O Natal de Bento XVI

José Manuel Fernandes

Público, 26 de Dezembro de 2005
 

Bento XVI proferiu ontem a sua primeira mensagem de Natal. Saiu da norma, mostrando como pode surpreender
 

"Não tenhais medo" disse João Paulo II na sua primeira aparição, na varanda de São Pedro, após a sua eleição como Papa. "Não temais!", repetiu anteontem o Patriarca de Lisboa: "A mensagem desta noite convida-nos a vencer os medos que tolhem a nossa vida. Hoje, há muita gente com medo, o que impede as pessoas de serem felizes. Para enfrentar com liberdade as realidades que nos atemorizam, é preciso vencer o medo, porque este é um sentimento que tolhe a liberdade e enfraquece a coragem de lutar". Mais adiante acrescentava que "paradoxalmente, as chamadas sociedades evoluídas, que optaram por modelos de desenvolvimento destinados a resolver, pela ciência e pela técnica, as principais ameaças que pesavam sobre o ser humano, não anularam o medo". Medo da violência, do desemprego, da morte, do falhanço nas relações pessoais.
Numa linha que poucos talvez antecipassem como muito próxima, o Papa Bento XVI, que ontem proferiu a sua primeira saudação Urbi et Orbi por ocasião do Natal, fez um apelo ainda mais directo: "Desperta, ó homem do terceiro milénio!", disse. "Deixa o Menino de Belém conduzir-te pela mão" porque a "força vivificante da sua luz dá-te coragem para te empenhares na edificação duma nova ordem mundial, fundada sobre relações éticas e económicas justas". Uma nova ordem que enfrente "os numerosos e preocupantes problemas da actualidade, desde a ameaça terrorista às condições de humilhante pobreza em que vivem milhões de seres humanos, desde a proliferação das armas às pandemias e à degradação ambiental que ameaça o futuro do planeta". Preocupa-o África e nesta em especial o drama do Darfour e a tensão crescente na península coreana e noutros países asiáticos. Preocupa-o que "os sinais de esperança" sejam "confirmados através de comportamentos inspirados pela lealdade e sabedoria" na Terra Santa, mas também no Iraque e no Líbano. Ou seja, partilhas as preocupação dos líderes das democracias, mas apenas dispõe da sua palavra e da Fé que, como se escreve na Bíblia, "o Verbo era a luz verdadeira que, vindo ao mundo, a todo o homem ilumina".
Daí que tenha dito que o Menino em que os cristãos acreditam tem um "modo de ser Deus põe em crise o nosso modo de ser homens": "o seu bater às nossas portas interpela-nos, interpela a nossa liberdade e pede-nos para rever a nossa relação com a vida e o nosso modo de a conceber". Na sua perspectiva, se "a Idade Moderna é apresentada como um despertar do sono da razão", sem Cristo "a luz da razão não basta para iluminar o homem e o mundo". O que lhe permite regressar ao tema do afastamento do homem moderno da espiritualidade religiosa: "É verdade que, ao longo do milénio há pouco terminado e de modo especial nos últimos séculos, foram muitos os progressos realizados em campo técnico e científico; podemos hoje dispor de vastos recursos materiais", só que "o homem da era tecnológica corre o risco de ser vítima dos próprios êxitos da sua inteligência e dos resultados das suas capacidades inventivas, caminha para uma atrofia espiritual, um vazio do coração".
A sua preocupação, que esta mensagem reforça, parece ser a de recuperar o homem moderno para a espiritualidade, não recolocar a Igreja no centro do poder temporal. Isso, porém, foi melhor verbalizado por D. José Policarpo: "A afirmação clara de que o Seu reinado não é deste mundo pode tranquilizar todos quantos ainda hoje temem que a Igreja queira dominar a sociedade" pois "a Igreja não quer dominar a Cidade, quer humanizá-la". O que o leva a reclamar "que ninguém queira expulsar a Igreja da cidade, porque ela é, na sua pobreza e simplicidade, portadora de um anúncio de libertação".
Bento XVI merece pois continuar a ser escutado com atenção e sem os preconceitos que mercaram o anúncio da sua eleição.