Quem somos
Temas
Intervenção
 

Por Fátima Fonseca

26 de Janeiro de 2003



   O dia chegava ao fim, depois de grande actividade e inúmeros acontecimentos e por isso, o cansaço era muito.

   Olhei o relógio, dei conta de que já era 5ª feira – aliás, dia dos 25 anos do meu filho João! - recostei-me no sofá, semicerrei os olhos e com uma réstia de lucidez ainda pensei que me faltava revisitar “ A viagem” (“Contos Exemplares” de Sophia de Mello Breyner ), para preparar uma acção de formação da ACMedia na 6ª feira, para alunos do Secundário (“Educar para os Media, hoje! A questão da Televisão!”) . Talvez me pudessem ser úteis, algumas daquelas ideias...caminhar por uma estrada...ir de viagem...

   Estendi o braço, peguei no livro, li as primeiras páginas, saltei outras e já muito ensonada, aproximava-me do final, daquele momento de intenso e belíssimo dramatismo, quando as duas figuras centrais estão prestes a cair no abismo...e de repente, dou comigo própria, angustiada, à beira dessa mesma estrada, gritando, acenando e esforçando-me quanto podia, para que uma imensa multidão de gente nova, que ali passava, me ouvisse e parasse, mas em vão...Um ou outro ainda parecia querer dar-me ouvidos, e aproximava-se, estendendo-me a mão, mas logo depois era arrastado por muitos que caminhavam apressados...Riam-se todos de mim, conversavam entre si, animadamente e uns atrás dos outros davam-me violentos encontrões, como se me quisessem fazer calar e esmagar, rindo, rindo, sem fim – AH, AH, AH – para logo em seguida se precipitarem, inconscientemente, nesse mesmo abismo de que eu tanto queria avisá-los...e afastá-los...PAREM! PAREM!...

   Acordei finalmente do meu pesadelo e apercebi-me então, aliviada, de que eram mais do que horas de me ir deitar e dormir sossegada, porque a noite ainda ia a meio...

   No dia seguinte, porém, compreendi a razão do meu pesadelo.

   Na verdade, na véspera, 4ª feira, eu tinha tido a oportunidade de assistir ao magnífico encontro internacional sobre “Televisão, Violência e Sociedade”, promovido pela Pro Dignitate em conjunto com a Sociedade Científica da UCP e a Cinemateca Portuguesa e numa sala repleta de gente até meio da tarde – ao contrário do que as imagens televisivas terão feito crer a muito boa gente que lá não esteve! – pude ouvir excelentes conferências e oportunas tomadas de posição.

   Eduardo Lourenço e Manoel de Oliveira, além dos convidados estrangeiros, entre os quais a própria Rainha de Espanha (ai, ai, ai...já estou a ouvir os lamentos dos defensores dos centros de decisão no nosso país...mas pronto, não importa para o caso...a Rainha falou bem, foi breve, pragmática e concisa e qualquer dia vai lá a Espanha, a nossa primeiraDama, fazer uma coisa parecida!) fizeram excelentes apresentações e por isso, para além do nosso aplauso, bem merecem ter os seus textos divulgados!

   Porém, da parte da manhã, os trabalhos prolongaram-se e não foi possível à Dr.ª Maria Barroso, como se compreendia aliás, dar a palavra a toda a audiência, que pretendesse fazer algum comentário, em qual número eu me encontrava. Tive pena, e bem pus o braço no ar, porque eu queria exactamente insistir na necessidade de preparar os jovens para verem programas de televisão com inteligência, com critério e queria até aplaudir o Dr. Emídio Rangel (o que raramente posso fazer!) que, apesar de continuar a dizer que quem tem obrigação de educar são só as famílias e as escolas (e certamente que não podem jamais ser desresponsabilizadas, concordo totalmente!), acabou por afirmar ali, perante todos nós, a sua concordância com a necessidade da existência de um código ético ou matriz aceite e respeitada por todos os canais...para evitar determinadas perversões...

   E para se saber melhor o que se passou nessa interessante e feliz iniciativa do colóquio de 4ª feira, remeto-vos desde já, para os magníficos artigos de Bénard da Costa no Público e de João Carlos Espada no Expresso! A não perder!

   Mas como ia dizendo, de facto, a angústia do meu pesadelo já estava explicada, só que o que eu não sabia é que ele era também uma espécie de antecipação e preparação para o que se seguiria: a tal ida a uma escola Secundária, nos arredores de Lisboa.

   Estamos habituados a excelente acolhimento em todas as escolas onde temos ido e por isso, seguimos tranquilos, para um auditório onde nos esperava uma pequena multidão de gente nova, aparentemente pouco interessada em debater a possibilidade de ver televisão de um modo diferente, desmontando os processos pelos quais somos seduzidos, nem tão pouco evidenciando particular curiosidade em conhecer os efeitos da violência sobre o comportamento das crianças e dos jovens...

   Ali estávamos nós, sozinhos, no meio deles, decididos a mostrar-lhes que há um abismo do qual ainda é possível afastarmo-nos, se quisermos...Sabemos que as nossas palavras não são populares e fazem pensar, mas ao vê-los olharem-nos com ar incrédulo, lembrei-me do meu pesadelo e simultaneamente de Manoel de Oliveira, lá na Conferência Internacional, quando dizia“...as audiências fazem as moralidades de hoje e enchem os bolsos de quem as explora e por um fenómeno de habituação tornam o impróprio como próprio...e assim vamos nós atrás, como meninos inocentes!...”

   A sessão acabou por correr melhor do que o início fazia prever, mas não posso deixar de resumir aqui a última questão deixada por uma jovem dos seus 15 anos, já em diálogo de pequeno grupo, quando estávamos de saída “ Mas para que serve um canal 2 que ninguém gosta e ninguém vê...se as pessoas afinal só querem Big Brothers e Toys?”

   Ora é exactamente aqui que se coloca, a meu ver, e assim lho disse, a responsabilidade educativa das televisões. Se só dermos programas de má qualidade, com conteúdos de baixo nível, brejeirice e violência, desde os mais novos aos mais velhos, todos se habituarão e perderão, à medida que o tempo passa, a sensibilidade, a sensatez e o bom-gosto, e todos se converterão em gente embrutecida, sem ideias, sem ideais e sem valores...

   Razão tinham aqueles prestigiados conferencistas ao dizerem que neste nosso tempo “ (...) parece que preferimos viver num Las Vegas permanente” em vez de agarrarmos a realidade com ambas as mãos, a conhecermos e transformarmos para fazermos um mundo melhor, onde todos possamos viver em paz uns com os outros, e parece que “ encontramos no efémero uma espécie de plenitude (...). ” Como pudemos chegar a este ponto?” perguntavam-se e perguntavam-nos. Vale a pena pensar!

   Curiosamente, no sábado, num pequeno infantário do Cacém, fui encontrar um grupo de pais e educadoras, altamente interessados em toda esta temática, conscientes de que a formação dos filhos, ainda bem pequeninos, passa exactamente pelo bom uso de todas estas ferramentas pedagógicas que incluem a televisão e os livros!

   Saí dali cheia de esperança!