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Por Fátima Fonseca

5 de Janeiro de 2003



   Hoje é Dia de Reis, por antecipação. Na verdade, Dia de Reis é 2ª feira, dia 6 de Janeiro.

   Já um tanto cansada de engomar, aliso a última toalha, pouso enfim , o ferro sobre a tábua e viro as costas à pilha de roupa que ainda me falta passar...

   Ponho-me a pensar no que ouvi, li e vi ao longo deste dia...

   Esta manhã de Domingo foi dedicada à 2ª parte de um mini-curso de actualização de formadores de Orientação Familiar, levada a cabo pelo CENOFA (Centro de Orientação Familiar de Lisboa), ali para os lados da Estrela.

   O nosso formador, com habilidade e mestria, ainda que repetidamente nos recorde que não é possível “meter o Rossio na R. da Betesga”, vai tocando diversos temas do maior interesse para se compreender a situação da Família a nível mundial e nacional.

   Fala-se de “Life Innovation”, de Olsen, do seu modelo de análise da relação conjugal e familiar, dos parâmetros de coesão (grau de proximidade emocional), flexibilidade ( capacidade de negociação de conflitos) e comunicação ( o “óleo” do sistema que é a família ), com que trabalha.

   Fala-se ainda do importante papel dos Orientadores Familiares, como agentes dinamizadores de uma melhor comunicação em casal, de como é possível ultrapassar crises e divergências sem ter forçosamente o divórcio como única saída e de como os filhos precisam, acima de tudo, de pais que se amem, esforçando-se por manter a coesão familiar mesmo que às vezes possa ser difícil e custoso.

   Abordamos também, a crise de identidade do homem enquanto Pai, o chamado “Síndrome de Pai Ausente “- sobretudo quando ele até existe e vivendo na mesma casa, não assume o seu papel- e falamos das suas causas e efeitos...

   Por fim, falamos ainda de como o Direito, hoje em dia , aborda todas estas problemáticas familiares, para chegarmos a uma de entre várias conclusões : é que todos os “sucedâneos” de família, que hoje existem em maior ou menor grau no mundo dito civilizado, afinal procuram por força, um estatuto jurídico igual ao da família, dessa mesma família tradicional que eles rejeitam...é curioso!

   Saímos todos com a sensação de que foi um tempo bem empregue e que há muito a fazer...resta arregaçar as mangas, para ajudar as famílias- também a nossa!- a serem mais e melhores!

   Depois, recordo o que li no “novo” Diário de Notícias sobre clonagem, sobretudo as opiniões do muito respeitado filósofo Michel Renaud, especialista em Bioética : “(...) a clonagem de um ser humano empobrece a identidade genética, vai contra um processo natural que é a fusão de dois patrimónios genéticos para a formação dum ser único (...), (...) não somos proprietários da natureza em nós, mas gestores(...), nem tudo o que é possível, é éticamente admissível ! (...) os fins não justificam os meios(...)”

   No meio das ameaças que ensombram o horizonte, alegra-me saber que há filósofos, sábios e e cientistas, que têm a sensatez e humildade de reconhecer que há limites à experimentação.

   Perante a loucura dos que se julgam senhores do mundo e como tal, julgam poder tudo experimentar nos laboratórios da ciência, importa de facto, que o comum dos mortais não se deixe deslumbrar, esquecendo as muitas barbaridades cometidas em passado recente ( e no presente), em nome do avanço da Ciência. Oportunamente , o Diário de Notícias recorda-nos algumas : as experiências dos Nazis, as da Manchúria e da Noruega.

  Finalmente, já depois de ver o jornal da noite da TVI e de ouvir os sempre tão inteligentes quanto oportunos comentários do Prof. Rebello de Souza, recordo a informação estatística de que hoje em dia, segundo as mais recentes estatísticas, “ se vive mais tempo ( sobretudo as mulheres), mas também há muito menos nascimentos”. Aliás, estes temas e conclusões agora mencionados por todos os meios de comunicação, já há algum tempo que vêm sendo repetidamente apresentados e comentados pela APFN, essa jovem Associação das Famílias Numerosas em surpreendente processo de crescimento. No entanto, nem sempre os políticos lhes têm dado a devida importância, embora sendo visíveis os seus efeitos profundos na família e sociedade, de todos os pontos de vista.

   Das últimas perguntas que deixou no ar, retenho ainda: “ Que vamos fazer aos mais velhos? Como cuidar deles? Como aproveitar o seu tempo e as suas capacidades?”

   Ouço as vozes das minhas filhas, que se aproximam, mas ainda tenho de tempo de pegar num velho livro de Carvalho Rodrigues ( “Ontem, um Anjo disse-me”), para dele retirar uns versos do poeta e filósofo, TS Elliot (1929) : “...Where is the life we lost in living...where is the wisdom we lost in knowledge...where is the knowledge we lost in information...” (onde está a vida que perdemos , vivendo, onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento, onde está o conhecimento que perdemos na informação...)...

   É Dia de Reis!

   Os três sábios – reza a História- ao fim de longa viagem, chegaram, ajoelharam e curvaram-se, rendidos, diante do Menino...e nós? No frenesim da nossa pressa e dispersão, na loucura da nossa vaidade e presunção, na ilusão do muito que sabemos e podemos, quando aprenderemos a lição?

   É tarde. Paro de escrever. Ouço os risos das minhas filhas...aí estão elas de Bolo-Rei na mão !