a realizar ali concertos de música clássica ao ar livre, como há alguns anos atrás?) ?

  Ou ainda, por que não aproveitar para levar a família em peregrinação autêntica à magnífica exposição “Peregrinações”- uma homenagem a Maria Helena Mendes Pinto, ali na Gulbenkian ?

  ...É altura de acabar, embora pudesse continuar a dar mais algumas “ dicas” para aproveitamento do tempo livre e algum exercício de saúde mental (nem que seja voltar a olhar para o céu!), mas devo confessar, em jeito de conclusão, que ao ver todo o trabalho realizado ao longo de toda a sua vida por aquela grande senhora, hoje com 80 anos, só mesmo me vêm à cabeça , as palavras do brasileiro publicitário - filósofo Carlito Maia, ainda há pouco citadas pelo Presidente Lula, (a propósito da morte do famoso jornalista Roberto Marinho), ao dizer: “...Tem gente que vem ao mundo a passeio e tem gente que vem ao mundo a serviço...”.