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Por Fátima Fonseca

30 de Junho de 2003



   Entro em casa, finalmente. Trago música nos ouvidos e na alma.

  Acabo de ouvir na Antena 2, a repetição de uma gravação de um magnífico concerto de Beethoven, pelo pianista Sérgio Varela Cid, em 1970, no Tivoli, em Lisboa, no segundo aniversário do nascimento do célebre compositor alemão - concerto em Dó Maior, nº 1, opus 15.

  Diante de mim, vejo a louça toda por lavar! Não pode ser! Felizes, no quarto ao lado, com o computador em altos berros, os meus filhos mais novos também ouvem música...“ as meninas da ribeira do Sado...” e cantam, alegremente, divertidíssimos, a plenos pulmões.

  Acabo de chegar. Parti, cheguei, voltei a partir e tornei a chegar. Vezes sem conta nestes últimos dias, diariamente, as pequenas-grandes viagens, reais - como esta de hoje - e virtuais, interiores, daquelas em que a mente voa, libérrima, sem que o corpo quase se mova, de preso que está às tarefas, dores e deveres de cada dia.

  Falar com um e com outro, responder, ouvir e contar, desmanchar as malas, atender o telefone ... e por fim, eis-me aqui sentada num cantinho da cozinha (por favor, podem pôr isso mais baixo? É a televisão que me incomoda...!) a forçar-me a escrever (não vou adiar mais, não vou !) .

  É tarde já, a louça pode esperar, (não se escandalizem!), finalmente o computador está livre, é a minha vez, a consciência de muito m2 por escrever pesa-me hoje, com mais força ... e pronto tem de ser, começo!

  Venho da Beira Alta, de um simpático encontro para festejar o aniversário do Cenofa em Viseu. Uma dúzia de casais de diferentes idades, alguns com filhos pequenos, animados pelos fidelíssimos e incansáveis promotores do Cenofa da zona, juntaram-se para ouvir e debater o tema da “Comunicação em Família”, a que se seguiu uma agradável sardinhada de S. Pedro, no exterior de uma bela casa de granito, ali em Fagilde, mesmo à beirinha do Dão e do Sátão. Recordo ainda as palavras peremptórias de uma professora de 1º ciclo :

  “ – Não, desculpe, mas não concordo ! Hoje, não há mais falta de tempo do que antigamente ! O que há é incapacidade de gerir bem o tempo ! O que há é falta de valores, de critério e de noção de prioridades ! Porque eu bem vejo como é que os pais e mães dos meus alunos perdem tempo...é a ida ao café, as conversas com as amigas que se prolongam, as compras, as telenovelas que não se podem perder, os telejornais à hora das refeições, a ginástica ... e depois, claro, como é que hão-de ter tempo e paciência para educar e como hão de saber fazê-lo? E como é que nós professores, das 9 h da manhã até ao fim da tarde, mais os ATL, ainda havemos de os educar, ensinar e fazer- lhes tudo???”

  Ninguém contestou. Foi certamente um comentário duro, mas não será verdade, em grande parte? Por mim, creio que a professora tem bastante razão ... aliás, já cá fora, comentava-me, com alguma tristeza, que bem via como os seus alunos pequeninos tinham muita falta de colo ... e de estabilidade emocional.

  No final, ouvi duas irmãs, jovens mães, a combinarem , todas entusiasmadas, a possibilidade de passarem a reunir em S. Pedro do Sul, com um grupo de outros casais amigos, uma vez por mês, para convidarem alguém do Cenofa para tratar temas de Educação dos seus filhos pequenos, ajudando-os a estruturar ideias e a abrir horizontes. Outros, mais velhos, combinavam a troca entre si de livros sobre Educação e a assinatura de uns folhetos com artigos de qualidade, que poderiam levar para os locais de trabalho e para as escolas dos seus filhos.

  Valeu a pena! Todas estas reuniões implicam , sem dúvida, grandes esforços e sacrifícios dos organizadores e participantes, mas valem sempre a pena, até mesmo quando são muitos os convidados, mas poucos os que comparecem!

  Pelo caminho, pus-me a pensar, enquanto a chuva inesperada caía sobre os vidros e os campos e árvores desfilavam rapidamente de ambos os lados da estrada, que de facto, nos faz falta esta troca de impressões...por que razão os casais ,hoje em dia, falam tão pouco do que é verdadeiramente importante? Porque falam constantemente do urgente ou do que assim parece (sempre o ter e o comprar) e tão pouco do importante? Já Saint - Exupéry dizia que sempre se preocupara com o saber distinguir o importante do urgente e que na verdade, “ urgente é ter um tecto para me abrigar e comida para comer, mas importante mesmo é descobrir o Amor, o Sentido da vida e Deus!”

  ...Comecei com música e com música queria acabar (apesar de já ter passado no dia 21 o Dia da Música e de nem termos tempo para falar aqui das desafinações na Casa da Música do Porto !). Duas linhas apenas, muito de corrida, a propósito das letras de várias canções em voga, sobretudo cantadas em inglês (mas também em francês) pelas “estrelas” internacionais dos nossos tempos, verdadeiros ídolos para muitos jovens e adolescentes , quando não para os nossos próprios filhos. Guardei até uma revista recente (suplemento de um DN de domingo, creio!?) com uma análise bastante oportuna às incríveis letras que eles sabem de cor (embora nem sempre saibam o significado!) e que certamente, nos envergonhariam e preocupariam, se soubéssemos que era essa a mensagem ... nós que tantas vezes, pasmamos com a música “pimba” portuguesa ! Atenção, Pais! As letras não são sempre inofensivas, por mais agradáveis que pareçam as músicas... e portanto, também disso devemos falar com os nossos filhos, se lhes quisermos transmitir critérios e ideias certas !

  Entretanto, ao passar ainda há pouco, pela sala, - onde ninguém ouvia televisão, mas onde jaziam já alguns adormecidos – nem de propósito, ouvi o fadista Carlos do Carmo dizer aos jovens da “Operação Triunfo” que não se esquecessem nunca que “cantar uma canção é uma grande responsabilidade, porque ela pode fazer um bem incontável à alma de quem a ouve” e que além disso “o cantor deve ser sempre humilde e aceitar cada nova canção como um novo teste, um novo desafio, porque todas as vitórias e sucessos neste campo são extremamente efémeros...”

  Fico a pensar apenas, que estes comentários são mesmo oportunos e igualmente aplicáveis a muitas outras artes e actividades. E também à escrita eles se aplicam com inteira justeza.(Boa-noite! Vou-me à louça!)