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Por Fátima Fonseca

19 de Outubro de 2002



   Enquanto no nosso país tantos se entretêm, animadamente, a inventar fontes de conflito, a atirar pedras contra tudo e contra todos, e a “caçar” escândalos, diariamente, talvez, quem sabe, só para complicar a governação do nosso pequeno território, “lá fora” o mundo continua a enfrentar permanentes focos de guerra e os temíveis ataques terroristas, loucos, cobardes e devastadores.

   No nosso cantinho porém, felizmente, também acontecem muitas pequenas “ coisas” boas, que tendem a ser silenciadas, voluntaria ou involuntariamente, quer porque quase ninguém as conhece, quer porque a sua aparente pequenez não parece suscitar interesse! E é pena...

   De facto, ao mesmo tempo que decorria esta semana, em Lisboa, na Gulbenkian, mais uma interessantíssima conferência internacional sobre a temática da Globalização, com imensa assistência e conferencistas de grande renome mundial - o que naturalmente foi amplamente divulgado, como é justo, aliás ! – num outro ponto da cidade, mais concretamente no auditório de uma Junta de Freguesia , decorria com grande animação e interesse, um curso sobre “ O papel dos idosos na sociedade dos nossos dias”, com a participação de cerca de 70 pessoas, na sua maioria com idades compreendidas entre os 60 e os 92 anos !

   Dotada de uma liderança forte, generosa e profundamente dinâmica, a acção social da Junta de Freguesia de S. João de Brito e os seus “Briósos” ( Brito + idosos) estão de facto, de parabéns e deveriam ser apontados como exemplo, pela sua juventude de espírito, pela sua vontade de viver e pela sua alegria, tudo isto bem patente nas belas vozes do seu coro, nos magníficos tapetes de Arraiolos, e nas múltiplas actividades, como sejam os trabalhos em cera e sabonete, passeios, aulas de ginástica e Cultura Geral, etc.

   Entre o muito de interessante e importante que ali foi dito e reflectido, gostaria de destacar a referência ao relevante papel de apoio dos avós, com a sua disponibilidade, a sua paciência, os seus mimos, o seu bom-senso e experiência de vida, num tempo em que, infelizmente, os pais parecem ter cada vez menos tempo para os seus filhos, que tanto precisam de atenção enquanto pequenos e mais tarde, quando começam os inevitáveis conflitos dos adolescentes.

   Por outro lado, como também ali foi dito, é revelador e consolador , pegar num qualquer dos jornais desta semana e verificar que os Prémios Nobel de 2002 foram quase todos entregues a gente idosa...vejamos: o Prémio Nobel da Literatura foi para o escritor húngaro Imre Kertesz, de 72 anos, o da Medicina foi para o bem-humorado britânico Sydney Brenner de 75 anos- que esteve esta semana entre nós- e outros dois “jovens” respectivamente de 60 e 55 anos; o da Física foi entregue a três cientistas, dois norte-americanos e um japonês, respectivamente Raymond Davis de 87 anos, Riccardo Giacconi de 71 e Masatoshi Koshiba de 76 anos...e poderíamos continuar com a bonita idade de 85 anos de John Frenn, prémio Nobel da Química...o próprio Jimmy Carter, ex- Presidente dos EUA, prémio Nobel da Paz, pertence a esta elite de idosos, que tanto têm dado ao mundo precisamente, quando tanta gente da mesma idade, ou até mais novos, é posta de parte e vive apática, só, triste e abandonada, passando os seus dias num lar, num banco de jardim, ou atrás dos vidros de uma janela...

   Recordo a nossa própria Agustina Bessa – Luís, a ilustre amarantina que acaba de fazer 80 anos e veio até Almada, assistir ao lançamento da sua fotobiografia... Velhos?! Quanto temos de aprender com eles...