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Por Fátima Fonseca

13 de Janeiro de 2003



   O céu insistentemente cinzento e chuvoso deu por fim, lugar a um azul lindíssimo, prenúncio de um frio perigoso a que não estamos habituados. Surgem as primeiras notícias de mortes por hipotermia. No meio deste forte frio que subitamente se abateu, sobre todos nós, há porém, algumas notícias mais animadoras. Saber, por exemplo, que estão a ser tomadas medidas concretas de apoio aos sem-abrigo - para os não deixar morrer de frio ao relento- iniciativas da responsabilidade de várias organizações, governamentais e não- governamentais, bem coordenadas entre si e com a orientação e o apoio fundamental da Câmara de Lisboa, é uma excelente notícia e merece o nosso inteiro aplauso.

   Por outro lado, abrir o Diário de Notícias em novo formato e ler a igualmente nova secção, “Histórias com gente lá dentro”, descobrindo em manhã soalheira de domingo, a história de uma missionária sem medo e sem nome, que dá toda a sua vida, no meio de perigos indescritíveis, ao trabalho no meio das selvas do Congo, é igualmente alguma coisa que devemos no mínimo, agradecer a quem no-la dá a conhecer (obrigada, Leonor Figueiredo!) e é uma página real que deveríamos todos ler e divulgar.

   Curiosamente, quando o outro lado do céu mais se tolda com a ameaça iminente de uma guerra no Iraque, é empossada entre nós, a nova Comissão Nacional de Justiça e Paz, surge um Manifesto pela Paz, assinado por diferentes personalidades, de diferentes quadrantes políticos, e em boa hora, o Parlamento, a pedido do CDS-PP, decide debater hoje, 2ª feira, à tarde, a questão da violência na televisão. E por causa desse debate, muito oportunamente, também a TSF propôs hoje de manhã, através do Fórum, uma troca de impressões sobre o mesmo tema.

   A ACMedia, como muitas outras pessoas, teve ocasião de estar presente, e quis ouvir e intervir, em ambas as ocasiões, porque esta questão é de facto, extremamente importante e preocupante , diz respeito a toda a sociedade e revela decisivamente, o que somos e o que queremos , ou não, vir a ser.

   Construir a Paz é de facto, tarefa de todos nós.

   Hoje, ficar-me-ei pelo Fórum na TSF.

   Sabendo à partida, que todos estes temas são polémicos, que os consensos não são fáceis, e que estas questões apenas servem, com demasiada frequência, infelizmente, para mais um confronto político, gostaria no entanto, de recordar aqui algumas das interessantes ideias- chave que ali foram expressas, pelos diferentes intervenientes de distintas linhas ideológicas e formações sócio - culturais :

   (...) é preciso definir violência...há vários tipos de violência...por ex. há concursos humilhantes, cenas de desporto, futebol, insultos no Parlamento, televendas, o uso de cenas de vidas, ditas reais, só para aumentar as audiências, que são profundamente violentas (...);

   (...) hoje, os publicitários, quase só sabem fazer trabalhos de publicidade ou com violência, ou com pornografia (...);

   (...) devia haver alguma comissão de ética que acompanhasse a programação (...);

  (...) é preciso melhorar a vida das famílias para que possam acompanhar melhor os seus filhos, através de respostas políticas e sociais...há uma desinteligência crescente, uma grande falta de valores, a falsa ideia de que tudo o que se vê tem de ser leve, sorridente, superficial...é preciso auto-regulação... isto não vai com multas mais elevadas...era preciso haver “caderno de encargos”, regras, que obrigassem a maior qualidade (...);

  (...) é preciso saber ler as imagens, educar as crianças para os Media, os pais têm de estar mais atentos, serem mais interventivos, terem maior intencionalidade educativa, comunicarem mais com os filhos, desligarem a televisão (...) ou mesmo optar por não ter televisão;

   (...) é verdade que há em nós muita violência, irritação, stress, pressa, falta de escuta e de paciência uns para com os outros, motivada também pelos nossos estilos de vida, mas violência gera violência e caímos num ciclo vicioso (...);

  (...) há uma falta de qualidade geral...optei por não ter televisão, só vejo quando vou a casa de amigos... quando as crianças têm a oportunidade de viver no campo ou fazerem essa experiência de contacto com a Natureza até se esquecem da TV e deixam de “estar vidrados nela”; (...) mostrar o Toy “a fazer chichi” é uma violência”(...);

  (...) o Hermann José ultrapassa todos os limites, devia ir para casa (...);

  a TV com este tipo de programação adormece o lado crítico da pessoa;

  (...) há uma demissão da classe política sobre a abordagem ética da televisão...o importante não é saber como marginalizar a violência para horas mais tardias....depois de 25 anos de telenovelas em horário nobre, que tipo de imagens de amor, sexualidade, relação entre pessoas, que tipo de valores é que têm passado para as crianças? (...)

  a classe política tem medo na sua relação com a televisão...precisa dela para passar as suas mensagens e discursos ideológicos....a televisão é talvez a instituição mais forte a nível da sociedade moderna (...)

  não podemos esquecer que o ser humano integra uma enorme carga de violência, tem-na no seu próprio ser...até onde é que deixámos que a nossa Escola chegasse? O que é hoje a Família? O que somos nós, hoje? (...).

   Muitas mais coisas foram ditas, algumas me terão escapado, mas uma outra gostaria de referir, precisamente pela sua simplicidade:

   (...) “como Pais de dois filhos, o mais velho de 8 anos, decidimos em nossa casa desligar a televisão à hora das refeições...era tão fácil, se os três canais quisessem combinar não darem determinadas imagens, nem passarem determinados filmes às horas em que a maioria das crianças estão acordadas...em nossa casa só vemos o Telejornal da RTP II (...).”

   De facto, às vezes enredamo-nos num discurso de tal maneira longo, intelectualizante e fastidioso, que até parece que só uns iluminados poderão entender, acompanhar e participar, e acabamos por desistir de discutir temas e procurar soluções, esquecendo tudo o que um mínimo de bom-senso aconselha! Afinal, nem todas as soluções estão assim tão longe de nós!