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Por Fátima Fonseca

24 de Fevereiro de 2003



   Tudo começou com os leões...Acabadas as pinturas de uma parte da nossa casa, o fim de semana parecia o momento ideal para passar decapante e encerar os tacos do chão riscado...de joelhos, com cera e esfregão, estava eu entusiasticamente (!) toda entregue à minha nova tarefa, eis senão quando me chega um dos meus filhos- em véspera de exames do IB – e me lança uma dúvida: - “Aqui n’ “ O Velho e o mar”, quando o velho fala nos seus sonhos com leões, a mãe acha que o Hemingway tinha algum segundo sentido ou qualquer outra ideia escondida?”

  Claro que ali de gatas, no chão, às voltas com as ceras e os lustros, eu não tinha qualquer ideia, nem já me lembrava de qualquer possível significado dos leões. Fui investigar e por fim, lá voltei ao encerado. Pouco depois, nova questão transcendental! –“ O´ mãe, e aqui neste soneto de Shakespeare, em que também se fala das garras dos leões...acha que...?”

  Bem, com tantos leões à minha volta, pinturas e encerados, já estão a perceber como o “metro quadrado” desta semana vos vai chegar tão tardiamente...mas por fim lá consigo começar a escrever e desta vez, gostaria de vos falar brevemente de uma ida recente a uma escola em Sobral de Monte Agraço, onde a ACMedia “de braço dado” com o Cenofa (Centro de Orientação Familiar ), para melhor aproveitar as sinergias – como dizem os respectivos presidentes! - levou a cabo mais uma acção de formação conjunta, desta vez tratando o tema da “Educação dos Afectos”.

   Há sempre quem pergunte logo, se isso faz algum sentido, se se trata de fazer pura Educação Sexual ou se é assunto só para meninas (afectos? Parece sentimentalismo e pieguice, não é?)...e nós dizemos sempre, que basta olhar para o mundo à nossa volta- violência nas escolas, no desporto, na política, no trabalho, nas famílias e nações, para se perceber de imediato que alguém tem de começar a fazer alguma coisa no sentido de uma Educação para a Paz, o que passa por educar os afectos, ensinar a ouvir e compreender, perdoar e pedir desculpa, dar sem pedir retorno, ajudar sem ficar à espera que nos peçam ajuda, ensinar a sorrir e a rir, consolar, “ensinar a pescar” em vez de passar ao lado, indiferente, ou limitar-se a dar do que nos sobra e nem falta faz... em suma, ensinar a amar, quando isso implica não só sentimento ( ou uma paixão cega e efémera) , mas inteligência e vontade ao serviço do bem do outro ou dos outros.

  A verdade é que, como alguém bem conhecedor do tema me dizia, há pouco tempo, só educamos as crianças e jovens para o sucesso e para o bem-estar...cada vez há menos capacidade de resistência às dificuldades, contrariedades e dores, por isso tantos adultos, jovens e menos jovens, quando chegam ao casamento e se deparam com os primeiros problemas e desentendimentos, motivados por falta de dinheiro, dificuldades na comunicação pelo ritmo alucinante de trabalho, um filho porventura não esperado (!), desemprego, falta de saúde, entre outros, se sentem incapazes de enfrentar as questões e “agarram” a solução que todos lhe sugerem como sendo a tábua de salvação mais fácil: o divórcio!

  Folheio por exemplo, as páginas de um diário muito popular, conhecido pelo seu tipo de jornalismo sensacionalista (quase colectânea de horrores) e encontro uma secção cheia de cartas de desabafo de gente infeliz que pede conselho. As cartas são, em grande parte, impressionantes! Ou são pura ficção, algumas delas, apenas para preencher o espaço reservado e aproveitando o mediatismo da responsável e “conselheira conjugal”, ou se são efectivamente verdadeiras, só revelam mesmo até que ponto as pessoas precisam de uma verdadeira educação e reciclagem constante no campo dos afectos. No entanto, o conselho é quase sempre o mesmo: “saia dessa e depressa!”

  Tendo estado há pouco, num oportuno curso para técnicos ligados à prevenção na área da toxicodependência, reparei que houve o cuidado de falar em Mediação Familiar, como uma intervenção de apoio sobretudo no campo do aconselhamento familiar, enquanto é possível ajudar ao entendimento conjugal, por forma a conseguir-se uma superação a dois dos problemas e divisões. Faz pena de facto, que tantos se decidam pela guerra, quando a paz é possível! A começar no campo das famílias...

  Penso também naquele jovem agente da polícia, cuja história vinha relatada na nova revista deste último Expresso, segundo creio, e recordo a lição edificante da sua jovem namorada e dele próprio: perante o terrível desastre em que perdeu parte da face e o nariz, ante um futuro bem difícil e um presente terrivelmente doloroso, ela diz que quer casar com ele, tal como já planeavam, porque gosta dele pelo que ele é e vale “ por dentro”...é certamente uma grande lição para todos nós! (...interrompo esta escrita, para ir à igreja, porque preciso de parar e de rezar. Sinto-me tremendamente chocada com a notícia trágica da morte da mulher e filhos do atleta Calado... como se pode aguentar tamanha tragédia? Que podemos fazer? Como ajudar?...).

  É a Missa de Domingo, das sete da tarde e está tudo cheio. Só há um lugar sentado. Mesmo por baixo daquela imagem da Virgem, de que tanto gosto. Feita pelas mãos mágicas daquela querida escultora, há poucos anos desaparecida- Maria Amélia Carvalheira – a Virgem tem um Menino ao colo, olha para Ele, mas parece mesmo que o vai deixar cair... e às vezes até penso : E se um dia Ele me caísse mesmo no colo? O quê que eu fazia? A Virgem já deve estar cansada...

  E também eu, cansada, ajoelho e depois sento-me. Vou fechando os olhos por breves segundos. Depois volto a abrir e a fechar...a homilia é sobre a mensagem do Papa e a Paz...cada vez ouço a homilia mais longe. Desligo da terra por escassos minutos...de repente, alguma coisa me cai violentamente no colo! Tenho a certeza que disse, talvez baixinho, espero...“ MAS O QUÊ QUE EU FAÇO AO MENINO?”

  Sobre o meu colo, afinal, estava a minha neta de três anos, acabada de chegar, agarrando-se ao meu pescoço e confiando-me dois ou três dos seus tesouros mais queridos. Tinha que ser, claro! Ali estavam os seus leões de plástico e a maleta de viagem.

  Foi assim que começamos esta semana, com a Carlota aqui em casa e os leões em acção!