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Por Fátima Fonseca

24 de Dezembro de 2002



   Sentei-me na carruagem do metro, cheia de gente. Ninguém dava conta, mas ao meu colo e ao meu lado levava a minha pressa e o meu “stress”. Fechei os olhos, serenei um pouco e pus-me a pensar...

   Se nesta época festiva, fosse possível juntar os corações de todos os homens, para formar um único coração infinito, e depois lhe injectássemos um líquido- o contraste- para conseguirmos ver os seus recantos mais escondidos, e se, por fim, lhe pudéssemos fazer uma ecografia gigante, se calhar os resultados seriam espantosos...

   Provavelmente, descobriríamos que por trás de toda esta imensa onda de solidariedade de Natal - talvez nem sempre desinteressada...- mas que se traduz em variados espectáculos e galas em favor dos mais necessitados ,vendas de Natal, distribuição de presentes pelas crianças, ceias para os sem-abrigo, recolha de fundos, etc., há uma efectiva subida de temperatura no calor humano, de que tanto carecemos ao longo do ano.

   Talvez descobríssemos também, que em cada pequeno gesto- como enviar um cartão de Boas Festas, oferecer um presente insignificante, um sorriso, um beijo ou um abraço, fazer um telefonema ou uma visita, sentar à mesma mesa...- dirigido não só aos mais queridos, mas sobretudo aos que se encontram mais distantes, ou precisamente com quem nos relacionamos pouco ou mesmo nada, nesses pequenos gestos gratuitos se escondem afinal inúmeros fios quase invisíveis de um bem-querer desinteressado, espontâneo ou voluntário, com os quais se tecem afinal as boas relações entre as pessoas e os povos, e se constrói a Paz nas famílias e entre Nações...

   Entretanto cheguei à Rotunda e saí, quase levada pela multidão. Cruzava-me com muitos outros, igualmente apressados, mas também com gente mais velha, alheada de tudo e de todos, por ali parada aos cantos dos corredores do metro, talvez à espera de alguém, de alguma esmola, ou simplesmente à espera de nada...

   Ia reparando em muitos rostos tensos e sérios. A passadeira rolante acelerava as nossas pressas. a minha era sobretudo a de chegar a tempo ao lançamento de um livro, no S. Luís. E deixara tanto por fazer...presentes por comprar, comidas por cozinhar, roupas por preparar, malas por fazer, telefonemas...Caminhava e sentia-me dividida entre o gosto e o dever, o querer parar e o ter de andar, o sonho e a realidade...

   Volto a entrar noutra carruagem cheia e desejo ardentemente sair desta cidade que me asfixia e me obriga a correr. Fecho os olhos de novo e já vejo a Serra de Sintra e os montes junto ao Guincho, como que docemente arredondados pela curva da mão que os moldou, pintados de mil verdes...mais além, depois do cabo da Roca, a areia fina e imensa da Praia Grande e as ondas brancas , enormes...

   Chego por fim, ao Chiado. Subo os últimos degraus do metro , a três e três, e entro na belíssima sala do S. Luís, antigo “foyer” hoje remodelado num feliz misto de velho e novo. Na sala cheia , tomam-se lugares. Fico num canto discreto. Ouço primeiro, a palavra comedida e feliz da responsável pela editora Diel ( de parabéns, mais uma vez!), depois a palavra cheia e exuberante do padre João Seabra, amigo do autor e apresentador do livro “Querer crer” e por fim, a palavra certa e o testemunho espantosamente comovente do seu autor, Paulo Teixeira Pinto.

   Sentada numa bancada lateral, via na minha diagonal, a sua mulher e filhos e sentia-os comovidos. Eu também.

   À minha volta, todos escutavam atentos. Da dedicatória retiro “A quem quer crer e espera a Esperança. À minha família. A S. Josemaria.” Sinto-me incluída. De regresso a casa, devoro logo metade do livro...

   Mais uma noite e mais um dia, o tempo urge e eis-nos já sobre o Natal, ou o Natal sobre nós ( talvez em nós?). Pela Internet recebo as últimas mensagens antes de deixar Lisboa. Chega-me a boa notícia de que no Parlamento Europeu, a votação sobre um possível aumento do orçamento para financiamento do aborto nos países pobres teve como resultado a vitória do “não”. Pedem-me que divulgue e alegra-me fazê-lo. Recordo, neste mesmo momento, as entrevistas a diferentes “famosos” no DN magazine do último domingo e reparo que quase todos são unânimes em referir como exemplo de felicidade máxima o nascimento dos seus filhos. Relaciono com a notícia sobre o aborto e vejo como, naturalmente, as pessoas são pela vida! É isso que é natural, aliás! Pois se nascemos todos com um imenso desejo de eternidade dentro de nós, como é possível que não nos alegremos com o Nascimento, com a Vida?

   É por isso que, sendo o Natal, a festa dum Nascimento especial, ela nunca poderá deixar de ter como razão principal e raiz mais profunda da sua Alegria, precisamente o Nascimento de Jesus e esta relação familiar, simultaneamente tão humana e tão divina, de Mãe, Pai e Filho.

   Um Feliz Natal para todos vós!