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Por Fátima Fonseca

10 de Setembro de 2002



   Os “shoppings” proliferam à nossa volta para mal dos nossos pecados, dos nossos bolsos e sobretudo, das nossas mentalidades cada vez mais consumistas!

   Mesmo correndo o risco de me estar a repetir de algum modo, volto ao tema porque esta é uma questão que, directa ou indirectamente, a todos nos afecta!

   Os jornais anunciam :” Mais uma catedral de consumo para a Grande Lisboa. O centro comercial de Loures abre dia 12.”

   Um destes dias, gostava mesmo de falar destas inovações linguísticas: catedral de consumo, clínica de tennis, atelier de cabelos, fábrica de cheiros, hotel de cães...e de outras mais subtis, como por ex. “ a namorada do meu pai, o namorado da minha mãe”...

   Hoje porém, fico-me por uma chamada de atenção para alguns dos excelentes artigos do último “Expresso”. Em particular, gostaria de vos remeter para dois: o editorial do Director sobre “ As novas gerações e o ambiente” e “O triunfo da morte” de Duarte Lima.

   Vale a pena ler, reler e meditar!

   De facto, a “tremenda voragem consumista, a total dependência em relação à moda, a avidez de objectos e permeabilidade à propaganda” – que como o jornalista refere, caracterizam a nossa sociedade – incentivam os jovens ( e não só!) a crerem e viverem na tal “ilusão de que a felicidade se conquista através da posse de cada vez mais bens materiais”. Está tudo dito e em poucas palavras!

   O artigo de Duarte Lima, por seu turno, embora tratando tema diferente, complementa-o no tom pessimista e sobretudo, na forma como nos interpela sobre o sentido deste “progresso” de que tão insensatamente nos orgulhamos e que nos fascina e embrutece, incapazes que somos de fazer a paz e de viver mais fraternalmente num mundo em permanente violência e sobressalto!

   São artigos profundamente lúcidos e interpelativos, cada um a seu modo.

   Como mulher de esperança que sou, sinto-me agradecida quando um jornalista sério e consciente do seu papel não só de informar com verdade, assume também a responsabilidade de nos alertar e nos questionar. Precisamos de facto, que alguém nos ajude a perguntar: - Mas afinal, para onde caminhamos nós tão vertiginosamente, nesta voragem contínua e irresponsável do come- bebe- dorme- goza e gasta- sem parar, sem pensar, sem querer enfrentar trabalhos, canseiras, responsabilidades, esforços, compromissos ou dificuldades de qualquer tipo ?

   É como se para muitos de nós a vida se resumisse a ser espectador acrítico e apático, ou pelo contrário, muito interessado, do exibicionismo e superficialidade dos efémeros astros das eternas intrigas futebolísticas ,das verborreias políticas, dos concursos brejeiros e degradantes e das novelas patetas e intermináveis.

   É como se, destinados a crescermos, a sermos árvores frondosas e com fruto abundante, preferíssemos ser arbustos rasteiros, secos e estéreis...

   Sou mulher de esperança, repito, mas estou certa de que neste mundo cheio de paradoxos e ameaças em que vivemos – e recordo que amanhã passará o 1º aniversário do terrível ataque às torres de Nova Iorque e ao Pentágono, que pôs de luto não só americanos, como todo o mundo ocidental! – também para nós portugueses, não haverá Cimeiras nem subsídios que nos valham, nem reformas curriculares que nos transformem, se não arrepiarmos caminho já , se não mudarmos hábitos e atitudes, se não reconhecermos os nossos erros e os corrigirmos, e se não educarmos melhor as nossas crianças e jovens...(e não se trata só de obter melhores notas a Português e Matemática, para não sermos a vergonha da Europa...).

   Com efeito, é bom e é importante que nos preocupemos com o planeta, com a poluição, com a seca e a fome, a erradicação da pobreza, da doença, do analfabetismo, das injustiças sociais e fundamentalismos, mas não deixemos tudo para os outros - os grandes, os governos, os empresários, os “lobbies”, as igrejas e os voluntários - porque cada um tem de fazer alguma coisa urgentemente, no seu metro quadrado...

   Por mim proporia que começássemos desde já, por exemplo, por limpar o lixo que nos cega e anestesia o espírito diariamente, dando mais atenção ao tempo que desperdiçamos com a televisão e as compras... e optando antes, nesta “rentrée” por uma reorganização radical do nosso tempo de lazer em família, do nosso tempo de leitura e revisão de gastos!