Ano VI– Nº 2 Julho de 2013


NOTÍCIAS

Assembleia Geral da ACMedia

Realizou-se no dia 15 de Junho, em Coimbra, a 26ª Assembleia Geral da ACMedia. Como habitualmente, fomos muito bem recebidos pelo núcleo de Coimbra. Embora a acta desta A. G. ainda não tenha sido redigida, dos apontamentos recolhidos podem ser avançadas algumas conclusões.
1. A actividade da ACMedia diminuiu bastante durante o ano de 2012, relativamente ao ano anterior, em resultado de algumas contingências por que passou a direcção (demissão de um vogal e doença de outro).

2. Foi aceite a proposta de substituição na direcção da Sra. Dra. Maria da Glória Côrte-Real, por motivos de saúde, pelo Sr. Dr. Duarte Nuno Prazeres.

3. Reconheceu-se que era vantajoso atrair os sócios mais novos para ajudarem a direcção a desenvolver o seu programa de actividades.

4. Foi proposta uma revisão do In forma, de modo a torna-lo mais noticioso, a fim de informar mais e melhor os nossos associados sobre o trabalho desenvolvido pele direcção e sobre o que se passa com os meios de comunicação social.

5. Mais uma vez foi reconhecida a necessidade em manter actualizado o site da ACMedia, tendo-se comprometido o núcleo de Coimbra a enviar textos que tenham interesse em ser divulgados.


Convites dirigidos à ACMedia

- A Escola Secundária de Oliveira de Frades convidou a ACMedia a realizar uma palestra para alunos do 10º ano sobre “A violência na TV”. Devido à realização de exames esta palestra teve de ser adiada, a pedido da Escola, para o próximo ano lectivo.

- O GMCS - Gabinete para os Meios da Comunicação Social, convidou a ACMedia a participar na apreciação do Livro Verde sobre a Convergência total do Mundo Audiovisual, documento produzido pela Comissão Europeia, cujo objectivo é conseguir uma fusão progressiva dos serviços tradicionais de difusão audiovisual e da internet. Uma das vantagens desta fusão, resulta numa maior acessibilidade dos utilizadores da Internet aos programas de televisão, podendo mesmo em certos casos haver uma intervenção directa nesses programas por parte dos telespectadores.



TEMA DE DISCUSSÃO


Na sequência de duas fotografias que circularam na net sob o título “A informação que temos”, a primeira de 2010 sobre a visita apostólica de Bento XVI – Missa celebrada no Terreiro do Paço - completamente cheio, onde se dizia estarem presentes 80 a 100 mil pessoas, a segunda de 2013 sobre a manifestação “Que se lixe a Troika”, às 19.00 (hora a que se cantou o Grândola) – no mesmo local e com clareiras enormes onde se afirmava estarem presentes 500 mil pessoas, a ACMedia resolveu lançar a discussão do tema “A informação em tempo de crise”, procurando alertar os consumidores de Media para a necessidade de serem mais críticos e intervenientes sobre os programas em geral que a TV disponibiliza e em particular sobre a Informação.

A partir de 2013, com o acentuar da crise económica e social no nosso país, a generalização da desconfiança e o desejo de protagonismo dos intervenientes na nossa informação televisiva (talvez em luta pelas audiências) deu origem a comportamentos ética e profissionalmente menos correctos, denunciados e criticados por vários jornalistas em artigos de jornal. Destes seleccionámos três, a saber:

1. A construção das manifestações pela TV, de Eduardo Cintra Torres

2. Ah, ah, ah, tão engraçado, de João Miguel Tavares

3. Serei só eu quem já não suporta o desfile dos políticos-comentadores pelas nossas TV?, de José Manuel Fernandes

Para enquadrarmos os artigos ou transcrições de parte deles que a seguir são apresentados, lembramos o artigo 14º da Lei nº 64/2007 de 6 de Novembro (Estatuto do Jornalista)

Artigo 14.º
[…]

1 — Constitui dever fundamental dos jornalistas exercer a respectiva actividade com respeito pela ética profissional, competindo-lhes, designadamente:

a) Informar com rigor e isenção, rejeitando o sensacionalismo e demarcando claramente os factos da opinião;


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1. A construção das manifestações pela TV
Por Eduardo Cintra Torres
domingo, 03.03.13 – CORREIO DA MANHÃ

Este artigo, escrito a propósito da manifestação nacional contra a austeridade, ocorrida no dia 02.03.2013, aponta a dimensão mediática que têm actualmente as manifestações e como pode ser manipulada a informação sobre elas.

Diz o autor «…;há agora neste tipo de eventos uma enorme simbiose entre o espaço público e os ecrãs, o “ecrã público”, fenómeno do nosso tempo.»

Faz notar a amplificação dada pela TV às manifestações, antes mesmo de ocorrerem: «A enorme “cobertura” anterior ao evento é politicamente significativa: implica um enviesamento jornalístico favorável, porque uma manif é um evento efémero e só pode completar o seu significado quando se realiza. Quando as TV mostram imagens de uma enorme manif anterior, para ilustrar a que ainda não se realizou, estão a mentir e a fazer propaganda favorável ao que não sabem que acontecerá. Quando dizem que “se espera muita gente”, a voz passiva nesse espera-se é um instrumento para esconder o próprio desejo dos jornalistas, omitindo as fontes…. Quando a SIC diz que “os portugueses” se manifestaram, está a mentir porque mesmo um milhão não seríamos todos. O tempo dedicado ao efémero das manifestações, antes e durante, é um modo de encher e animar o ecrã, de criar excitação, de incentivar e apoiar.»

Aliás o autor diz, a propósito do comportamento de alguns repórteres televisivos – “…parecendo quase todos os repórteres membros da multidão e não mensageiros independentes.”

 

2. Ah, ah, ah, tão engraçado
Por João Miguel Tavares
3ª feira, 21.05.13 – PÚBLICO

Neste caso, o autor denuncia a superficialidade da nossa Informação, dando destaque ao acidental e esquecendo o essencial. A informação mal dada não contribui para a construção da democracia. Escreve o autor:

«No passado dia 15, Vítor Gaspar atreveu-se a ir apresentar publicamente um livro de economia e foi alvo de uma saraivada de gargalhadas por parte do movimento Que Se Lixe a Troika.»

Embora reconheça a originalidade e eficácia do protesto J.M.Tavares admira-se que: «…todas as notícias do acontecimento que chegaram de imediato às páginas online dos jornais centravam-se, em rigoroso exclusivo, nas gargalhadas e no embaraço do ministro – nenhuma delas referia o conteúdo da sua intervenção. …A questão não está em ignorar o protesto, que foi original e deve ser noticiado. A questão está em ter ignorado praticamente tudo o que não fosse o protesto, quando estamos diante de uma obra fundamental que é lançada pela primeira vez em português e que contêm um olhar abençoado pelo ministro das Finanças sobre a situação em que nos encontramos. Ainda que seja para discordarmos dele, esse olhar deve ser discutido. Ora, nada disso se passou e tudo foi silenciado por meia dúzia de gargalhadas, o que coloca obviamente questões sérias sobre a capacidade da nossa democracia em trazer mais do que fait-divers para o espaço público….olhamos para um Telejornal e o tratamento dos assuntos políticos e económicos limita-se a pouco mais de protestos … e de pequena intriga. Essa infantilização do debate público é uma tragédia.»

 

3. Serei só eu quem já não suporta o desfile dos políticos-comentadores pelas nossas TV?
Por José Manuel Fernandes
6ª feira, 24.05.13 – PÚBLICO

O autor faz neste artigo, uma análise do formato e conteúdo dos programas de comentário político e dos inconvenientes que daí resultam para o debate público e esclarecimento do grande público.

Começamos por ficar informados sobre o número de horas de comentário político nas televisões portuguesas, de acordo com um levantamento feito pelo jornal Público – respectivamente 69 horas semanais e dez horas diárias e que dois terços dos comentadores com presença semanal, segundo o mesmo levantamento, são ou foram políticos.

E J.M.Fernandes continua:

«…na maior parte dos programas não só não se aprende nada como, em certo sentido, se desaprende. Mais: com tal avalanche de políticos a ocupar os horários nobre das televisões é o próprio debate público e o esclarecimento dos cidadãos que saem prejudicados.»

E o autor explica porquê:

«A maioria esmagadora destes programas…é apenas aquilo que pretende ser: uma repetição de argumentos partidários destilados em formato de circo, quando se imita o Parlamento, ou em variação de espectáculo a solo…..Um comentador-político torna-se notado não pela profundidade de uma reflexão mas pela acutilância de um soundbite. ….Esta nova modalidade da ditadura dos partidos não é apenas um atentado ao jornalismo – é também, infelizmente, um retrato do jornalismo que temos. É mais fácil, mais cómodo, andarmos todos atrás de citações sonantes de políticos…. do que procurarmos vozes originais, perspectivas diferentes, outros olhares, outras interpretações.

E o autor conclui:

«O que se passa, é bom dizê-lo com clareza, não é culpa de muitos destes comentadores. É sobretudo culpa de todos os jornalistas que abdicam de o ser, que vivem na ilusão das audiências (quando estão a destruí-las) e que se alimentam do mesmo tipo de intriga e do mesmo catálogo de certezas que a corte partidocrática. …»

 



Como conclusão, podemos afirmar que nos cabe a nós, consumidores de Media, contribuir com as nossas observações, críticas e sugestões para tornar melhor a Informação que temos.

Estaremos dispostos a aceitar este desafio?

Caro associado, a sua opinião sobre os meios de comunicação social em geral e sobre a informação que temos, em particular, será sempre muito bem-vinda e certamente contribuirá para uma maior cidadania mediática

 

A ACMedia obteve a autorização dos autores dos 3 artigos para a respectiva transcrição neste In forma.

O acentuado a negro nos textos dos autores é de nossa iniciativa.

 


NOTA: Pedimos a todos os associados que ainda não pagaram as quotas de 2013 para o fazerem logo que possível.

ACMedia – Associação Portuguesa de Consumidores dos Media
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