O poder senta-se atrás de um volante?

 

 

Público,11.06.2008, Paulo Ferreira

 

 

O protesto dos camionistas é injusto para os restantes cidadãos e representa um desafio decisivo para o Governo

 

Depois de uma paragem da frota de pesca, uma paralisação de empresas de transporte de mercadorias. A razão invocada para os protestos é a mesma, a subida dos preços dos combustíveis, sem dúvida um custo importante nesses sectores. Mas as semelhanças ficam por aí. Nas pescas, os armadores são vítimas da forma como (não) funciona o mercado onde vendem o peixe, com as lotas controladas por intermediários, que fixam os preços a que compram.


Ora no sector dos transportes nada indica que haja qualquer tipo de concertação dos clientes para imporem um preço de contratação dos serviços.


Sobra, por isso, a questão: por que é que os empresários do sector não fazem reflectir no preço livre que cobram o aumento dos preços dos combustíveis, como acontece em qualquer mercado que funcione de forma regular?


Esta é a pergunta do milhão de dólares, para a qual há mais pistas do que uma verdadeira resposta.


Uma das pistas está na escassez de espírito empresarial no país, uma das principais razões para a falta de competitividade da economia. Essa falha desdobra-se em vários sintomas: a aversão ao risco, a deficiente formação para a gestão e, como corolário, o eterno recurso ao Estado para resolver qualquer dificuldade, numa atitude desresponsabilizado ra que eterniza a incapacidade.


A outra pista está no poder de incómodo público e político que o sector dos transportes pesados sabe que tem. Um bloqueio de camionistas prolongado consegue, de facto, paralisar uma economia e fazer-se sentir a cada cidadão.


O combustível já começou a faltar, muitos produtos frescos já não chegam às prateleiras de supermercados, as rações para animais começam a escassear em explorações agropecuárias e há exportações atrasadas porque os camiões não chegam aos navios para os carregar. A manter-se a situação, não tardará muito que as linhas de produção de algumas fábricas tenham que parar por falta de componentes e matérias-primas. Na era do just-in-time as empresas mais eficientes na gestão dos seus stocks são, ironicamente, as que primeiro sofrem quando alguma coisa corre mal.

 

Mas ter capacidade para bloquear uma economia não significa ter razão. E os camionistas não têm razão. Ou, pelo menos, não têm mais razão para protestar do que qualquer empresário de outro sector de actividade ou qualquer cidadão que paga os combustíveis diariamente mais caros.


Menos razão têm quando há um recurso a práticas claramente ilegais para forçar outros camionistas a aderir à paralisação contra a própria vontade. Isto é inadmissível, é desafiador do Estado de direito e pode levar a desfechos lamentáveis, como ontem aconteceu com a morte de um homem em Alcanena.
Este protesto dos camionistas representa, por tudo isto, um enorme desafio para o Governo.


Antes de mais na manutenção da ordem pública. A livre circulação de mercadorias e pessoas não pode nunca ser posta em causa por pequenos grupos, independentemente da maior ou menor simpatia que as suas razões de protesto possam merecer. Mas é isso que está a acontecer em vários pontos do país, perante a passividade das autoridades. Se amanhã um grupo de dezenas de cidadãos enfurecidos com o preço do gasóleo decidir bloquear a A1, a GNR também vai ser apenas espectadora?


O outro desafio do Governo está nas soluções que estão a ser negociadas. A tentação de resolver o problema passando uns cheques de dinheiros públicos é grande. Mas é perigosíssima. Isso significa colocar a generalidade dos contribuintes, que também paga os combustíveis mais caros, a subsidiar as margens de comercialização de um sector em particular.


Falhar na autoridade do Estado e avançar pelo facilitismo financeiro são, de facto, caminhos que não esperávamos ver este Governo percorrer.