Fórum internacional sobre meios de comunicação social e infância

Estarão as crianças inertes ante os media?

 

Intervenção de Nuno von Amann de Campos

Presidente da ACMedia

em Santiago de Compostela a convite da Xunta de Galícia

 

Vivemos uma época em que não é muito habitual encontrar um ambiente familiar estável, onde se preservem os valores e se  garanta aos mais jovens um crescimento harmonioso e equilibrado.

Essa circunstância implica uma cautela acrescida por parte dos pais e dos educadores para que actuem com bom senso e determinação de modo a atenuar os malefícios que, um pouco por todo o lado, expressam já o resultado de uma Europa que cresce sem atender a referências morais.

Estamos perante uma profunda alteração no ambiente familiar; um desafio ocasionado pela evolução dos próprios mercados; um déficit de ética nas ciências da comunicação.

A preservação dos critérios tradicionais da Família é posta em causa; a concentração dos meios de comunicação social em  poucos grupos económicos inquieta quantos se preocupam pela salvaguarda dos direitos humanos e pela liberdade de informação; a

ânsia do espectáculo e do escândalo em detrimento do rigor, da objectividade e do respeito, assombra o desempenho dos media.

A conjugação desses factores evidencia a necessidade de existir uma sociedade civil atenta e interventora para que à postura inerte dos jovens face aos conteúdos, ou pela adesão desenfreada à tecnologia digital, se não acrescente a passividade dramática dos pais.

 

Assumidos que sejam esses pressupostos e tendo presente a Carta

dos Direitos e Responsabilidades dos Pais na Europa, centramo-nos no segmento específico da infância, por ser o mais indefeso, em contudo esquecer que existem outros públicos igualmente vulneráveis.

 

Daí resulta o primeiro apelo da ACMedia dirigido a todos aqueles que, pela idade ou por insuficiente preparação, desconhecem como agir num mundo de linguagens, de símbolos e de posturas que as novas tecnologias transportam e que os jovens adoptam com uma facilidade e um entusiasmo verdadeiramente notáveis, em contraste

com o pavor evidenciado pêlos mais velhos, que o disfarçam sob as mais variadas das formas.

Por isso, aos que teimam em permanecer alheios à riqueza das novas tecnologias, podem crer que estão a contribuir para um possível risco que resulta do mau uso que delas possam fazer os jovens, quando não devidamente assistidos por quem lhes pode e deve garantir a orientação e o critério.

Existe um fosso, que alguém já designou de ciberfractura geracional, e que tende a agravar-se quando os pais, ou os avós, não entendem essa nova linguagem nem se importam por tentar perceber o que passa pela cabeça, nem quais os anseios próprios  da juventude.

É importante que os mais velhos perseverem no esforço que terão de fazer para evitar esse afastamento e muito em especial incutir hábitos de disciplina nas crianças e nos jovens sabendo-se que a capacidade crítica e o factor tempo despendido são dois dos principais componentes para o uso correcto dessas aparelhagens.

Como é na família que se encontra o espaço privilegiado de realização da pessoa, de transmissão de valores e de interinfluências e que é nela também que reside o reforço da solidariedade entre gerações, aí encontramos o principal antídoto para o que muitos apelidam já de "veneno dos tempos modernos".

Nada mais importante do que integrar os meios de comunicação social no convívio familiar com o objectivo de permitir que as crianças e os jovens obtenham uma visão realista dos acontecimentos e se formem atempadamente para resistir com consciência ao mundo virtual que a televisão lhes proporciona, à curiosidade da Internet, ou à dependência dos telemóveis e dos videojogos.

Idênticas intenções ficaram bem expressas na Cimeira Mundial do  Rio de Janeiro, que reuniu este ano milhares de congressistas e onde foi realçada a necessidade dos media desenvolverem também uma função educativa e atenderem a princípios éticos.

No entanto e apesar dessas e de outras manifestações de interesse e de inquietação da sociedade civil é ainda pouca a atenção que se presta na Europa e no mundo ao espaço destinado às crianças e aos jovens no panorama do audiovisual.

Por esse motivo a ACMedia questiona o critério e o modo como os vários agentes envolvidos nesta problemática se propõem concretizar as boas intenções várias vezes anunciadas.

Como exemplo, ponderemos sobre algumas das realidades mais conhecidas e também sobre as atitudes preventivas que cada um de nós tem vindo a assumir:

Que alternativas são criadas pela família para diminuir o tempo excessivo que é gasto frente ao televisor ou na utilização do computador?

Que precauções são tomadas para que o acesso à Internet não seja deixado ao livre arbítrio dos jovens, nem em locais pouco vigiados e quais os equipamentos de protecção utilizados?

E quanto à selecção dos videojogos? 

Sendo o sexo e a violência as imagens que mais frequentemente são visionadas por crianças e por jovens desacompanhados, como evitar ou atenuar os efeitos desses conteúdos, nomeadamente quanto à insensibilidade que o uso

continuado ocasiona?

E como reverter o efeito que a fidelização à TV tem na visão distorcida da realidade? E no grau de transgressão às regras de conduta? E na indução do comportamento violento?

Como alterar as mudanças de hábitos que revelam ter sido mudado para a noite o período em que as crianças mais vêm televisão, acompanhando os adultos em programas que não lhes são destinados?

 

Que fazer depois de conhecer os resultados do primeiro estudo de longo prazo (os mesmos pacientes sujeitos a observação durante oito anos) recentemente publicado nos "Archives of Pediactrich and Adolescent Medicine" sobre os efeitos que um consumo excessivo de televisão tem nas perturbações do sono?

Será que tomamos as medidas aconselháveis depois de  saber que as radiações provocadas pêlos aparelhos de TV aceleram o desenvolvimento da puberdade?

Sabíamos do perigo que resulta para as crianças, até dois anos de idade, quando as deixamos fixar os olhos nas imagens aceleradas do écran da televisão, por longos  períodos consecutivos? Temos conhecimento de que essa prática é utilizada como um meio expedito para as manter caladas?

Permanecemos impávidos ao saber que os estudos revelam um aumento de obesidade nos jovens como causa directa do tempo excessivo perante o televisor? Portugal ocupa o 2° lugar no ranking dos países europeus cujas crianças apresentam excesso de peso e obesidade.

Por que se não respeitam os horários destinados a programação infantil e se projectam nos intervalos, como publicidade, imagens aberrantes?

Que impede os órgãos reguladores do audiovisual de agirem com eficácia no cumprimento das suas  estritas obrigações?

 

A ACMedia como associação de defesa dos consumidores dos Media e coordenadora da plataforma internacional das associações do audiovisual, continua a assumir uma posição interventora e de crítica construtiva em vários instâncias.

Como consequência de uma análise sistematizada sobre a panorâmica do audiovisual e as suas principais incidências, que é feita por esta associação desde finais dos anos 80, destacamos  dois dos projectos em curso:

 

1. O Projecto Pedagógico Educar para os Media destina-se a todos os graus de ensino e tem os seguintes objectivos:

Incutir nas crianças e nos jovens uma atitude responsável e crítica relativamente aos meios de comunicação social, ao mesmo tempo que sensibiliza os Pais, os Educadores e  demais técnicos de ensino, para um desempenho concertado  com tais propósitos.

Incentivar o interesse pela aprendizagem das novas tecnologias e delas fazer um uso adequado.

Promover a necessidade de um acompanhamento familiar afectivo e estável para a obtenção de um desenvolvimento emocional equilibrado.

Atender à educação dos afectos e do gosto. Alertar os Pais ausentes para os perigos dessa atitude e evitar a solidão das crianças por tempos prolongados.

Desenvolver o Fórum Internacional das Universidades como suporte da investigação científica e do intercâmbio de iniciativas com o objectivo de aumentar o grau de preparação ética e tecnológica dos futuros profissionais da comunicação social.

2. O Projecto QUERO INTERVIR é um imperativo de consciência, uma interpelação à capacidade interventora dos usuários dos meios de comunicação social. É também uma interpelação para que cada pessoa assuma as suas próprias responsabilidades.

Consiste fundamentalmente na análise dos conteúdos de  programas e na transmissão dos pareceres que os consumidores entendam fazer ao órgão de comunicação visado.

Tem como objectivos:

 

Sensibilizar a sociedade civil para que intervenha com atitudes concretas e actue com sentido crítico e exercite a prática da cidadania sempre que se verifique existirem motivos para agir em relação aos meios de comunicação social.

 

Promover acções cívicas que visem a melhoria dos serviços prestados pêlos media, quer no que concerne ao rigor que deverá existir nos noticiários, quer na observância do que a lei determina quanto aos parâmetros   de   qualidade   dos   conteúdos, ao cumprimento do correcto exercício da publicidade e ao respeito pelo horário do menor.

 

Aproveitar as novas tecnologias e preparar um livro de reclamações electrónico de modo a simplificar o método de comunicação, usando o sistema interactivo por via do site www.acmedia.pt, entre o público consumidor, os media, os órgãos de regulação e os respectivos membros da tutela governamental.

 

Em conclusão destas preocupações partilhadas convosco, voltamos a realçar o aspecto benéfico que podem ter os meios de comunicação social conforme o atestam vários estudos científicos e como se reconhece, por exemplo, no Manifesto de Sevilha contra a violência, adoptado pela UNESCO.

No entanto só será assim se for feito um uso adequado dos media e se os pais inculcarem nos filhos o sentido de liberdade e de responsabilidade e, com o exemplo, agirem como principais educadores que são.

 

Lisboa, 17 de Novembro de 2004

Nuno von Amann de Campos

Presidente ACMedia