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Por Fátima Fonseca

19 de Janeiro de 2003



   Manhã cedo de domingo, acordo com os berros de “Hakuna Matata” do Rei Leão, vindos dos lados da sala. Presa ainda por mil atilhos de preguiça, custa-me dar o salto que se segue para a vida real e por momentos, penso muito vagamente, que a minha neta queridíssima, de 3 anos- a Carlota - devia estar antes a ouvir uma história pedagógica ao vivo, contada “ à maneira”, cheia dos “efeitos especiais” da oralidade , da ternura e do colo, de mistura com papa Cérèlac...A custo lá cedo ao dever e levanto-me enfim, para a vida...

   ...Agora é noite, já tudo descansa em minha casa e passo em revista os temas que gostaria de abordar...pego no lápis e começo por aplaudir a pedrada no charco lançada pelo Ministro Arnault ao propor, esta semana, um “Código de Ética” para ultrapassar os constantes incidentes e escândalos relacionados com suspeições, violências e corrupções no futebol nacional.

   Depois, verdadeiramente perplexa e um tanto angustiada ante as diferentes posições quanto à eventualidade de uma guerra no Iraque e a confusão de razões político-económicas perfeitamente explicadas pelos nossos brilhantes comentadores, para justificar a necessidade de atacar, recordo de repente, um livro da minha juventude - “Olhai os lírios do campo”, de Erico Veríssimo, e não resisto... vou aqui à estante, pego nele e procuro uma passagem em especial, para transcrever umas linhas que também hoje, transpostas da ficção literária para a realidade em que vivemos, me parece fazerem todo o sentido...ora reparem...

  
(...) Que é que a senhora, com a sua filosofia de amor, tolerância e boa vontade propõe fazer para libertar o Mundo da influência dos políticos sem escrúpulos, dos traficantes gananciosos, de todos os males que o afligem? Os patifes usam de violência. Que fazeis vós, os pacifistas? Cruzais os braços e ficais na contemplação de Deus?

   Sacudi a cabeça numa negativa vigorosa, convidei o Dr. Candia a sentar-se, tomei de um lápis e de uma folha de papel, disposta a mostrar-lhe que o meu plano de campanha nada tem de vago, passivo ou fatalista.

     Congregar os homens de boa vontade partidários do pacifismo e determinar a cada um a sua tarefa, tendo em vista que todos, desde o artesão mais humilde até ao intelectual mais reputado, podem prestar serviços à causa dentro do raio da sua actividade.

   Devem usar-se as armas do amor e da persuasão.

   Fugir sempre a toda e qualquer violência, mas saber opor à violência uma coragem serena.

   Mobilizar todas as forças morais e utilizá-las na guerra à guerra e aos outros males sociais.

   Fazer que homens de espírito são, desinteressados e lúcidos, subam aos postos de governo e fiquem senhores da situação.

   Educar as crianças, procurando dar-lhes desde o jardim da infância uma consciência social.

   Procurar influir em todos os meios de publicidade moderna: literatura, cinema, teatro, imprensa, rádio, fazendo o boicote de tudo quanto é mau e vicioso.

   Não esquecer que o exemplo individual é uma poderosa arma de propaganda.

   Estar disposto ao sacrifício e nunca fugir à luta.

   Dar assistência eficiente à infância.

   Encher o país de escolas, hospitais e dispensários (...).

   - As suas ideias não passam de um sonho. A força sempre há-de vencer. Não há nenhuma lógica na brutal balbúrdia da vida (...).

  

... Não haverá outra solução? - pergunto-me mais uma vez, enquanto arrumo o livro.

   Ao longo do dia e dos dias, nesta espera enervante, penso com frequência, como se sentirão eles, as futuras vítimas directas, de um lado e de outro, se eu me sinto assim, aqui tão distante, à primeira vista, do teatro dos acontecimentos...penso nas mães, nos filhos, nos pais...não, não vou continuar por aqui, a divagar sobre guerras e justificações...que não entendo e me ultrapassam...( mas onde está a coerência de defender a vida e fazer a guerra? E onde está a coerência de ser contra a guerra, contra a violência, mas defender aborto e eutanásia? E até quando vamos deixar que judeus e palestinianos se continuem a matar nesta louca espiral de violência? E...e...?)

   ...Um salto mais, permitam-me, e aqui fica uma última brevíssima reflexão sobre um interessante artigo de Cláudia Moura, no Notícias Magazine deste domingo, intitulado “Um Guia para Casais em crise”.

   Importa, que fique claro, de facto, que mediação familiar nada tem a ver com aconselhamento familiar. A mediação não visa prevenir situações de pré – rotura, em que por todos os meios se procura ajudar o casal a não desistir do seu casamento. Este é um dos trabalhos mais meritórios da Orientação Familiar e do Aconselhamento Familiar e é o trabalho, em concreto de associações como o CENOFA (Centro de Orientação Familiar de Lisboa), que criado e levado por um grupo de casais generosos assim começou há mais de 25 anos, com resultados assinaláveis em matéria de apoio a noivos, a pais e educadores de filhos pequenos, pais e educadores de filhos adolescentes e avós. A mediação familiar de que se fala no artigo em questão, pelo contrário, procura evitar que os pais, no desespero das suas queixas e já em processo de divórcio, se esqueçam que pais sempre serão. É um trabalho completamente diferente e certamente também necessário.

   Mas na verdade, assim como nenhuma guerra – por mais razões que haja! - pode ser boa em si mesma - como aliás, tantas personalidades nacionais e internacionais o afirmam, neste momento ! - também o divórcio, por muito pacífico e justificado que seja, jamais deverá ser considerado como bom em si próprio e como primeira solução !

   As crianças podem bem atestá-lo...