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Por Fátima Fonseca

8 de Dezembro de 2002



   Não sei se já vos aconteceu, mas às vezes perante a Natureza em todo o seu esplendor, uma orquestra ou uma voz a interpretar determinada peça de música , uma cena da vida real, simples e terna, como uma criança a sorrir- nos abraçada ao pescoço do pai, uma determinada passagem de um livro, ou um quadro belíssimo, pode acontecer que nos sintamos tão tocados por dentro, que somos como que arrebatados e transportados alguns patamares acima da nossa existência normal, lá onde até os olhos, mesmo sem lágrimas, parecem ter joelhos para ajoelhar em muda comoção.

   Foi isso que me aconteceu esta 5ª feira! Vou-vos contar...

   Na TSF, em sintonia com a celebração do dia, o tema do Fórum habitual era "Voluntariado" e eu seguia pela Baixa fora, atenta ao programa.

   Ia ouvindo e concordando com outros ouvintes, que partilhavam as suas impressões e experiências, falando da disponibilidade que é precisa para se ser voluntário, de como se sentiam gratificados e enriquecidos pelo voluntariado em Oncologia, junto de crianças, de como até oficiais da Nato tinham colaborado em trabalhos numa Maternidade em Cascais, de como tanta falta fazem muitos outros voluntários em actividades só aparentemente menos úteis ( por ex. traduzir material relacionado com o desporto para deficientes, ou gente que não se importe de correr ao lado de atletas invisuais para os guiarem nos seus percursos!) e de como ainda está tanto por fazer no nosso país em matéria de cidadania, também por falta de hábitos de associativismo e voluntariado.

   Ia ouvindo e pensando que o mesmo acontece com a nossa ACMedia e muitas outras associações , que precisam urgentemente de mãos e braços para ajudarem, num trabalho talvez pouco visível e pouco reconhecido nos seus efeitos a curto prazo...mas seguramente necessário.

   Lembrava-me do exemplo lindíssimo de crianças e jovens a trabalharem horas e horas a fio no Banco Alimentar do fim-de-semana passado, dos diferentes movimentos universitários , e não só, que organizam campanhas em África, no Brasil, em Portugal, do trabalho junto dos Sem-Abrigo, aqui na nossa cidade de Lisboa e em muitos outros lugares, tantos trabalhos realizados com e sem motivação religiosa, e lembrava-me de ter lido algures, as palavras de um Santo dizendo "(...) urge restaurar o amor nas relações humanas, fazer tudo num clima de voluntariado, só por amor, mas com igual profissionalismo, como se fosse remunerado (...)".

   De repente, ao passar junto à Madre de Deus ( Chelas ), vejo um lugar vago, logo ali à direita, a chamar por mim , para eu arrumar o carro...e zás, não resisti. É hoje, pensei! Não é tarde, nem é cedo, vou-me oferecer um presente ... e lá fui eu ao Museu do Azulejo, onde há muito desejava entrar.

   Cruzei-me no máximo, com dez pessoas uns oito estrangeiros, gente jovem e duas senhoras de idade, portuguesas.

   Avancei, voltei atrás, parei e admirei sala por sala. Parecia-me ter todo o tempo do mundo e todo o museu por minha conta!

   Visitei também a Igreja da Madre de Deus, onde há muito não entrava e que está fechada ao culto durante os dias de semana.

   Primeiro, diante do chamado "Painel da Vida" ( séc. XVI), depois perante uma belíssima Nossa Senhora da Conceição em talha dourada do séc. XVIII e junto de muitas outras peças lindíssimas, na sua maioria em painéis de azulejos, não só me senti maravilhada, como pude lavar os olhos abundantemente. Ali, perante tanta beleza, uma a uma, iam desaparecendo as manchas de fealdade, tristeza e indignação que me haviam deixado outros pseudo- quadros recentemente mostrados no Expresso, bem como as imagens visuais e sonoras constantes, cheias de crude e outros lixos com que os telejornais das últimas semanas teimam ,constantemente, em nos inundar o espírito, talvez só para nos manterem bem informados...

   Deixem que vos faça uma sugestão: visitem o Museu e levem lá as vossas famílias. (Procurarei levar lá a minha, também! ). Experimentem fazer um programa diferente! Garanto-vos que vale bem mais do que os habituais passeios dominicais a centros comerciais, ou os descansos forçados e preguiçosos de tardes inteiras dos nossos filhos ( e nossas?), deitados num sofá , rendidos a uma televisão ou DVD's violentos e alienantes !... mas já agora, se for esse o problema, informo que também ali poderão comprar alguns presentes de Natal...e tomar um café em família, ou com amigos, num acolhedor bar-restaurante em jardim de Inverno. Está-se bem, acreditem!

   Desta visita, guardo no pensamento, com grande nitidez, as belíssimas feições da Nossa Senhora da Conceição, e sobretudo hoje - neste seu dia - vêm - me à memória muito gratas recordações de criança, quando o chamado "Dia da Mãe" tão bem condizia com o dia 8 de Dezembro. Nesse dia, em minha casa e em casa de muitas outras famílias, festejava-se a nossa Mãe da Terra, oferecendo-lhe os presentes feitos com a ternura e os gestos desajeitados das nossas mãos de criança e ao mesmo tempo, celebrava-se a Mãe do Céu, com a invocação de Nossa Senhora da Conceição, Protectora, Rainha e Senhora dos Portugueses, desde que algum tempo depois da Restauração (1640) o nosso Rei D. João IV a coroara com a sua própria coroa em sinal de homenagem e gratidão pela nossa independência recém-conquistada.

   Ainda hoje, para mim , muito em particular, as duas Mães estão sempre juntas e não as posso, nem quero, separar.