UMA REDE DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ
Correio da AESE - "Documentação", 1-11-2007



A Internet tem um grau de instantaneidade que serve para coordenar rápida e eficazmente grandes grupos de pessoas. E para criar e fortalecer grupos de pressão (lobbies) que sirvam para fazer chegar as inquietações da cidadania à classe política e empresarial. O mais claro exemplo disso é o MoveOn (www.moveon.org), um sítio web dos Estados Unidos de ideologia progressista nascido em 1998, por iniciativa de dois empresários de Silicon Valley. O seu trabalho inicial consistiu em fazer campanhas para enviar correios electrónicos assinados por cidadãos aos congressistas norte-americanos. Actualmente continuam a fazer esse tipo de campanhas, ao mesmo tempo que canalizam pequenos donativos financeiros para os candidatos democratas, lançam anúncios publicitários para apoiar as suas campanhas ou organizam manifestações.

«Um inquebrantável compromisso com os valores conservadores, pró-família e de promoção da fé (profaith) é o que defende o Grassfire (www.grassfire.org). Entre as suas campanhas mais recentes, contam-se a de protesto contra o projecto de lei de imigração norte-americano recentemente travado pelo Senado, ou a procura de uma protecção mais segura para a infância em face do porno on-line. É o alter ego do MoveOn no lado republicano. A Christian Coalition (www.cc.org), nascida antes da Internet, também aproveita o seu poder para mobilizar e coordenar os seus milhares de membros, o núcleo da chamada direita religiosa nos EUA.

Em Espanha, a plataforma cidadã HazteOir.org (HO) (www.hazteoir.org) é o único lugar na Rede que oferece algo semelhante e que tenha conseguido uma influência efectiva. Portal nascido em 2001, foi o canal pelo qual milhares de cidadãos fizeram chegar o seu apoio e as suas queixas a partidos políticos, administrações públicas, indivíduos ou empresas. Além disso, participou activamente em mobilizações como as que tiveram lugar aquando da lei sobre o casamento das pessoas do mesmo sexo ou sobre a LOE.

O seu sucesso, para Ignacio Arsuaga, Presidente da plataforma, baseia-se «no entusiasmo de um grupo pequeno de cidadãos» e «em ter sabido estabelecer uma ligação com um sector da sociedade, oferecendo um canal para a sua participação na vida pública».

 

Activismo electrónico global

 

Embora Arsuaga afirme que «não acredita que a HO tenha perdido influência» e refira como prova que, recentemente, foi convidado para Estrasburgo pelo Conselho da Europa para falar da plataforma «como exemplo único de participação cidadã através da Internet», reconhece que «o movimento pró-               -família sofreu uma perda de capacidade de mobilização, provavelmente devido à polarização do debate político, no último ano e meio, em torno da luta contra o terrorismo e o desmembramento de Espanha», no qual a HazteOir se tem envolvido.

A verdade é que, segundo o medidor Alexa (www.alexa.com), o número de visitas à HazteOir.org desceu quase constantemente desde há um ano. E os seus impactes nos meios de comunicação tradicionais são menores agora.

Outras iniciativas deste tipo, pelo mundo fora, são a TheyWorkForYou (www.theyworkforyou.com) na Grã-Bretanha, ou a GetUp (www.getup.org.au) na Austrália, que tem mais membros do que militantes em quaisquer dos partidos do seu país. Esta última organização criou juntamente com a MoveOn, a plataforma Res Publica (www.therespublica.org) e o apoio da Intermón-Oxfam, um sítio de alcance global que espera converter-se no referente mundial do activismo electrónico. A iniciativa chama-se Avaaz (www.avaaz.org) .

O director executivo da Avaaz é Ricken Patel, um dos fundadores da Res Publica - que dá voz à esquerda religiosa - e da Faith In Public Life (www.faithinpubliclife.org). Patel explica-nos que, desde o seu nascimento, em Janeiro de 2007, a Avaaz conseguiu mais de um milhão de membros, cuja participação em cada campanha é opcional. Dependendo de cada campanha, contaram com um total de assinaturas «de 40.000 a 350.000». Até agora, o seu maior impacte é que «nos actos preliminares do G-8, o Ministro do Ambiente alemão apresentou repetidamente aos seus colegas a nossa petição» para lutar contra a mudança climática.

A The Economist (17-2-2007) escreveu que, «na medida em que o movimento de e-manifestantes se venha a ampliar, a sua eficácia tornar-se-á certamente menos profunda. Ao fim e ao cabo, toda a gente concorda que os governos têm de fazer mais sobre a mudança climática mas, quando se trata de escolher entre respostas concretas, pode ser que seja mais difícil ensinar o mundo a fazer clique em perfeita harmonia».

Mas Patel diz que os membros da Avaaz «querem resultados», pelo que «o nosso principal esforço é canalizado no sentido de influenciar as de­ci­sões dos governos e empresas a fazer o que é cor­recto em ambiente, direitos humanos, pobreza, guer­ra e justiça social». Sobre se a Avaaz é uma organiza­ção de esquerda, Patel pensa que «direita e esquerda são categorias que, muitas vezes, fazem mais sentido no plano nacional do que no internacional».

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Nota da ACMedia - Em Portugal não se conhecem iniciativas semelhantes. A intervenção política dos cidadãos fica-se pela utilização de “blogues” individuais, cuja utilidade é, normalmente, proporcional ao mediatismo dos seus autores.