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Por Fátima Fonseca

30 de Dezembro de 2002



   A noite chegou depressa. Junto ao carro parado na estrada do Rodízio, espero por um dos meus filhos, que para trás ficou à conversa com amigos.

   Parece-me que o tempo parou e não tenho pressa. Que bem me sabe parar! Aliás, faz bem , para descobrir o sentido das coisas e das palavras e procurar o mais importante, que nos foge por entre os dedos, a cada passo.

   Vem-me à memória o " Principezinho" de Saint Exupéry e no meu íntimo, julgo ouvir as palavras da raposa : " Vou - te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos (…) Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante (…)".

   À minha frente, não muito longe, adivinho o mar, pelo cheiro e pelo bramido das ondas. No céu, aqui e ali, um leve ponteado de estrelas por entre as nuvens escuras, numa breve acalmia do vento e da chuva, que nos tem fustigado. No ar frio da noite invernosa, paira uma agradável mistura de cheiros vários, a mar, a terra húmida e a lenha queimada nas casas das redondezas.

   Respiro fundo, procurando guardar em mim os ecos do que acabo de ouvir, neste último domingo de Dezembro, conhecido como o domingo da Família de Nazaré ou da Sagrada Família. Penso nas famílias que conheço, nas desconhecidas e também na minha.

   De repente, sem bem saber porquê, vem-me à cabeça a música que todos cantam e a televisão tanto anuncia neste fim de ano - Asereje ja de he de jebe…de bugui na de buididipi… Alguns têm procurado estranhos significados nesta letra, mas diz-se que o seu autor, Manuel Ruiz, sabendo como os espanhóis são pouco dados ao inglês, inventou uma espécie de transcrição fonética duma das suas canções favoritas, o 1º rap (Rapper`s delight, 1979), e daí resultou este grande êxito de "Las Ketchup".

   Entre os mais novos, todos sabem a letra e os gestos, que copiam e imitam, frenética e alegremente, apesar de as palavras não terem qualquer sentido.

   Penso nos jovens, sempre prontos a copiar a novidade, a imitar e a serem arrastados por modas e tendências.

   Ao mesmo tempo, recordo uma outra música portuguesa, muito "pimba", que acabamos de ouvir no carro e nos fez rir, mas cuja letra, essa sim, faz sentido e dá que pensar: " A gente já não fala, só grita só grita, é sempre a mesma coisa, só fita, só fita (…) por pormenores sem importância criamos cada vez mais distância (…) cenas de um casamento a sucumbir (…). Penso nas famílias…

   E na insignificância de mais este m2 - o último de 2002!- é mesmo de "família" que vos quero falar, ainda que em linguagem quase telegráfica.

   De facto não saberia, nem gostaria, de falar hoje dos perigos, misérias e ameaças que aí pairam, dentro e fora das nossas portas. Por isso, deixo a quem mais sabe os comentários inevitáveis sobre clonagem, "mães de aluguer", guerras iminentes, Venezuela, Iraque, fome, doença, droga, pobreza, mutilação genital das mulheres africanas…e tantos outros problemas mais próximos de nós.

   Aproveitando porém, o hábito jornalístico de inventar abecedários de acontecimentos e personalidades do ano que termina, prefiro propor à vossa consideração um abecedário de segredos não contados e de histórias de amor por escrever, comuns às famílias que, contra ventos e marés, teimam em procurar a felicidade sendo família. Em vez de um balanço do passado, será antes como que uma proposta - para jovens e famílias - de um itinerário a percorrer infatigavelmente ao longo do novo ano, em busca do sentido das palavras!

   A - atenção, admiração, alegria, Avós

   B - beijos, bondade, belo

   C - coração, calma, comunicação, conquista, compreensão, confiança

   D - dois, defesa, dedicação, dádiva, dor

   E - entendimento, escuta, esforço, energia, envelhecimento

   F - filhos, fé, férias

   G - gestos, gozo, gosto

   H - histórias, humor, hoje

   I - ideais, intimidade, irmãos

   J - jogos, juventude, Jesus, José

   L - lar, laços, luta, leitura, lealdade

   M - mãe, Maria, música, maturidade

   N - nós, namoro, natureza

   O - o Outro, o outro, os outros

   P - pai, projectos, pessoa, paciência, prazer, perdão, paz

   Q - qualidade

   R - respeito, resiliência, recomeço, renúncia

   S - sentimentos, sexualidade, simplicidade, serviço

   T - tempo, ternura, trabalho

   U - união

   V - vontade, viagem, vida

   X - xi-coração

   Z - zelo

   São muitas as palavras que ficam por escrever…não querem ajudar a completar?


   Um bom Ano para todos!