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Por Fátima Fonseca

1 de Dezembro de 2002



   Sexta-feira, fim de tarde, prestes a partir para o Algarve, malas a postos, batem-me à porta., para me dizerem isto, em resumo: “...e a sua Associação, essa tal ACMedia não faz nada? Não emite comunicados sobre esta pouca-vergonha toda que os telejornais sucessivamente vão tratando com pormenores cada vez mais escabrosos? E o quê que eu vou dizer aos meus filhos?...Daqui a pouco nem o telejornal se pode ver...!”

   Pois é verdade, o telejornal é de facto, um programa que não deve ser visto pelas crianças, e não se trata de uma conclusão de agora, embora se torne mais evidente neste momento! Por ali passa tudo o que dificilmente se pode explicar a uma criança com menos de 10 anos...mas se por acaso, já viram, ao menos que os pais não actuem como se nada se tivesse passado, ou não pensem que devem ser os professores a explicar lá na escola!

   Como dizem o Professor Doutor Manuel Pinto e a Drª Sara Pereira, (Universidade do Minho), os pais têm de ser “mediadores”, isto é, explicar e desmontar as mensagens da televisão, gastar tempo com os seus filhos, falando do que ali vêem.

   Depois, é preciso reconhecer, com um mínimo de sentido crítico, que já tudo está a ser dito e redito por tanta gente – jornalistas, deputados, associações, partidos – que não creio ser preciso carregar mais nas tintas...em defesa do respeito pelo código deontológico ou do reconhecimento do papel da Comunicação Social na descoberta de todo este incrível caso.

   No entanto, já agora, gostaria de dizer que falar de abuso, já indicia sempre, alguma coisa negativa. Abuso sexual, seguramente é algo de muito mau. Mas, abuso sexual de crianças, só por si mais vulneráveis e ainda por cima, entregues à guarda de uma Instituição credível, porque desprotegidas e carenciadas do ponto de vista socio-económico e afectivo, torna tudo pior ainda. Porém, como se não bastasse, iniciá-las na homossexualidade, no vício e no negócio mais vil que é a venda do próprio corpo em troca da ilusão (?) de carinho e atenção e de uns míseros dinheiros e presentes, significa na verdade, todo um conjunto de crimes que merecem castigo, repúdio e indignação geral. A verdade tem de vir a lume, doa a quem doer, por mais tempo que tenha decorrido e as malhas desta terrível rede têm de ser descobertas por instituições que funcionem mesmo e não se vendam a preço algum.

   Isso porém, não justifica, nem significa trazer à televisão, seja a que hora for, precisamente no auge das transmissões, aspectos profundamente sórdidos e escandalosos, para pasto da terrível morbidez, histeria e curiosidade do povo português, a que todos pertencemos.

   Não podemos exigir julgamentos sumários e justiça popular!

   Devo felicitar aliás, as várias vozes sensatas e insuspeitas, vindas de diferentes quadrantes políticos, que se insurgiram contra este tipo de jornalismo que não honra, nem dignifica quem o faz, por mais que alguns digam e receiem que isso possa significar a defesa da censura de outros tempos! Recordo concretamente, a deputada Maria Elisa no Parlamento (apesar de tão incompreendida!), e vários artigos e editoriais no Expresso, Público e Rádio Renascença, aos quais tive acesso directo.

   Felicito também, os participantes no excelente programa “Com sal e pimenta”, deste sábado, na Rádio Renascença.

   Infelizmente, à semelhança da mancha negra do “Prestige” que parece não parar de aumentar, para mal de tanta gente afectada e de todo o ambiente em redor, também a gravidade deste caso ultrapassa o espaço da Instituição atingida, afecta muita gente honesta e intocável que ali tem trabalhado e poderá vir a ter até uma repercussão tremenda no relacionamento afectivo normal entre crianças e adultos, na escola, na rua e em toda a parte. Efectivamente, existe uma outra terrível “doença” que se chama “desconfiança” e que insidiosamente, à maneira do que já acontece na Bélgica, em França e em Inglaterra, começa a minar o convívio social de forma assustadora, transformando todos os gestos normais de simpatia – tão próprios do nosso povo- em sinal suspeito passível de esconder más intenções e tendências estranhas! Um sorriso, uma festa numa criança que vai no autocarro ao nosso lado, dar colo aos que não são nossos filhos, ajudar uma criança a atravessar a rua, consolar a que chora...serão gestos a evitar?......Passaremos a desconfiar de tudo e de todos? Ensinaremos os nossos filhos e alunos a verem um mundo povoado de monstros mais assustadores e perigosos que a fantasia dos Harry Potter?

   Sinto tristeza, vergonha, apreensão...que mundo é este em que vivemos?

   Como pudemos cair tão baixo?

   A caminho do Algarve, ouvi ainda o final dum excelente programa de Isabel da Nóbrega, “O prazer da leitura”, na Antena 1. Evocando um excerto de um romance de Teixeira Gomes, falava na bela Ponta do Altar e na Ponta da Piedade, o que me fez desejar revisitar esses locais, até pelo entusiasmo e paixão com que foram mencionados.

   Antes de regressar a Lisboa, voltei a subir até à Ponta do Altar, à luz do entardecer, olhei o mar calmo e imenso, a vastidão do céu carregado de nuvens cinzentas e ameaçadoras e lavei os olhos da alma.

   Regressei calma e segura de que aquele farol continuará a iluminar a noite escura de pescadores e mareantes, por maior que seja a tempestade.

   Também a nós, aqui em terra, não nos faltará a Luz!