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Por Fátima Fonseca

15 de Dezembro de 2002



   Mais um fim de tarde terrivelmente chuvoso, frio e desagradável. Atravesso as ruas da Baixa, apressada, carregando sacos, com trabalhos da ACMedia e lindos presentes de Natal, muitos embrulhos cheios de laços e papel brilhante, mas na verdade muito cheios de nada...

   Cansada, impaciente e preocupada com a palestra dessa noite numa escola, vou esperar um taxi na fila junto ao Teatro D. Maria II. Vejo montras, luzes , decorações, penduricalhos sem significado, uns pobres , outros vistosos, a engalanar as ruas, mas Natal é que não parece...aqui e ali ainda se reconhece uma estrelita e pouco mais...Ouve-se no ar música cabo-verdiana, uma “ morna” primeiro e depois música inglesa, mas música de Natal não ouço...pelas costas, lá descubro um Pai Natal, magrinho, magrinho, mas ao passar por ele, verifico tratar-se de uma rapariguinha de rosto esquálido e quase tão pálida quanto as suas barbas. Mais adiante, pachorrentamente sentado num caixote, outro pai Natal lê o jornal Record.

   Espero um taxi que não vem, ao frio e à chuva miúda, um tanto triste e preocupada com a reunião dessa noite, nas Caldas da Rainha.

   Vou esperando de mão dada com a minha Mãe.(Desculpem! É mentira, mas por momentos quase me pareceu verdade...afinal , pousados os sacos, na mão só tenho a pega da mala preta da minha Mãe, que agora uso. Penso nela, que pela primeira vez não estará já connosco neste Natal...)

   Finalmente chega a minha vez. Entro num taxi quente, acolhedor, ao som da voz inconfundível de Andrea Bocelli. Surpreendida, reconheço a Ave Maria de Bach / Gounod ( ...Benedicta tu in mulieribus...). Comovo-me: era aquela uma das preferidas da minha Mãe e além disso, ali dentro é Natal !. Está feita uma primeira ponte entre nós, mesmo sem palavras. O motorista, um homem de idade e de sorriso triste, vai levar-me até casa. Começamos a conversar. Fala-me desta música de que tanto gosta, do filho que perdeu, da doença da mulher, do seu amor ao trabalho...e eu pergunto-lhe como aguenta este stress do trânsito todo o dia. Sorri e mostra-me a colecção de CD’s de música clássica, o seu hobby. Confessa-me que neste tempo de Natal, propositadamente, só ouve música sacra, para ajudar a acalmar os passageiros e lhes lembrar que é Natal. Acho curioso. Calamo-nos os dois para ouvir a Ave Maria de Schubert (...la pace che solo tu puoi donar. Ave Maria...). Conto-lhe, também eu, a minha pena pelas montras e pelas ruas onde passei e onde vi tão poucos sinais de Natal. Começa o “Panis Angelicus” de Franck e não conseguimos falar. Nem ele, nem eu. O carro avança devagar - (...o res mirabilis!...pauper, pauper, servus et humilis...) - janelas fechadas, escuro ali dentro, calor q.b., não sei se do aquecimento ligado, mas sinto-me bem ! Recomeçamos a conversa e falamos do vagabundo novo ali deitado na R. dos Fanqueiros, entre jornais, cartões e manta, sempre de panamá sobre os caracois escuros. Do ucraniano, que acabei de ver, com olhar perdido e ar doente, semi - estirado no chão da rua, comendo vorazmente vários pães, enquanto a ambulância se prepara para o levar. E dos muitos seropositivos jovens, em cada esquina, com bloco - notas na mão e laçinhos encarnados, a pedirem “ qualquer coisinha”. E do jovem de 26 anos, que andava numa escola de futebol e por causa das más companhias , está hoje com sida, hepatite e tuberculose, mas que no dizer da pobre Mãe, “ está muito melhorzinho e anda agora muito feliz, porque com o dinheiro da pensãozinha que recebe do Estado, comprou um carrito para se distraír...”Também falamos de um outro toxicodependente, internado numa clinica particular, cuja conta mensal de 400 contos ( no tempo dos contos) é em parte suportada pela família, mas 80% são pagos pelo Estado...( como é que o Estado pode ajudar as famílias numerosas ? )...Será verdade? Questionamo-nos.

   À chegada a minha casa, tenho pena de acabar a conversa com o filósofo - taxista, que ainda me diz , em jeito de despedida : -“Olhe minha senhora, esta vida são dois dias...só vale a pena descobrir que é mais o que nos une do que o que nos separa, não acha? Para quê tanta guerra, tanta greve, tanta zanga...se nascemos e morremos todos iguais ?...sem nada nascemos e nada levamos...o que é preciso é ajudarmo-nos uns aos outros e fazermos um mundo melhor, não acha?” Sorrio-lhe, concordando. Apetecia-me dar-lhe um beijo, mas fico-me por um aperto de mão caloroso. Levo nos ouvidos o som inesquecível de “Mille cherubini in coro”, de Schubert (...Dormi, dormi, sogna, piccolo amor mio...).Obrigada sr. Almeida e Bom Natal!

   Nessa mesma noite, já debaixo de um temporal, seguimos por fim, meu Marido e eu, para a tal escola nas Caldas da Rainha, para um debate intitulado “Pais e Professores. Quem ensina? Quem educa?”. Na mesa encontraria um simpático grupo composto pela coordenadora do Projecto de Educação para a Cidadania, a nível do Conselho da Europa, um responsável pelo Sindicato de Professores ali da zona e uma Mãe da Associação de Pais da mesma escola.

   De uma população de 1300 alunos e após um esforço colossal da imparável Associação “Jovens em Movimento”, apoiada por alguns adultos, comparecem cerca de 30 pessoas, o que deixa alguns mais desalentados. Mas nada se perde e vale sempre a pena!

   Este “ m2” já vai um pouco longo e o tema das Relações Família - Escola bem merece voltar a ser tratado. Contudo, gostaria de deixar aqui registada a pergunta final de uma Mãe de 7 filhos ( que também contou como tinha tido de fazer uma opção de mudar de Lisboa para as Caldas para poder dar maior atenção aos seus filhos! Bravo!) : “...Mas como havemos nós de convencer os outros Pais a virem à escola, a estas reuniões sobre a Educação dos seus filhos e aos encontros com os Directores de turma? Como?”

   A minha resposta habitual é não desanimar e , à semelhança destes jovens lutadores , continuar a organizar, dinamizar , convidar, para acordar os outros Pais, do sono, cansaço, desinteresse, e da inércia e do peso das dificuldades reais...

   Naquele momento, lembrei-me de umas imagens recentes da televisão, a propósito da Maré Negra , em que jovens Voluntários de Esposende, creio que ligados a uma Associação de Protecção do Ambiente, integrados na operação “ Ganso Patola”, vão pelas praias e rochas, à procura, uma por uma, das aves em perigo, para as salvarem, com todo o carinho.

   É isso o que há a fazer com os Pais: é preciso ir ter com os nossos amigos e conhecidos, em crise ou não, conversar com eles, um a um, para os despertar e “salvar” da lama preta e pegajosa das dificuldades e distracções do nosso tempo, para os ajudar a assumir o seu papel de Pai e de Mãe, com sentido de responsabilidade. Um por um.

   Os nossos filhos precisam do nosso tempo e temos de lhes dar tempo enquanto é tempo.