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Por Fátima Fonseca

24 de Novembro de 2002



   A maré negra trazida pelo desastre do petroleiro “ Prestige” apossou-se de quase todo o espaço e tempo da nossa Comunicação Social, ao longo desta semana. Veio juntar-se aliás, à negrura do panorama político e económico nacional, tendendo a enraizar em nós tendências depressivas, já de si tão próprias dos tempos de vacas magras.

   Hoje porém, queria falar-vos de uma outra maré negra, que põe de luto tantas e tantas famílias, de forma brutal, precoce e inesperada e que a todos nos diz respeito.

   É hora de abrirmos os olhos!

   Efectivamente, o problema crescente do aumento de consumo de bebidas alcoólicas e drogas entre adolescentes e jovens – a que aliás, o Dr. Pedro Strecht faz referência num excelente artigo do Público desta semana ! – é altamente preocupante e está directamente relacionado com essa mancha não menos negra, que é o incrível número de acidentes rodoviários de que Portugal tem vindo a ser, tristemente pioneiro, nos últimos anos.

   Sabia que só este ano, já houve mais de 1.000 mortos nas estradas de Portugal, e mais de 3.500 pessoas gravemente feridas, assim como um total de mais de 41.000 envolvidas em acidentes de viação( DN on-line) ? Sabia que estes números já são superiores ao ano transacto e continuam a subir?

   Haverá sempre, por certo, outras abordagens possíveis, que distribuem culpas e responsabilidades, entre pessoas, instituições, estradas, carros e condições atmosféricas. Uma porém, me parece fundamental: trata-se da questão da Educação para a Responsabilidade. E neste campo, há seguramente, muitíssimo a fazer!

   Na verdade, querer divertir-se e conhecer gente, sair à noite, ir a um bar beber um copo, estar com amigos e amigas, ter namorado ou namorada, ir ouvir música, dançar, pedir e dar boleia a conhecidos, tudo isto é natural e faz parte do relacionamento e do percurso normal dos jovens. É verdade que estas saídas à noite, sempre implicaram mais riscos, mas nunca como hoje, por muitas e variadas razões, a sensação de insegurança e medo entre os pais, foi tão grande e tão justamente compreensível (viram por acaso, a reportagem na televisão sobre a noite dos nossos jovens?).

   Entra pelos olhos adentro de qualquer um, que as famílias só por si, não conseguem resolver o problema!

   É preciso legislar e pôr limites concretos à ganância dos que exploram os maus hábitos sociais (porquê começar as saídas nocturnas só depois da meia-noite, por exemplo?) e as fragilidades dos jovens, vendendo-lhes – legal e ilegalmente – o que quer que seja, a qualquer hora da noite, a pretexto de que cada um tem de conhecer os seus limites e é livre de fazer o que muito bem lhe apetecer...

   É preciso pôr cobro à irresponsabilidade (Através de “Escolas de Pais” e “Orientação Familiar”?) de muitos de nós, Pais – sempre demasiado ocupados e distraídos - que muitas vezes, até em idades demasiado precoces ( já se anda na noite com 12 anos!), acabamos por dizer a tudo que sim, só para evitarmos os conflitos e incómodos dum não firme e dito a tempo, mesmo quando parece que “ a maioria” dos outros Pais concorda...

   É preciso pôr travão à obsessão das velocidades (até que ponto relacionada com os jogos de vídeo e computador?), ao exibicionismo dos nossos filhos e dos filhos dos outros, quando guiam sem carta, só para mostrarem o último modelo que o Pai comprou...ou para provar a sua louca perícia perante o pasmo dos pares e namoradas...

   Em todos os tempos, os jovens passaram por estas fases de afirmação pessoal e busca de admiração dos outros, mas a questão do sentido de responsabilidade, o reconhecimento de um mínimo de regras e limites e a noção de respeito pela vida própria e pela dos outros, era algo de tão importante, que se procurava viver e transmitir em casa e na escola.

   Hoje, mais do que nunca, urge antecipar perigos e deles informar os nossos filhos, numa Educação que reduza os comportamentos de risco e os prepare de facto, para uma Liberdade Responsável!

   Todos temos alguma coisa a ver e a fazer em todo este processo. Ninguém se pode alhear ou pensar que o problema não é seu!

   Pertenço ao grupo dos que defendem que faz bem pensar na Morte para melhor aproveitar a Vida, por isso acredito que rapidamente e em conjunto, temos de tirar lições concretas de toda esta mortalidade nas nossas estradas.

   É urgente debater casos, causas e consequências, estratégias possíveis e meios a utilizar, em casa, na escola, nas associações e autarquias e nos meios de Comunicação (sabemos como a televisão pode ajudar e tem ajudado a consciencializar, mas não poderá fazer um pouco mais?).

   É urgente providenciar no curto e médio prazo, a nível das diversas instâncias, para evitar tamanha calamidade.

   É preciso fazer campanha em defesa da Vida – em todos os seus estádios- de muitas e variadas maneiras, já!

   Novembro é, tradicionalmente, tempo de recordar os nossos mortos mais queridos, sejamos crentes ou não, e chorar por eles é humano, é natural, e até faz bem...mas a melhor forma de honrar a sua memória é seguramente, lutando com todas as nossas forças pela Vida e Vida com Qualidade dos que ainda aqui peregrinam!