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Por Fátima Fonseca

30 de Março de 2003



   Era sábado e seguíamos no carro, debaixo duma chuva diluviana, como se o céu chorasse de pena, lágrimas sem fim, por causa dos erros dos homens. Ou como se a Primavera se arrependesse de nos alegrar com o seu calor, as suas cores, música e perfumes, quando em outras partes reina o inferno da guerra.

  Levávamos o rádio ligado, para ouvir notícias. De repente, a locutora da Rádio Renascença, anunciou ter em estúdio, três deficientes, a quem iria entrevistar, recordando que estamos no Ano Internacional do Deficiente.

  Rosa A., deficiente motora por causa dum acidente de viação, Ana P. portadora de síndroma de Williams, e Susana, deficiente visual total desde os 22 anos, mas licenciada em Sociologia e já com uma pós-graduação. Todas três vieram contar a origem da sua deficiência, os apoios que receberam, as dificuldades que superaram e o modo como se processou a sua integração na sociedade. Todas três estão empregadas. São histórias verdadeiras, contadas com uma naturalidade e uma simplicidade tais, que comovem pelo heroísmo e pela muita dor que encerram; são, além disso, um verdadeiro ensinamento para todos nós, os que sendo saudáveis, passamos talvez demasiado tempo a inventar doenças, a exagerar problemas pessoais ou a queixarmo-nos das pequenas contrariedades inevitáveis no nosso quotidiano normal...

  Duas frases anotei, em particular: quando a Ana, num discurso sereno, seguro e espantoso para uma jovem com a sua doença (que lhe afectou o crescimento e desenvolvimento físico e psicológico), se referiu à ajuda da família e sobretudo dos Pais como os seus grandes “ motores”, o seu estímulo permanente e falando da opinião dos outros, quando dizia que “ às vezes, tomam-me por aquilo que não sou”, mas “ o que os outros pensam não faz mal, porque o que importa é ir para a frente com a minha força de vontade (...)”.

  Força de vontade, perseverança, resistência às dificuldades, às pequenas e grandes frustrações – a tal resiliência que os psicólogos dizem faltar na Educação que hoje se dá às crianças e jovens, igualmente responsável pela imaturidade emocional que tantos adultos revelam, ao fugirem de compromissos familiares e profissionais...e ao manifestarem comportamentos de adolescentes irresponsáveis pela vida fora!

  Acabado o programa, novo bloco noticioso...

   A tentação de estar sempre ligada às notícias da Guerra supera com frequência o conselho sensato que alguns amigos me deram, ainda há poucos dias: “ Não ouças tantas notícias...vale mais oferecer o dever bem cumprido, a horas e sem apetecer, por eles- os que sofrem- do que estar sempre a ouvir notícias, repetidas até à exaustão...”. Os meus amigos têm toda a razão, mas é-me difícil resistir...

  Agora mesmo, por ex., ao escrever estas linhas, leio aqui na Internet que o General Richard Myers, chefe de Estado- Maior Conjunto americano disse à BBC que “ os combates mais duros ainda estão para vir”, ou seja , o pior ainda está para acontecer, a propósito do primeiro atentado suicida, acabado de se dar em Najaf.

  “A vida continua”, foi o comentário lacónico de Ronnie McCourt, porta-voz do contingente britânico, após aqueles acontecimentos.

  Para alguns, porém, infelizmente não continua, porque vão morrendo, cada vez mais civis e militares, adultos e crianças, diariamente, numa guerra cujo fim não está à vista, mas cujo auge se aproxima muito provavelmente, à medida que nos chegam notícias dos preparativos do assalto a Bagdad.

  Uma parte de mim está de luto, confesso, incapaz que me sinto de aceitar e compreender tamanha tragédia com tão imprevisível impacto mundial.