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Por Fátima Fonseca

26 de Outubro de 2002



   Às vezes somos muito injustos na pressa que temos em pôr "etiquetas" nas pessoas ( como se fossem coisas a catalogar) e no frenesim ilógico com que passamos a correr, indiferentes, pelas pessoas com quem nos cruzamos nas esquinas da vida.

   Às vezes, até nos imaginamos juízes e classificamo-las apressadamente em "boas" ou "más", só pelo que ouvimos dizer ou contar, ou pelo que lemos algures, sem nos preocupar sequer a possibilidade de estarmos a pôr em causa a honra e bom nome a que todos temos direito. É o tal "diz-se que..." tão vulgar quanto mortífero na nossa sociedade portuguesa!

   Vem isto a propósito, da recente morte do famoso crítico de televisão, o tão temido Mário Castrim, bem conhecido pelos seus ideais políticos e pela ironia cáustica das suas crónicas de televisão de há muitos anos.

   Nunca o cheguei a conhecer, nunca o vi sequer, mas confesso, que durante muito tempo tive uma ideia pouco favorável a seu respeito, talvez uma das tais etiquetas apressadas...até que mão amiga me emprestou a revista missionária "Audácia", feita a pensar nas crianças, e mais tarde, o segundo livro "O lugar do televisor", da Editorial Além- Mar, da sua autoria, 2º volume das crónicas do autor naquela revista infantil e juvenil.

   Comoveu-me e interessou-me tanto que o devorei, como aliás aconteceu ,com outros amigos, com quem tenho falado sobre o livro.
   Por isso e porque me identifico com as crónicas ali publicadas, tomo a liberdade de transcrever um excerto do prólogo, da autoria do próprio Mário Castrim, para vos aguçar o apetite! Passo a palavra ao autor: "Em 1993, a Direcção da "Audácia" verificou que fazia falta um televisor na revista - e logo providenciou para que lhe fosse destinado um lugar certo.

   "A mim me foi dado cuidar desse lugar, vistas as íntimas relações que, há longos anos, me ligam à criatura. Aceitei o desafio com o alvoroço dos iniciados. Competia-me trazer aos jovens uma outra imagem da televisão. Competia-me provar a necessidade de manter com a televisão uma convivência que nos fosse proveitosa e para isso, ao longo dos meses (sem falhar um único...), fui dando conta das mil e uma cousas que, através da televisão, me enriqueciam, isto é, me tornavam mais humano.

   (...)Engana-se quem pensar que é vão todo o gesto de lançar sementes à terra, mesmo que o chão seja estéril. Mesmo que nenhuma semente se realize. O gesto, esse, já é, em si mesmo, um compromisso com o futuro.

   Só peço que este livro siga as pisadas do irmão mais velho e que também ele, em cada leitor que encontre, encontre um amigo. Isso me basta."

   Quem escreve assim, pode certamente contar comigo. Falo por mim, Mário! E agora que sinto a minha consciência mais leve , deixo-lhe aqui o meu obrigada! Pena não o ter feito mais cedo, enquanto estava vivo...

   Que o Mário Castrim descanse em paz!