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Por Fátima Fonseca

17 de Novembro de 2002



   Lá fora, no jardim, apesar do mau tempo, vejo gente a passar. Uns rápidos, outros lentos, crianças soltas ou de mão dada, guiando os pais por entre canteiros. E nós vendo, sem sermos vistos.

   Através da janela do Auditório, eu vejo o dia cinzento, a chuva a cair e as rosas a despontar. Vermelhas e brancas ali mesmo, do outro lado do vidro.

   Por entre discursos, Power-Points e mesas-redondas sucessivas, vou pensando neste “ meu metro quadrado” ainda em gestação...

   ... Chuvas, tornado, raios e coriscos, ventos e tempestades, de tudo tem havido um pouco, esta semana, varrendo os céus de lés a lés, a condizerem talvez, com o desconcerto e a crispação dos homens, com as suas greves, exaltações e protestos, concentrados sobretudo, nesta nossa cidade de Lisboa.

   Entre os muitos encontros, debates e discursos que caracterizaram a semana, optei por assistir a parte do Congresso da Prosalis (Projecto de Saúde em Lisboa) sobre “Estilos de vida e comportamentos aditivos”, e sábado à tarde fui ao 1º Encontro do Fórum para a Liberdade de Educação, que reuniu 1000 pessoas na Gulbenkian.

   Curiosamente, alguma coisa mais tiveram em comum, para além do local de realização.

   Do muito de interessante que ali ouvi e aprendi, no XII Congresso Internacional promovido pela Prosalis ( ONG dedicada à meritória luta contra a droga em diferentes meios, inclusivamente nas prisões ) gostaria de registar aqui algumas das frases , sem que contudo vos possa transmitir - com grande pena minha - a força e convicção com que foram ditas... :

   “...o tema da SIDA tem sido detonador de várias políticas e centro de preocupações há vários anos...apesar de tudo e dos grandes investimentos, a SIDA continua a aumentar em Portugal,... também a droga continua a aumentar, e verifica-se que muitos jovens estão informados, mas não aplicam o que sabem... vale a pena perguntar: mas se não está a resultar, que mais poderemos fazer? Porquê na nossa sociedade continuamos a correr tantos riscos a nível de comportamentos? Sida, toxicodependência, tabaco, álcool, acidentes rodoviários...Trata-se de uma questão cultural de fundo...trata-se de educar, mas que Educação fazemos nós para a Responsabilidade? Porquê tanta precocidade nas relações sexuais? E por que deixamos que continue a entrar droga nas prisões? Porque nos falta coragem para enfrentar as questões de frente? Porque nunca avaliamos os resultados obtidos? Porquê que só actuamos com o “penso rápido” para impedir que alastre o mal e tentando curar o que não conseguimos, como se vê, em vez de irmos às causas? O que está em causa é a dignidade do homem, o sentido da vida...importa pois, antes de mais, dotar as crianças, os jovens, as pessoas, de capacidade de juízo e critério, para avaliarem com sentido de responsabilidade o seu posicionamento e depois, ao lado, haverá certamente farmácias com penso rápido, seringas, preservativos, etc., para os que quiserem optar por continuar a correr riscos...” (Desculpe, António Maria, ilustre e combativo deputado, se não consigo pôr aqui exactamente o bem que disse e como o disse!)...

   Por outro lado, do que falou a Madalena, técnica de Vale d’Acor, – num turbilhão de autoridade de quem sabe e pratica o que diz, ama o que faz e aqueles a quem trata e num tom que envolve e arrebata – retirei também algumas notas: “...A toxicodependência põe no banco dos réus a cultura dominante em que estamos inseridos e da qual todos somos cúmplices, caracterizada pelo consumo compulsivo! Consumo.com!...é preciso aprendermos todos a adiar a gratificação imediata e ajudar os outros a aprenderem...é necessário mudar comportamentos (sexo seguro é a mentira do século!)...se continuamos a promover uma escola que se diz neutral, então criemos “escolas com rosto”, onde se aposte na pessoa, no protagonismo dos pequeninos...”

   Será um tanto injusto por certo, para com outros brilhantes oradores e suas intervenções de grande qualidade, resumir tudo o que ouvi a estas breves citações, mas estas são efectivamente aquelas que permitem fazer já, de imediato, a ponte para o Encontro de sábado, sobre Liberdade de Educação. Foi bem importante o que ali se passou e contudo, curiosamente, não creio que a Comunicação Social tenha dado relevo a qualquer dos eventos! Neste estiveram presentes pais e educadores vindos dos mais diversos pontos do país, para ouvirem interessantíssimas intervenções – com particular destaque, para os professores Mário Pinto e João Carlos Espada, em defesa da Liberdade de Educação, da necessidade de dar autonomia às escolas, igual tratamento às escolas públicas e privadas e financiamento às famílias, para que escolham a escola que preferem e o projecto educativo que melhor as serve, em vez de manter o actual sistema.

   Efectivamente, num tempo em que se verifica que os resultados obtidos pelos alunos portugueses na maioria das nossas escolas não são satisfatórios, apesar dos investimentos governamentais e dos esforços de tantos, e sabendo-se que estamos na cauda da Europa não só em matéria de resultados escolares, número de anos de escolaridade, grau de iliteracia e abandono escolar, mas também em número de acidentes rodoviários, em crescimento de sida, e em baixa produtividade... (tudo dito assim, misturado, talvez até pareça um tanto estranho) de facto, é tempo de perguntar: Mas o que está em causa afinal, é ou não é, uma questão de fundo, fundamental, que tem a ver com modificação de comportamentos e portanto com Educação? Estamos todos certos que sim e que é aí que temos de intervir!

   Os pais como primeiros Educadores, por direito e por dever, têm ou não têm liberdade de escolher a escola onde querem pôr os seus filhos? E a resposta é não, porque de facto, apesar de ser um direito consignado na lei, na prática só podem pôr os filhos na escola que lhes ficar mais próxima do ponto de vista geográfico e independentemente de gostarem ou não, acrescentando que só podem optar por uma privada se tiverem dinheiro para a pagar! E há algum meio já experimentado noutros países, em que se possa garantir essa liberdade de Educação, que já está prevista nas nossas leis? E a resposta, como ali naquele Fórum foi demonstrado de muitas e brilhantes maneiras, é : Sim, há. É preciso apenas, ter coragem para romper o sistema actual, quebrar a tradição de financiar escolas, para passar a financiar as famílias, permitindo que estas através por ex. de um cheque-educação, ou qualquer outro modelo de financiamento, utilizem esse dinheiro para pagar a escola que escolherem, sendo que por seu turno, as escolas privadas devem ter autonomia para criarem e gerirem o seu próprio projecto educativo e receber igual tratamento que a escola pública, que por seu turno também tem de responder pelo seu próprio projecto educativo.

   Valeu a pena! Parabéns aos organizadores!

   Olho de novo, através do vidro embaciado pelo calor de tanta gente e mesmo assim, vejo as roseiras. Há-as vermelhas e brancas. Estão viçosas. Bem cuidadas, podadas, regadas, crescem, seguramente perfumam e cumprem o seu ciclo natural. Umas serão porventura mais altas e mais belas do que outras, mas todas recebem o mesmo tratamento, a mesma terra adubada, a mesma chuva do céu e o gesto atento dos jardineiros da Gulbenkian. Quanta semelhança com a Educação!

   Archibald McLeish, poeta americano defensor da Paz, escreveu um dia: “Uma vez que as guerras nascem no espírito dos homens, é no espírito dos homens que se devem erguer as defesas da paz”.

   Acredito, também eu, que é pela Educação do espírito e só por ela que poderemos mudar o mundo...

   É tempo de cuidar do espírito dos nossos filhos! Só assim poderemos efectivamente, mudar comportamentos, ensinar a escolher riscos com Critério e Responsabilidade...Mas que sabe o Estado do que é cuidar do espírito?

   O Estado – qualquer que ele seja! – não pode, nem deve substituir-nos! Nós, as Famílias, não podemos demitir-nos! É a Felicidade, ou talvez mesmo a sobrevivência dos nossos filhos que está em jogo!