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Por Fátima Fonseca

6 de Novembro de 2002



   As noticias violentas sucedem – se repetidamente, a um ritmo tão alucinante na linha ininterrupta dos nossos dias e noites, que às vezes, me pergunto a mim mesma, se nós, Pais e Educadores, damos conta de como cada vez mais se torna imprescindível criarmos o bom hábito de por momentos, diariamente, fecharmos o televisor, o computador e arrumarmos jornais e revistas para, pura e simplesmente, “ construirmos” a nossa família, conversarmos em família e “filtrarmos” o que vemos!

   Repare bem!

   Escolhemos a comida dos nossos filhos, porque nem tudo é de comprar. Escolhemos o seu médico, se podemos. Escolhemos a escola em que os inscrevemos, se o Estado – Governo (para quando o cheque – educação?) e o estado das nossas finanças familiares o permitirem. Escolhemos os livros que lhes oferecemos. Escolhemos, enquanto podemos, os amigos deles, a quem abrimos as portas das nossas casas.

   Como não escolher então, os programas televisivos que eles vêem? E como não “filtrar”, através do dialogo em família, as noticias que nos irrompem porta adentro?

   Refiro-me hoje, em concreto, à sucessão de vários tipos de violência que há muito preenchem os sempre longos telejornais, mas sobretudo os destas ultimas semanas: foi o atentado na discoteca de Bali, Indonésia, depois os homicidas loucos nos EUA, perto de Washington, mais o horror no teatro de Moscovo, agora a força da Natureza, nas imagens do vulcão e do sismo violentíssimo em Itália...pelo meio, a espiral horrível do constante “ping-pong” terrorista entre israelitas e palestinianos, e tudo isto e muito mais, dia após dia, hora a hora, nos chega de muitas maneiras .

   E às vezes, ponho-me a pensar:

   Mas será que nós, Pais e Educadores, ainda conseguimos descobrir boas noticias para trazer e contar em nossas casas?

   E arranjamos tempo para falar sobre estes temas com os nossos filhos? E como falamos? Ou eles vão vendo desde pequeninos, vão-se habituando, vão observando as nossas reacções e emoções, ou a nossa indiferença, e vão crescendo na tremenda confusão permanente entre real / irreal, verdadeiro / falso, cenas de sexo mais ou menos explícito (impróprio para qualquer idade , quanto mais para crianças )/ notícias de bombas nas ruas, violência familiar/ violência no desporto / violência na política..... E nós, pura e simplesmente, calamo - nos? Não temos nada a dizer? Devoramos tudo: zapping– publicidade– telejornais - debates políticos-publicidade-novelas-publicidade-concursos-publicidade-zapping...? E não dizemos nada? Deixamos que a televisão, jornais, Internet, tudo seja mais importante do que a relação afectiva entre nós e o interesse pelo que afecta os nossos filhos, os nossos pais, a nossa vida conjugal, em suma, a nossa família?

   Ou deixamo-los sós, a seu belo prazer, a navegar na Internet, fazendo amizades, sabe-se lá com quem, visitando sites – sabe-se lá quais, completamente entregues ao desconhecido?

   Já agora, sabia que 1 em cada 5 crianças acede à Internet a partir de casa e 20% dos cibernautas têm entre 2-17 anos e em Julho ultimo navegaram na Internet mais de 9 horas por dia, iniciando pelo menos 16 sessões por dia (segundo um estudo da Nielson/ Netratigs, DN Setembro último) ?

   Pois bem, são exactamente estes alguns dos assuntos que ocupam e preocupam a ACMedia- Associação Portuguesa dos Consumidores dos Media- e a Fiatyr -Federação Ibérica do Audiovisual, Telespectadores e Radiouvintes, e por isso as respectivas direcções se reuniram este fim-de-semana em Lisboa, sem que isso tenha sido notícia na nossa Comunicação Social. Não importa.

   Mas é certamente uma boa notícia, saber que milhares de pessoas como nós, vulgares, desconhecidas, anónimas, pais e mães de família, na sua maioria, cuja opinião raramente é ouvida ou procurada, se preocupam em educar os seus filhos para serem consumidores de Media, responsáveis, isto é, com consciência crítica relativamente ao que vêem, ouvem e lêem.

   Recordando palavras de Milton Chen, há alguns atrás, no seu livro “ The Smart Parents’ Guide to Kids’TV”, baseado nos seus 20 anos de experiência profissional como produtor de televisão e perito em programas infantis, são os pais os grandes ausentes da cena, são os pais quem perdeu quase por completo o controlo da televisão – e agora também, dos vídeos e computadores- nas suas casas. Na verdade, urge ensinar as crianças “a não verem televisão, mas a verem programas de televisão”. “O truque é conseguir que se veja televisão de forma consciente: se a criança ( ou os pais) liga ( ligam) a televisão, que seja porque assim o decidiu (decidiram) e não, só porque não tem( têm) mais nada para fazer. Quanto mais consciente for o uso que a família faz do seu televisor, tantas mais possibilidades tem de lhe dar uma utilização educativa. Se se conseguir ver um programa de modo deliberado, pode ser que isso signifique ver televisão de modo inteligente!”

   Ora pense lá: é assim na sua casa?

   Voltaremos a este tema, combinado?