UMA QUESTÃO MORAL

 

 Dr. Hugo de Azevedo

 

A explicação simplificada da crise financeira actual que nos dão os especialistas levam-nos a concluir que, sem julgarmos intenções, houve algo objectivamente desonesto no longo processo que a levou a eclodir. Podemos e, em geral devemos, partir do princípio de que as intenções dos intervenientes eram boas: criar riqueza. Quem negará que o aumento de bens e de recursos, sobretudo se bem distribuídos, não tem mérito? Para isso mesmo se monta qualquer empresa. Houve, porém, graves descuidos na avaliação dos riscos e do real valor dos «produtos» negociados. Deu-se gato por lebre, o que, como dizia, é objectivamente desonesto, ainda que os negociadores dos títulos supusessem tratar-se da mesma espécie económica.

E continuaria a ser desonesto, ainda que os resultados fossem bons, porque se vendia e comprava o que se ignorava. Uma espécie de feira de cegos: se eu não sei o que tenho à venda, e o outro não sabe o que compra, chama-se a isto negócio? Tudo pode acontecer, até de grande proveito económico; mas a irresponsabilidade de ambas as partes é notória e censurável.

O que não se aplica apenas a este caso, mas a todos aqueles em que uns ou outros (ou uns e outros) negoceiam títulos sem conhecerem o seu real conteúdo, seja quanto a riscos seja quanto aos produtos ou serviços que as empresas em causa oferecem.

Já sabemos que se vão alargando os «fundos éticos»; simplesmente a ética exige antes de mais saber o que se compra ou se vende. Não é suficiente dizer o que não se quer; deve ter-se consciência do que realmente se negoceia. A sua ignorância contém um grande risco «ético», pois mesmo o que é bom numas circunstâncias pode noutras ser mau, ou produzir efeitos negativos em determinada conjuntura.

A velha escolástica ajuda-nos muito quando explica que «a bondade de um acto», não depende só da intenção do agente, mas do seu próprio objecto (o acto em si mesmo) e das circunstâncias. Neste caso, porém, basta um princípio elementar, primário, de seriedade mínima em qualquer negócio: não se deve comprar nem vender às cegas.