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Por Fátima Fonseca

11 de Março de 2003



   Mais uma vez, por força das circunstâncias e num muito curto espaço de tempo, voltei a entrar num hospital como acompanhante, coisa que tem vindo a acontecer com relativa frequência...(sinal de como o tempo passa e vai deixando marcas em nós e nos nossos mais queridos! ).

   Ali estávamos, o meu Marido e eu, num corredor limpo, claro e arejado, numa enorme casa pintada de fresco, mas sempre , casa de medos, dores, alegrias e esperanças. Havia ainda alguns lugares sentados, mas nós esperávamos de pé. No meio da azáfama habitual de uma consulta externa, reinava em simultâneo, uma espécie de calma colectiva e expectante , recheada de medos invisíveis, mas palpáveis. Enquanto o meu Marido, (só) aparentemente indiferente, lia o seu indispensável Diário Económico, com todo o tropel de más notícias políticas e económicas, eu ia olhando à minha volta e via-os “ claramente vistos” : os medos estavam ali todos ! Medos fininhos e ténues, medos gordos e experimentados, infantis, novos e velhos, mais ou menos doridos, impacientes e conformados, assumidos e disfarçados, medos vestidos de gente rica, remediada e pobre, mas todos, todos nivelados pelo incerto e cada vez mais parecidos...Sentei-me então, consciente da espera que nos esperava, peguei no bloco e na caneta e sem melhor que esse tempo, desatei a escrever este m2...melhor dizendo, comecei a tomar notas do que vos queria dizer...

  Queria referir-me em especial à data acabada de celebrar – 8 de Março, Dia da Mulher ( com muita graça, a propósito, dizia a escritora Rita Ferro, ontem, no pouco que consegui ver do programa de televisão, RTP I, “ Prós e Contras” , que não compreendia como não festejávamos também o Dia do Homem, pois de outro modo até parece que a Mulher é assim uma espécie de coitadinha em vias de extinção como as focas ou os linces da Serra da Malcata...AH!AH!AH! ).

  Pois bem, não tive possibilidade de ler, ou ouvir, nem tão pouco de assistir a grandes referências e programas alusivos à data, mas fui à sala do Senado, na Assembleia da República, assistir ao Congresso das Mulheres em Acção, que aliás achei muito interessante (Parabéns, “ Grandes” Mulheres em Acção !!!) e que, entre outros temas de particular interesse para a Mulher do nosso tempo, focou a problemática da conciliação entre Família e Trabalho, através da Drª Margarida Neto, Coordenadora Nacional para os Assuntos da Família , e da Drª Maria Amélia Paiva, Presidente do CIDM ( Comissão para a Igualdade e os Direitos das Mulheres).

  Ouvi-as atentamente, concordando em absoluto com os seus brilhantes discursos sobre a necessidade de conseguir “progressos” pessoais, empresariais e políticos, no sentido de uma maior conciliação entre a vida familiar e a vida profissional, aliás tanto no que se refere à Mulher como ao Homem. Efectivamente para que haja maior partilha de tarefas, responsabilidades e decisões entre homens e mulheres, é necessário mudar as mentalidades , a opinião pública e as políticas, por forma a que se proteja e valorize realmente a Família, não só com palavras, mas com estratégias e actos.

  O imenso desgaste na vida das mulheres do nosso tempo – casadas, mães, mesmo com poucos filhos ,donas de casa e simultaneamente trabalhadoras fora de casa , tantas vezes sem ajudas e gastando o melhor do seu tempo em transportes e no emprego – traduz-se em múltiplas consequências negativas para as suas vidas de família , que naturalmente( e sobretudo num tempo de fracos recursos espirituais) , dificilmente sobrevivem emocional, afectiva e fisicamente ao esforço sobrehumano a que se sentem e são efectivamente, chamadas.

  ( “Que tempo sobra para a ternura?” – perguntam alguns e com razão.)

   “Errámos” - dizia a Drª Margarida Neto, em dada altura – "porque quisemos trabalhar mas não quisemos perder o poder em casa ( a maior parte das mulheres acha que os maridos não cozinham tão bem como elas, não sabem mudar as fraldas às crianças, etc). (...) Devemos falar de colaboração no casal e entre pais e filhos(...) porque se cada homem e cada mulher não for capaz de perder algum do seu poder tradicional, não conseguiremos “salvar” a Família...”

  “(...) É necessário fazer pontes entre os espaços privados ( habitualmente das mulheres) e os espaços públicos( habitualmente dos homens) , devolvendo mais tempo do homem à família e levando a mulher ao exercício de poder no espaço público ( habitualmente dos homens) (...)” – recordava a Presidente do CIDM, citando palavras já ouvidas num seminário alguns anos atrás.

  De facto, é necessário ter em conta que no nosso mundo ocidental, o que mais falta nos faz é compreender que sendo a Mulher e o Homem diferentes, ambos se complementam nas suas diferenças e ambos fazem igualmente falta na esfera familiar e na esfera pública. Conciliar, conciliar...mas como?

  Urge escrever um livro - que todos possamos ler, divulgar, aprender e estudar, para mudar mentalidades – uma espécie de Código de Boas Práticas e ao mesmo tempo contendo“ Family-friendly Policies” (têm muita razão o sr. Presidente da APFN, Famílias Numerosas, e a sua Vice- Presidente, quando tanto as defendem!) com propostas inovadoras que salvaguardem não só o sustento e saúde mental das famílias , como o direito da Mulher se decidir por uma profissão e realização pessoal no exterior sem prejudicar o acompanhamento dos seus filhos e o bem-estar psicológico da sua família.

  Por que não, o tão desejável trabalho em part-time para as mulheres com filhos pequenos ou idosos a seu cargo, com um mesmo posto assegurado por duas pessoas em turnos diferentes? Por que não, horários mais flexíveis e individualizados que permitam também ao pai desempenhar o seu papel e acompanhar o desenvolvimento dos seus filhos ( que tantas vezes eles quase não conseguem ver acordados)? Por que não, mais facilidades integradas no próprio local de trabalho – como já acontece em tantas empresas estrangeiras- do estilo, creche, serviço de lavandaria e comida feita, que os pais / ou mães possam levar para casa no fim de um dia de trabalho? Por que não, intensificar a formação profissional no sentido do tele-trabalho? Por que não, descentralizar a actividade profissional dos grandes centros urbanos, tornando os meios rurais e as cidades do interior mais atractivos para as jovens famílias, onde as deslocações para o trabalho são mais fáceis, os custos com habitação e a qualidade de vida podem ser mais apetecíveis ? Por que não, atribuir um valor real concretizado em subsídio- sempre que necessário- para o trabalho doméstico das mães e donas de casa com famílias numerosas, ou idosos e deficientes a seu cargo, incentivando assim e dignificando o trabalho incalculável da mulher que prescinde do legítimo exercício da sua profissão no exterior, para ficar a cuidar dos seus, em favor do bem superior da sua família? Por que não...tantas outras ideias criativas e inovadoras que por aí andam e que protegeriam a Família e tornariam a vida das mulheres e dos homens bem mais fácil?

  Por aqui me fico, hoje...

  Acredito, apesar de tudo, que os tão recentes casos de violência doméstica com gente famosa e os numerosos casos com gente anónima só poderão diminuir e encontrar solução, difundindo e defendendo uma cultura diferente de mais respeito e dignidade da Mulher ( muito diferente do vulgar estereótipo da mulher- “bibelot” decorativo, objecto de usar e deitar fora!) , educação dos afectos, melhor distribuição de tarefas e responsabilidades em casa e uma melhor conciliação entre Família e Trabalho…..Acredito !