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Por Fátima Fonseca

11 de Novembro de 2002



   Atravesso este pinhal maravilhoso, cheio da magia das cores e cheiros de Outono, por entre o chilrear dos passarinhos.

   É Verão de S. Martinho e o mar chama por mim.

   Na manhã fresca de domingo, caminho pelo areal da praia semi-deserta, em busca de uma solução.

   Sinto-me dividida. Que fazer? Calo-me?

   “O meu metro quadrado” não foi pensado para magoar, nem ofender, apenas para ampliar e divulgar alguma coisa boa, mesmo que infinitamente pequena, no meio da imensidade de material que a Comunicação Social diariamente, nos traz. É verdade! Como resolver, então, esta questão?

   Aprendi de pequenina, que “ quem não se sente, não é filho de boa gente”, por isso calada não posso ficar! Decido-me! Vou tentar!

   Para começar, devo confessar que de Arte pouco ou nada percebo, mas em termos gerais, gosto muito de Pintura. Ontem, contudo, ao pegar no Jornal Expresso, logo ali na primeira página, alertada por amigos, senti-me tremendamente dividida entre espanto, tristeza e algum riso...

   Por um lado, não queria acreditar! “Aquilo”, obra de Paula Rego, encomendada propositadamente pelo nosso Presidente da República, pretende representar a Virgem grávida, a Virgem prestes a dar à luz? “Aquilo” destina-se a uma Capela do Palácio de Belém, mesmo que seja “um espaço minúsculo, num local semi-escondido”, mesmo que seja uma Capela onde já ninguém reza e onde se vai apenas como quem vai a um museu? “Aquilo” é um de uma série de sete quadros?

   Estou certa, certíssima, de que outras grandes pintoras portuguesas como Emília Nadal ou Graça Morais, ou porventura outros bem menos conhecidos, como o meu amigo Edgar Silva (sim, o Edgar, aquele que vende os seus quadros para conseguir juntar dinheiro para comprar os aparelhos auditivos e pagar a operação que uma criança surda-muda precisa para poder conhecer e comunicar com o mundo à sua volta!), ou mesmo o Rui Amorim (um simples professor de Educação Visual, homem de grande valor e talento), ou o Francisco Neves (pintor nas horas vagas e excelente pasteleiro no Mucifal!), estou certa, repito, que qualquer deles seria capaz, com o seu talento, a sua sensibilidade e delicadeza, de fazer algo de muito criativo e belo, que não envergonharia o Sr. Presidente da República, nem a Capela do seu Palácio!

   Sei que as obras de Paula Rego são “incontornáveis” – como se diz agora! - e sei também que o seu génio é muito apreciado e aplaudido internacionalmente, sobretudo em Inglaterra, onde tem vivido. Conheço algumas...

   Também a sua técnica é considerada de altíssima qualidade, o que não tenho qualquer competência para julgar. Reduzo-me pois, à minha insignificância...mas, sinceramente, tenho de confessar que, para meu gosto – e creio não ser única! – este quadro é horrendo e execrável... desculpem o meu atrevimento, mas ali, só escapam mesmo, o burro, a vaca e as estrelas!

   Contudo, o que mais me impressiona ainda é que “aquilo”, como aliás acontece com toda a pintura de Paula Rego, pretende contar uma história, mas “essa” história não pode ser certamente, a que todos conhecemos – o episódio fulcral do nascimento de Jesus – que todos os cristãos, de todos os tempos e lugares, conhecem, amam e veneram com um carinho especial. Não pode ser!

   “Esta” história pretende por certo, “desmontar” e destruir, para voltar a recontar os factos bíblicos, – que habitualmente todos respeitam, tenham fé ou não, – segundo uma muito livre interpretação da pintora, talvez para reproduzir algo de tão diferente e desafiador, que nos sintamos interpelados, magoados e agredidos através do seu discurso mudo, mas pictoricamente expressivo.

   Diria mesmo, que este quadro – com outro título – talvez servisse bem uma qualquer campanha pró – aborto, por exemplo, pois não só a parturiente assusta qualquer eventual candidata a engravidar, como o anjo ofende qualquer obstetra ou parteira, dos muitos e bons profissionais que felizmente existem, e que esses sim, quantas vezes são autênticos “anjos – bons” (isso posso eu atestar, como mãe de 7 queridíssimos filhos). Diria mesmo, que para ilustrar o Inferno de Dante, também poderiam servir, tão demoníacas e feias são as expressões de ambos os rostos...

   Desculpem o desabafo e alguma ironia!

   Mas, digam-me, haverá alguma mãe normal, que não ache que os seus filhos são sempre os mais bonitos e os mais queridos? E não é verdade, que com igual raciocínio, todo o filho que se preze e que goste muito da sua mãe – como é normal acontecer – se quer mostrar um retrato dela, mostra o mais bonito que encontra e se calhar, até rasga os que estiverem mais feios, com vergonha de que a achem feia?

   Paula Rego porém, preferiu pintar um Virgem feia, acompanhada de um anjo feio, e isso choca, revolta e entristece! Talvez só consiga ver um mundo povoado de gente feia e isso faz muita pena! Talvez seja uma pessoa cheia de traumas, que precisa de os exorcizar pela pintura! Que pena, repito!

   Mas como é possível transformar uma cena de presépio em pintura de monstros e vê-la gabada e louvada, e ainda por cima paga por todos nós, em tempo de crise, para colocar no Palácio e Capela do mais alto representante da Nação? Será que ninguém vai ter coragem de dizer que “o rei vai nu”? Por favor, digam alguma coisa, não se calem! Se o Sr. Presidente da República me lesse ou ouvisse, eu pedir-lhe-ia licença, com todo o respeito e sem ironia, para de verdade, lhe fazer uma sugestão, antes que seja demasiado tarde!

   Calculo que estes quadros vão custar muito dinheiro, uma verdadeira fortuna, ao erário público. Também sei que os encomendou, há 9 meses atrás, quando ainda ninguém falava do estado calamitoso das nossas finanças. Dado porém, que a todos nos vai ser pedida grande contenção nas despesas e sacrifícios de monta, sugiro que os quadros mudem de título, e depois de pagos (como parece que vai ter de acontecer), sejam leiloados e que o Sr Presidente ofereça o produto a causas nobres mais urgentes...ou à própria Senhora Dr.ª Manuela Ferreira Leite, nossa aflita Ministra das Finanças!

   O povo português que nunca visitou, nem visitará a minúscula capela do Palácio, certamente aprenderia assim, directamente do Sr. Presidente, bons exemplos de poupança mas, e sobretudo, de respeito pelas convicções mais profundas de tantos de nós.