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Por Fátima Fonseca

2 de Fevereiro de 2003



   Há quem diga que o "m2" está a ficar demasiado longo e há quem pense que, contrariamente ao que fora de início, intenção manifesta, com o tempo, o "m2" se está a tornar um tanto pessimista e negativo...

   A caminho de um casamento em Cascais, era sobre estes comentários que me detinha e pensava: mas de que ingredientes "felizes" disponho eu para este próximo "m2"?

   Das imagens que vi, enquanto me arranjava para o casamento, relativas aos terríveis momentos da explosão e desintegração da nave "Columbia", com sete pessoas a bordo ? (Tal como hoje, recordo a estranha sensação que tive, há muitos, muitos anos atrás, naquela tarde bem distante, em que pela primeira vez entrei no hospital de Oncologia para visitar a neta de uns amigos, uma garota de 12 anos, com leucemia...revejo o nosso encontro, o presente que lhe levava, os seus olhos, o seu sorriso, a sua cor, o seu cabelo...e nessa mesma noite, eu entrava também pela primeira vez no Casino Estoril para uma festa de amigos...Como é que eu podia então, ir para uma festa? Como é que eu posso, hoje, estar numa festa?)

   De que mais posso falar ? Das notícias insistentes de um clima de pré-guerra crescente? Do escandaloso avolumar de suspeitas sobre gente conhecida que sempre respeitei como bons profissionais e que sempre julguei acima do nojo da novela e drama pedófilos que nos envolvem?

   É verdade, que eu só queria falar do (pouco) Bem que ainda é notícia e se de facto ainda se encontram notícias interessantes, reportagens e entrevistas de qualidade, também não é menos verdade que muitas vezes, elas aparecem à mistura com artigos incríveis e fotografias duvidosas, mesmo em jornais prestigiados, como se fosse viável fazer um produto de qualidade que possa agradar simultaneamente a gregos e troianos, ou atrair novos clientes, sem perder os fiéis de sempre...por exemplo, hoje domingo, para ler uma entrevista que me interessa com um padre e médico da nossa cidade, numa revista pertencente a um jornal dito de qualidade, tenho de passar por páginas e fotos de sado-masoquismo, que nunca compraria?

   Volto ao Independente da semana passada apenas para referir uma tão pertinente, quanto assustadora análise do Prof Vasco Rato -"As duas frentes"- donde retiro uma passagem "(...)Os optimistas bem-intencionados, mas imprudentes, dizem que é necessário "dialogar" com os fundamentalistas. Não importa que toda a evidência demonstre não haver diálogo possível com terroristas que declararam guerra santa contra o Ocidente(...)"

   Mas será possível ser mesmo impossível parar esta guerra? E que outras se seguirão?...

   Mudo de assunto, para recordar ainda aqui, uma excelente reportagem alusiva ao 50º dia dos Leprosos, na revista Única (do Expresso, de sábado passado), da autoria de Ana Cristina Câmara, sob o título de "Vidas interrompidas".

   Albert Schweitzer e Raoul Follereau são nomes que automaticamente, me vêm à cabeça, quando se fala de luta contra a lepra, contra a injustiça, a doença e a miséria e que hoje, infelizmente , já parecem não inspirar nem jornalistas, nem cineastas, esses tais que com a magia da caneta, do computador e da câmara, têm ainda o poder de atear em nós sentimentos bem maiores que o ódio e a vingança.

   Urge voltar a difundir a vida e obra exemplares destes e de outros heróis verdadeiros, que não estão assim tão distantes de nós quanto o silêncio sobre eles pode fazer pensar. Urge mostrar o trabalho generoso e perseverante de tantos homens e mulheres, ainda há bem pouco citados e conhecidos e hoje já quase esquecidos!

   ...Estou no casamento. Vejo os noivos, pouco jovens, trocarem-se olhares e promessas de apaixonados. Para sempre! Para sempre! Para sempre! E comovo-me. Sobre o altar, um menino inocente, numa das mãos leva as alianças e com a outra, tira um "macaquito" do nariz, qual intruso inesperado. Todos sorriem, enquanto o coro canta o melhor que sabe e é capaz. Segue-se a festa , para os noivos inesquecível. Todos parecem felizes, menos um casal. Ela , ao lavar as mãos, deixa um anel de ouro e brilhantes num cantinho do lavatório. Esquece-se dele, mas volta atrás poucos minutos depois e já não o encontra. Quem o terá visto ou encontrado? "Agradece-se a quem o tenha encontrado por acaso, o favor de o entregar ao chefe de mesa !" Ninguém responde.

   (Instintivamente, penso nos muitos "ladrões de casaca" que ultimamente têm vindo a ser acusados de crimes de peculato, abuso de confiança, corrupção...Penso nos muitos culpados de pedofilia que ainda se escondem. E penso em como o dinheiro mal ganho e mal usado não pode dar nem bons princípios, nem educação, nem felicidade a ninguém...Recordo o dia, em que vi aquela mãe envergonhada por um seu filho, pequeno ainda, ter tirado um chocolate das prateleiras do supermercado, a levá-lo pela mão, até à senhora da caixa para ele devolver o chocolate e pedir desculpa...).

   Volto a casa, pensando que de facto, o que mais importa é educar. Tudo passa pela Educação. É urgente educar, ensinar, corrigir, mostrar bons exemplos, boas práticas, contar histórias pedagógicas, ajudar a crescer, a ser mais pessoa, melhor pessoa! É preciso fazer a única guerra que vale mesmo a pena: lutar contra as nossas piores tendências, para que sendo nós próprios melhores, possamos fazer à nossa volta, um mundo mais humano e menos conflituoso. É preciso resistir ao mal, ao cepticismo e ao desânimo, venha o que vier, aconteça o que acontecer!

   Por isso, permitam que transcreva um belíssimo poema de Eugénio de Andrade, que acaba de ser justamente homenageado pela RTP II e pelos seus amigos, ao celebrar os seus 80 anos.


URGENTEMENTE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.