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Por Fátima Fonseca

7 de Junho de 2003



   Meus Amigos conhecidos e desconhecidos :

  Um ano a escrever-vos regularmente, quase todas as semanas, procurando descobrir e destacar nos meandros das notícias e acontecimentos, alguma coisa de bom, mesmo que pouco visível, era a minha meta ... e por isso, hoje, dia 7 de Junho, um ano volvido de escrita com algumas falhas na pontualidade, - é certo! - seria tempo de balanço e despedida, tudo terminaria e esta coluna deveria ser substituída por outro texto, outra pessoa, outros objectivos e outro estilo...

  A verdade, porém, é que criei o hábito e o gosto (por que não dizê-lo?) e sinto-me com alguma responsabilidade, e não tendo ainda conseguido entusiasmar ninguém a prosseguir, continuarei a escrever “o meu m2” (valerá a pena? Só os leitores o poderão dizer com isenção!?)...só que, com algum realismo mais e reais dificuldades de tempo, passarei a fazê-lo apenas de quinze em quinze dias ! peço-vos desde já ,desculpa !...

  Terminado este preâmbulo , que se impunha, gostava de vos contar algo passado há alguns dias atrás...era 5ª feira da Ascensão, ou 5ª feira da Espiga.

   Acordara com aquela sensação quase infantil de uma imensa alegria, misto de físico, psicológico e espiritual, por estarmos vivos- aposto que também já vos aconteceu!- pois na véspera alguém nos batera no carro e podendo ter sido grave não foi....(foi só “ chato”!)....mas adiante! Meti-me pois, num autocarro, daqueles grandes, que serpenteiam como uma enorme lagarta pelas nossas avenidas, sentei-me ao fundo e dispus-me a aproveitar para reler um pequeno livro que acabavam de me dar...pelo caminho, porém, lá me distraía em cada curva e em cada paragem, e ia observando também os meus companheiros de viagem, mais próximos : a jovem africana lendo uma popular revista de bolso com títulos muito chamativos e fotografias porno-eróticas, outra senhora de meia- idade, grande e cheia de calores, trabalhando, incansável no seu crochet, um jovem de cabelo multicolor ,com head-phones nas orelhas, fazendo do varão em frente um prato de bateria, ao som de uma música rock da pesada em altos berros, uns cavalheiros “ já entrados” de maleta na mão, com ar de cobradores reformados, mirando e remirando, de cima abaixo, duas jovens muito decotadas e hiperenergéticas que, esfusiantes, no banco em frente, conversavam, segredavam e riam alto, enquanto mastigavam chiclets de boca aberta...

  Lá fora, os agapantos roxos e brancos, e as copas lilazes dos jacarandás, passavam a correr... eu, por minha vez, ora levantava os olhos do meu livro, ora os baixava ,e ia ouvindo os senhores... “...sim , porque aquilo lá na Casa Pia...” mas mentalmente eu já não ouvia o resto, porque só me lembrava era do Piano da nossa fantástica pianista, Maria João Pires, e da sua Escola de Música para crianças, uma escola-piloto na granja de Belgais, lá para os lados da Beira Baixa, onde todos os anos dezenas de escolas primárias têm vindo a ser encerradas por falta de crianças, e que com tanto empenho e sacrifício ela tem vindo a levantar porque “ as utopias nascem do chão” (e já agora, quando é que mando afinar o piano da nossa casa ?)... “mas, oh pá, que me dizes tu a esta coisa dos últimos arguidos da pedo...?” e pronto, a mim só me vinha à cabeça era o pé do meu filho mais novo, cheio de pé-de-atleta, a quem tenho de marcar consulta , porque não há meio de aquilo lhe passar... “ coitados dos miúdos, uns periquitos nascidos sem sorte e sem família que os proteja, nem Estado que os defenda...aquilo que aqueles grandes....piiii.... mereciam era que lhes cortassem a cabeça...o que vale é a Catalina, grande mulher!...” ao ouvir falar em grande mulher, que nem uma flecha, passou-me pela cabeça a estupendíssima conferência de uma outra pequena-grande senhora, a Drª Maria José Nogueira Pinto ,sobre a Dignidade da Mulher nos escritos do Papa João Paulo II, conferência que tive o privilégio de escutar e que por certo, marca uma nova forma de feminismo, uma nova forma de intervenção da Mulher na sociedade.

  Mas eis que me vejo prestes a chegar à minha paragem. Fecho o meu livro, já com ela fisgada. Levanto-me, por entre a multidão que entretanto enchera o autocarro, aproximo-me da rapariga africana e dirijo-lhe a palavra, enquanto o condutor do autocarro começa a travar. -“Posso ver o que está a ler?” Ela olha-me admirada, passa-me a revista para as mãos e eu digo-lhe apenas : “-Não leve a mal, mas não acha que isso é lixo? Tome lá, deite fora bem rasgada e fique antes com este meu livro, que é excelente e é de certeza, melhor companhia para a sua viagem!”

   Saí porta fora, rapidamente, e da rua acenei-lhe, amigavelmente, vendo apenas a sua cara de espanto e o sorriso misterioso de um rapaz que comigo saía na mesma paragem. Ouvi uns passos atrás de mim, enquanto o autocarro arrancava. Percebi que me chamavam.

   “Desculpe, conhece ?”- perguntou-me o mesmo rapaz, enquanto me mostrava um livrinho do falecido Diogo Villas-Boas. Sorri-lhe e disse-lhe :- “ Conheço, por acaso, acabo de o ler e de o oferecer !”

  -“Eu sei. Gostava que ficasse com ele! Este é meu e também eu faço questão de lho oferecer! Aceita?”- perguntou-me, em tom tímido e comovido.

  Como poderia não aceitar? Agradeci, e claro que aceitei, também eu comovida , e enquanto caminhava, apressada, como sempre, uma vez mais, não pude deixar de pensar que não há encontros por acaso.

   Não deixem de ler, se puderem, - quem sabe se estará à venda na Feira do Livro ?- este conjunto de cartas tão especiais, agora reunidas num pequeno livro e escritas em momentos muito marcantes da vida deste grande Homem, de enorme coração, (como eu gostaria de o ter conhecido!), que morreu há um ano, vítima de cancro, diplomata, casado e pai de quatro ou cinco (?) filhos seus e de sua mulher, Mariana, e com mais um filho adoptivo.

  Meus Amigos, até breve!