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Por Fátima Fonseca

15 de Agosto de 2003



   (Se não falasse de fogo, todos estranhariam, por certo...mas como falar, sem vos enfastiar, do que todos falam, ouvem, vêem, lêem, e muitos sentem de forma mais intensa porque o sofrem na própria pele, o enfrentam, temem e choram...?)


   De programa em programa, na rádio, nas televisões e nos jornais, o fogo, em toda a sua dimensão, destruição e tragédia, tem sido na verdade, o tema glosado de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Uma onda de aflição, espanto, indignação e solidariedade vai varrendo todo o país, de norte a sul, de este a oeste e passando além fronteiras.

   Os bombeiros são os nossos heróis, e merecidamente, mas as grandes vítimas, para lá de um país com grande parte da sua fauna e flora em chamas, são na verdade, infelizmente, os mais pobres e os mais velhos, gentes do campo e das aldeias para quem se torna impossível recuperar as vidas perdidas e demasiado tarde para recomeçar a labuta...eles bem sabem que são notícia agora, na vertigem dos acontecimentos, mas em breve, quando os fogos se apagarem e os subsídios acabarem, mais daqui a pouco quando vier o Outono, outros desastres, outros escândalos e novidades, quem se vai lembrar deles?

   Ficarão também eles, sozinhos com a sua dor, a sua ruína, os seus estragos materiais, mas sobretudo físicos e espirituais, apenas com uma mão amiga mas talvez fugaz, de algum familiar ou vizinho, ou mesmo instituição...tal como as vítimas de Entre- os- Rios, dos acidentes na estrada e de tantas outras desgraças porventura menos noticiadas, porque menos chamativas.

   Dizia o Prof. Marcelo Rebello de Sousa, no seu habitual comentário na TVI, domingo passado, com o seu jeito especial e um incomparável dom de oportunidade, que esta tragédia veio no entanto, acordar o homem da cidade para a realidade esquecida do homem rural...e tanta razão tinha que não resisto a contar-vos hoje, um pequeno episódio, tal como me chegou às mãos...verdade? mentira? Quem o poderá dizer? Aqui vai...

   A cena passa-se numa praia do Algarve, muito “in”, entre várias famílias e amigos, com filhos crianças e adolescentes...todos preguiçando ao sol, entre cremes, mergulhos e idas ao bar, de repente, alguém fala dos títulos do recente “Tal e Qual”, onde se referiam festas de luxo, com piscinas cheias de champagne “Moet Chandon” e outras fantasias mais.

   Comentam-se os custos, os gastos inacreditáveis em tempo de crise, as toilettes espantosas, meio críticos, meio tolerantes, alguns combinam já os programas para mais uma noite e em dada altura, uma jovem muito bronzeada e elegante sai-se com esta... “eu só não sei é como é que nós podemos estar aqui todos numa boa e aquela gente ali na serra , desgraçados a esturricar...até me sinto mal, acho que devíamos era fazer alguma coisa! E se fossemos ali ao bar falar com os que nós conhecemos e juntássemos dinheiro para depositar numa destas contas que se estão a criar para as vítimas?” “Boa, boa!”, comentou uma das crianças mais pequenas, com os seus oito ou nove anos, pondo-se de pé dum salto e acrescentando : -“E se a Mãe desse aquele anel novo que o Pai lhe deu e que a Mãe levou ontem à festa do Castelo? A Mãe não diz que ele foi muito caro e que já tem tantos que nunca vai usar todos?” “Pois, pois!”- continuou outro miúdo -“ se toda a gente aqui do nosso grupo começar a fazer isso, os outros também vão querer ajudar...eu cá vou já chamar ali a minha Mãe e dizer-lhe para dar uns brincos que ela trouxe, porque a tia Gi vai dar um anel...” e não houve quem o parasse. Partiu que nem uma seta !

   Gerou-se ali grande burburinho. A tia Tó ( ou outro nome parecido) apareceu logo e quis mesmo dar uns brincos, a tia Gi ( parece que era ela) afinal não queria dar anel nenhum, porque o Marido ainda ia ficar ofendido, mas uns pacotes de leite para os bombeiros e garrafões de água até que não era má ideia, mais o dinheiro para as contas das televisões, ou da Caritas e Rádio Renascença ...os amigos foram-se juntando à volta dos toldos, alguns sorriram ironicamente e fartos de peditórios, foram-se ao mar, em jeito de desculpa para não ouvirem mais, outros aplaudiram, comovidos, o tio Guga ( seria esse o nome?) pegou na caneta e num papel para anotar as ideias, e as boas acções por mimetismo, ou por convicção , fizeram-se mesmo – ou estão em curso neste exacto momento- e do resto não reza a história ... !

   (Cá por mim, aqui em Lisboa, com algum complexo de culpa por nada estar a fazer...lembrei-me que também temos de poupar água porque ela vai fazer muita falta e resolvi chamar um canalizador para acabar com o pingo-pingo permanente e quase esquecido de uma torneira.)

   Entretanto, hoje, ao levar uma das minhas filhas à partida para um acampamento de equipas do CVX, ouvi o Nuno, de 25 anos, licenciado, a preparar mestrado e a trabalhar, comentar para os amigos : “ Para o ano vamos mas é fazer um grupo de apoio aos bombeiros durante todo o Verão ! Organizamo-nos e levamos-lhes leite, comida, água...fazemos-lhes recados, enfim o que for preciso e vamos para onde eles forem !”

   Abençoada gente nova idealista, alegre, criativa, generosa e disponível !!! É por isso que mesmo sem floresta, e em tempo de fogo e desgraça, acredito no futuro!