Quem somos
Temas
Intervenção
 

Por Fátima Fonseca

2 de Maio de 2003



   Em tempo de feriados e pontes, Lisboa fica mais serena, mais apetecível e bonita para aqueles que cá ficam. É o tempo da redescoberta de velhos jardins, da travessia calma de grandes avenidas e da visita (mesmo que só por fora) às casas onde já morámos. É um curto e doce tempo de recordações.

  Mergulhada nestes e noutros pensamentos, passei semi-distraída, por ele, duas vezes. Sentado de pernas cruzadas, no chão do átrio do banco, sorria, fleumático, empunhando a garrafa de cerveja, que o deliciava. Estava negro de sujo, o cabelo e a barba num desalinho igual ao das suas roupas de dormir na terra e vaguear pelas ruas.

   Contudo, parecia um rei, um soba, indiferente a tudo e todos, dominando os degraus da ampla entrada daquele prédio das avenidas novas. Espalhados à sua volta, os seus tesouros: um pacotinho de amêndoas, uma caixa de fósforos, cigarros, caricas, sacos de plástico, jornais e lixo, muito lixo. À segunda vez, fixei – o melhor e julguei reconhecer nele o menino de olhos lindos, de 7 ou 8 anos, que na minha juventude costumava andar a vender raminhos de violetas à porta da Igreja, à saída da Missa dominical, pendurando-se nos nossos braços a pedir uma moedinha, “só uma moedinha de cinco tostões... vá lá, dê-me, dê-me!” Ainda pensei dirigir-lhe a palavra, mas ele continuava absorto e impávido, numa postura feliz de dono e senhor do seu território!

  Entretanto, sento-me na esplanada em frente, para pôr as minhas leituras de jornais e revistas em dia. Debaixo do braço trago alguns dos antigos. Tenho exactamente meia hora livre, enquanto espero que a lavandaria ao lado ultime as roupas que ali deixei. Passo os olhos com rapidez pelos diferentes títulos e temas da actualidade. Nem de propósito, pego numa revista “Cais” que aborda precisamente o tema dos Sem-Abrigo.

   E leio: “ (...) Na Europa dos 15 as pessoas sem tecto calculam-se em cerca de 3 milhões e em 15 milhões as que vivem em casas sem o mínimo de condições”. Mais à frente, “ (...) em Lisboa calculam-se 1.366 (...) ” pessoas sem-abrigo, sim para mais e não para menos, no entender de várias organizações de apoio, embora não haja estatística oficial. A propósito das causas, adianta-se “ (...) A rua porém, não é apenas o resultado das graves dificuldades económicas. Por trás desta situação está também uma longa série de tragédias individuais, como o alcoolismo, a toxicodependência, as doenças psíquicas, o crime, nascidos tantas vezes da rotura nas relações familiares e interpessoais. No apoio a estes casos o dinheiro é necessário, mas a recuperação da auto-estima e do poder criativo de muitos sem-abrigo exigem muito mais que um simples investimento financeiro (...) ”.

  Penso no número crescente de desempregados em Portugal e por essa Europa fora, nos muitos sintomas de crise económica, nos inúmeros artigos que ultimamente têm revelado a opinião dos nossos melhores especialistas e recordo, com apreensão, que na Cimeira de Lisboa em Março de 2000 os responsáveis pela governação dos 15 Estados- Membros se tinham proposto colocar no topo da sua agenda , precisamente a luta contra a exclusão social e erradicação da pobreza através de uma série de objectivos comuns a alcançar de 2001 a 2003!

  Um pouco mais adiante, leio ainda na “Cais” que o problema com a maioria dos sem-abrigo nem é tanto a falta de dinheiro como sobretudo “ a falta de capacidade de gerir o que têm. Muitos perderam o ritmo de uma casa (...) ”

  Olho o relógio e reparo que a minha meia-hora está no fim. Do outro lado da rua, o vagabundo já se deitou sobre uns cartões. À sua volta, várias garrafas vazias são a prova do seu estado.

  Esqueço-me da “bica” que pedi. Vejo o cenário à minha frente: Desemprego! Primeiro as tentativas de solução, bate-se a uma e outra porta, “ talvez para a semana lhe arranje qualquer coisa! Volte mais tarde! Tenha paciência, mas hoje o Sr. Dr. não o pode receber!”, e passa um mês e outro, depois são os copos e o desabafo com amigos, e rapidamente lá vai um copo a mais para esquecer; começam os problemas de relação familiar, “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, pobreza envergonhada, já não há carro, nem bens para vender, discussões, “Cheiras a vinho que tresandas!”, ausências, violência física, perda de auto-estima, incumprimento de pagamentos das dívidas e empréstimos, desleixo pessoal e....algum tempo depois, apenas a rua, arrumar carros, pedir esmola...sem-abrigo...ninguém te conhece, os amigos desaparecem e até a família acaba por ter vergonha...

  Antes de deixar a minha mesa e pagar o café, ainda folheio um qualquer caderno de um sábado já passado, dedicado à Moda Lisboa. É como se entrasse num outro mundo à parte...ali é tudo “glamour” e “porno-chic”: uma modelo de rosto exótico e impenetrável na sua seriedade, um misto de oriente e anos 20, veste (?) na sua nudez parcial, dourados, só dourados! O tecido é escasso e transparente, os acessórios em abundância, um fausto de estrelas, correntes, galões de militar, cordões, redes, corações, fivelas...um fingimento de ouros a desnudar o corpo e a abafar a alma...o rosto ausente, inexpressivo quase, nuns gestos de arte sensual, sado-masoquismo e pose pornográfica.... assim vai a moda e a publicidade de luxo, o recém-denominado “ porno-chic”, numa criatividade com mais de grotesco, coisificante e decadente, do que de serviço à beleza da mulher.

  Vou-me. Num caixote de lixo deixo o caderno dourado. Sobre a mesa do café deixo a “Cais” que ainda pode ser útil a alguém. Na memória levo um testemunho, entre vários, dos Sem-Abrigo que vendem a revista nas nossa ruas...“tem sido a maneira de resolver a minha vida, sem andar a roubar ou a pedir...tem sido a forma de eu voltar a viver. Antes vivia num albergue, agora já vivo numa casa (...)”.

  Como terminar este m2 tão pouco dourado...?

  Decididamente, vou passar a olhar com mais atenção, quem me pede que compre a “Cais”. E vou passar a lê-la de outro modo...

  Pelo caminho quase me esqueço da lavandaria. Em compensação, só me vem à memória aquele amigo da idade dos meus filhos – esse sim, com um verdadeiro coração de ouro! - que anda cheio de latas de atum e salsichas para dar a cada Sem-Abrigo que lhe estende a mão por estas ruas de Lisboa !