Entrevista ao professor Gabriel Galdón, catedrático de Jornalismo, sobre a Comunicação em Bento XVI



Por Marta Lago

 

 

MADRID, quinta-feira, 28 de Agosto de 2008 (ZENIT.org).- Da Austrália à França: a pausa entre estas duas viagens apostólicas internacionais dá ocasião para reflectir sobre a eficácia comunicativa de Bento XVI e a responsabilidade do jornalista a esse respeito.

 

Por isso, Zenit entrevistou o professor Gabriel Galdón, catedrático de Jornalismo da Universidade CEU - São Paulo; além de ministrar Ética da Informação na mesma sede universitária de Madrid (Espanha), dirige o Observatório para o Estudo da Informação Religiosa (OEIR) e o Mestrado em Comunicação e Informação Social e Religiosa. É autor de mais de 80 publicações científicas, entre elas o volume «Desinformação. Método, aspectos e soluções» (EUNSA, www.eunsa.es), também traduzido ao italiano e português.

 

–De onde considera que reside a força da comunicação de Bento XVI?

–Prof. Galdón: Bento XVI tem, mais que uma habilidade, um dom de comunicação, diferente de João Paulo II, mas de uma eficácia enorme, porque a mensagem que dá sempre representa o núcleo de toda boa informação: a síntese significativa de um saber ao serviço da sociedade. O Papa, em sua comunicação, encarna tal síntese.

 

Às vezes, entende-se a informação como algo espectacular, como algo que chame a atenção ou determinados gestos; esquece-se  que o principal é a mensagem, concreta, clara, precisa, que contenha uma sabedoria e uma unidade para os cidadãos que vão recebê-la.

 

Nos discursos do Santo Padre, insisto, sempre se encontra essa síntese significativa de um saber ao serviço da sociedade, sempre pensando no bem das pessoas, de toda a humanidade, considerando também os destinatários não só universais, mas concretos e em cada circunstância. Seus discursos trazem uma clareza especial, a fim de que todo o mundo possa entender a mensagem transmitida.

 

–Para afirmar a eficácia da comunicação de Bento XVI será necessário comprovar também como se recebe a mensagem, se ela chega na íntegra e se os meios de comunicação servem para isso...

–Prof. Galdón: Aí está o problema: a intermediação de uma parte da imprensa que realiza sua função de um modo não ético --isto é, sem praticar a "info-ética", da qual falou o próprio Bento XVI--. Isso gera confusão e trivialização da mensagem papal em geral, coisa que se constata infelizmente nos meios mais vistos; assim ocorreu com algumas televisões e jornais, por exemplo, na Espanha, com respeito à Jornada Mundial da Juventude de Sydney.

 

–Como e onde sugere levar à prática a «info-ética» que o Papa pediu com ocasião da última Jornada Mundial das Comunicações Sociais?

–Prof. Galdón: Como existe uma ciência nova, a bioética, que foi impulsionada também pelo pensamento católico, é necessário agora que se configure um novo paradigma informativo humanista-cristã o que gire em torno da ética. E a ética na informação é a parte essencial, é sua natureza.

 

O jornalismo é um saber prudente, e como tal evidentemente tem uma constituição ética porque tem como fundamento a verdade que se precisa para ser mais livre, a verdade da qual falava Joseph Ratzinger --antes de ser eleito Papa--. A missão do jornalismo é proclamar a verdade que é boa, a verdade que serve para um bem da sociedade, e não todo fato cuja utilidade é nula.

 

Um dos problemas do paradigma objectivista do jornalismo é que há milhões de fatos --publicados diariamente como notícias-- que não servem para nada, são efémeros, vazios e fagocitam o que realmente é essencial. O escritor francês Jean Guitton intitulou um livro seu de «Silêncio sobre o essencial». Muitas vezes no panorama informativo há um silêncio sobre o essencial e um ruído clamoroso sobre o acidental e o efémero.

 

A «info-ética» em primeiro lugar pede para que se fale do que as pessoas realmente precisam saber para ser mais livres e lutar por sua dignidade; é uma selecção informativa diferente, mas abarca uma mudança radical: a partir a «agenda setting» até o destinatário. É urgente formar o sentido crítico perante os meios de comunicação. Assim, a «info-ética» engloba todo o processo: desde a fonte da informação até sua recepção, e traça um horizonte revolucionário, no melhor sentido, para os pesquisadores católicos e as faculdades universitárias com respeito a tudo o que forma o mundo informativo.

 

–Poderão surgir objecções se se identifica a prática da ética do jornalismo com confessionalidade, ou se se tacha a mencionada selecção informativa como «censura»...

–Prof. Galdón: A selecção da qual falei identifica-se com prudência e retórica, ou seja, toda a pessoa tem de eleger os melhores meios para cumprir os melhores fins. Evidentemente um jornal ou uma televisão não emite tudo o que ocorreu no mundo; tem que haver sempre selecção. Esta pode-se realizar por parâmetros de moda, de satisfazer a determinada audiência, de interesse económico, de serviço ao poder, desde um paradigma capitalista - consumista, desde um paradigma objectivista, sensacionalista... Também se pode realizar seguindo o critério de buscar qual é a verdade boa, qual precisam saber os cidadãos para serem mais livres e terem mais dignidade: pode-se optar por uma selecção a partir de um paradigma humanista-cristã o, que é muito melhor e é do que precisam agora os meios de comunicação, na minha opinião.

 

–Que lugar ocupa esta nova ciência da «info-ética» no OEIR e no Mestrado que este promove?

–Prof. Galdón: Em seu núcleo. O objectivo do Mestrado em Comunicação e Informação Social e Religiosa, que inicia sua actividade no próximo mês de Outubro, é a formação de jornalistas especializados no âmbito da informação sócio-religiosa para levar a cabo precisamente um jornalismo a serviço da dignidade das pessoas, a serviço da verdade, do bem e da beleza, e não a serviço dos poderes dominantes.

 

–Para o que não é necessário ser crente, mas ao menos honesto...

–Prof. Galdón: A primeira condição de todo jornalista é a honestidade intelectual e moral, a honradez. A honradez intelectual busca a verdade, e ao final, a encontra: me refiro a Cristo. Como docente, conheci estudantes que seguiam critérios mais hedonistas e consumistas; contudo, através de seu interesse pela verdade, por conhecer as coisas e documentar-se adequadamente, em síntese, por sua honestidade, de algum modo encontraram em Cristo a verdade. Já com o critério de honestidade intelectual é possível fazer bom jornalismo, mas a fé dá uma luz, e a união íntima entre fé e razão permite aprofundar no bom jornalismo, o que sempre busca o bem do homem.

 

[Mais informação sobre o «Mestrado em Comunicação e Informação Social e Religiosa» em www.ceu.es/usp]