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Por Fátima Fonseca

24 de Abril de 2003



   Quer queiramos, quer não, sejamos crentes , ou não, e por mais distraídos que andemos, a Paixão e a Páscoa interpelam-nos todos os anos. Podemos fazer de conta que só vemos ovos, folares e amêndoas... a cruz porém, está lá.

  Mas hoje, façamos então de conta que vos conto uma história, ou a trama de um filme.

  Para que esta história caiba nos temas do "m2" bastará relacioná-la com alguma notícia das que lemos, vemos e ouvimos nos nossos Meios de Comunicação Social, o que não será difícil por certo!

  Agora imaginem que sou um narrador omnisciente e não-participante ( era assim que se ensinava nas aulas de Português há alguns anos atrás...).A história decorre numa família vulgar em Lisboa . São uns Avós, com três filhos ( dois rapazes e uma rapariga) e oito netos ( sete de um filho, um do outro, e sendo a filha solteira). Vou começar...


  Do alto da janela de um 6º andar virado sobre a cidade, ela via o amanhecer cinzento de uma primavera envergonhada. À sua volta reinava um estranho e desusado silêncio. Dos beirais dos telhados vizinhos, pombas brancas e cinzentas lançavam-se em voos estonteantes, cruzando-se sobre as copas de duas altas palmeiras.

  Semicerrando os olhos, recordava todos os acontecimentos dessa Páscoa, mais Paixão que muitas outras Páscoas. Cada dia dessa Semana Santa fora recheado de surpresas, alegrias, alterações de planos e preocupações....Uns dias antes , tudo começara com aquele inesperado telefonema: -"Sinto-me perdida...imagina que o médico me acaba de dizer que afinal estas queixas de há seis meses não têm nada a ver com pedras no rim. O rim está parado, porque tenho um aneurisma e tenho de ser operada já, antes da Páscoa. Diz-me lá a quem hei-de ir? O quê que eu vou fazer?"

  Depois foram as ajudas preciosas dos amigos fiéis, daqueles amigos do peito que estão sempre disponíveis e assim se conseguiu um cirurgião em tempo de festas. O operador pede mais exames, mas como a doente vai fazer 80 anos em 2ª feira da Semana Santa, logo fica combinado o internamento para o dia seguinte aos anos. Entretanto, filhos e netos organizam-lhe uma pequena festa familiar, semi-surpresa. Muito justamente, é coroada "Rainha das Avós", com direito a discurso dos netos em estilo jogral. Está bonita, serena, emocionada e feliz por se ver rodeada pelos seus mais queridos e mais próximos.

  No decurso dos exames, porém, já internada, novas descobertas preocupantes : afinal, não se pode operar o aneurisma, sem primeiro operar os três bloqueios do coração, até então desconhecidos.

  Corajosa, activa e lutadora, já com experiência de um cancro, três anos antes, a doente decide-se inequivocamente pela operação apesar de todos os riscos e sofrimentos.

  5ª Feira Santa, é operada. 6ª Feira Santa, acorda, sorri, conhece e fala. Sábado de Aleluia, parece menos bem. Domingo de Páscoa está feliz e exuberante, apesar do cansaço. A cada passo pede desculpa à família por lhes ter estragado as sonhadas férias, como de costume no Algarve...mas respondem-lhe com as palavras daquela amiga que dizia "Nas famílias grandes, as tristezas dividem-se e as alegrias multiplicam-se!" Para surpresa de todos nunca se queixa de dores e louva constantemente o carinho e eficiência com que todos a tratam, médicos, enfermeiros e auxiliares. As perspectivas parecem animadoras. Vai sair, vai ter alta, 5ª feira...

  De repente, na véspera, todo o cenário muda: dá uns primeiros passos no corredor do hospital, fica extenuada, volta à cama para descansar, mergulha num sono profundo e faz um acidente vascular cerebral. Inesperadamente.

  As próximas horas são cruciais, prognósticos não há!...

  ...Ela volta as costas à janela, olha a doente querida, serena, adormecida, cheia de soros, tubos e oxigénio e de repente, vê no seu lugar, o rosto de Ali, aquele rapazinho iraquiano de 12 anos, que perdeu os dois braços, para além do pai , da mãe e dos irmãos e que está agora no Koweit a ser tratado...vê e ouve as crianças feridas, os seus esgares e gritos de dor, o desepero de homens e mulheres, dos seus familiares, as cenas recentes mostradas nas televisões...vê os pais da pequenita de Queluz, traiçoeiramente atingida por um tiro estúpido na cabeça...vê de novo, aquela médica iraquiana - autêntica mulher de armas! - que regressou a Bagdade de propósito, para trabalhar como voluntária e fazer o que for preciso no hospital, onde está a viver em permanência, lutando contra carências de todo o tipo...É como se subitamente, todo o sofrimento do mundo ali se concentrasse no quarto 612.

  Não há portas, nem janelas, nem terras, nem fronteiras. O Cristo da Paixão de 6ª Feira Santa voltou à terra, abraçando com os seus braços abertos todos os crucificados do mundo em camas de hospitais. Parece sorrir a cada um, dizendo :

   "Toma a tua cruz e segue-me...Vinde a mim...vós todos..."


  O telemóvel toca e a visão esfuma-se. Ela volta-se de novo para a janela. São os amigos, sempre os amigos e a família a adoçarem a Via Sacra. Lá fora, ouve-se um chilreio de passarinhos. O bebé do quarto ao lado, também operado ao coração, já teve alta...vai ficar bem! Alguns pisos abaixo, no 3º andar, nascem outros bebés. Mães felizes a darem à luz, enquanto outros, alguns pisos acima, parecem suspensos na Paixão, aguardando o seu tempo de Ressurreição...


  Não saberei acabar esta história , porque até os narradores têm de aprender a esperar e a ler os sinais dos tempos!

  Porém, certa estou de que cada Páscoa, em cada ano, pode ser um novo jorro de luz para o entendimento de muitos e seguramente, um travão para aquele egoísmo que às vezes nos faz querer fugir das contrariedades e dores, como se fosse possível esquecer tudo, algures numa imensa praia distante, talvez antes, num lago da Suíça, ou na neve dos Alpes!

  "Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações!"

  Desculpem, se vos incomodo, mas um "m2" de Páscoa não poderia ser jamais igual aos outros!