O que Sócrates pode aprender com
Obama em matéria de Educação

 

 

Público, 22.12.2008, José Manuel Fernandes

 

 

A escolha de Obama para secretário da Educação recaiu num homem experiente, que gosta de trabalhar com as escolas, de testar soluções (incluindo as charter schools) e que não dita ordens do alto de uma torre de marfim.

Quase todas as escolhas de Barack Obama para a nova Administração têm suscitado alguma controvérsia, e a escolha, a semana passada, de Arne Duncan para secretário da Educação foi, de uma forma geral, elogiada por todos os sectores - ou melhor, por todos menos os ligados a certas áreas da esquerda.

Entre os que mais apreciaram a escolha conta-se Steven D. Levitt, autor do best-seller Freakanomics, que escreveu no seu blogue no New York Times não existir ninguém melhor do que ele para o lugar. Porquê? Porque, além de ser um homem determinado e inteligente, Arne Duncan é um pragmático que não receia testar soluções diferentes para descobrir as que funcionam melhor. Ou até correr riscos desde que haja uma pequena possibilidade de, no fim, ter escolas mais eficientes e alunos mais bem preparados.

Durante os últimos sete anos superintendeu as escolas públicas de Chicago, o terceiro maior distrito escolar do país, e nesse período de tempo conseguiu resultados assinaláveis: basta notar que nas escolas básicas as médias subiram de 38 para 67 por cento nos testes nacionais, tendo Duncan corrido pelo meio o risco de permitir a Levitt que realizasse um estudo sobre fraudes nesse sistema de teste que acabou por levar ao despedimento de vários professores.

 Mas não foi só por ter estudado na mesma escola de Obama, gostar como ele de basquetebol e ser de Chicago que o Presidente recém-eleito o escolheu. Foi por algumas das coisas que fez e que o Presidente recém-eleito fez questão de recordar. Por exemplo: durante o seu mandato o número de professores de Chicago que passaram por um teste nacional de certificação subiu de 11 para 1200; os melhores directores escolares, assim como os professores que conseguem fazer progredir os seus alunos passaram a receber prémios monetários; fechou escolas comprovadamente ingovernáveis e substituiu todo o pessoal ao abrir escolas novas; e foi desde sempre um campeão das chamadas charter schools "mesmo quando ainda eram controversas", como sublinhou Obama.

Por isso, desde o liberal Washington Post ao mais conservador Wall Street Journal, a reacção da imprensa foi positiva. Este último jornal deu mesmo mais do que o benefício da dúvida a Duncan, pois considerou que tanto ele "como o [futuro] Presidente têm trabalhado para garantir que as charter schools fazem parte do conjunto de soluções necessárias para melhorar o sistema de educação [dos EUA]".
É neste ponto que José Sócrates pode inspirar-se em Obama e distanciar-se dos que criticaram esta nomeação por ser contra a escola pública (ver, por exemplo, o artigo Obama's betrayal of public education? Arne Duncan and the corporate model of schooling, de Henry A. Giroux and Kenneth Saltman, no blogue t r u t h o u t). E pode fazê-lo em dois pontos centrais, ambos contraditórios com a política do actual Ministério da Educação.

O primeiro é que existe mais do que uma solução possível para melhorar o sistema educativo e que a melhor solução não tem de ser imposta pela burocracia do ministério a todas as escolas, pois nem todas as escolas são iguais. Ora isto implica experimentar soluções diferentes e, entre elas, testar o modelo das charter schools que tanto sucesso têm tido nos Estados Unidos e no Canadá.

 E o que são as charter schools? Na Annuália (edições Verbo) do ano passado, Fernando Adão da Fonseca, do Fórum para a Liberdade de Educação, descrevia-as assim: são "escolas públicas cuja gestão é atribuída a entidades privadas, com e sem fins lucrativos, por contrato". O contrato tem objectivos, a autonomia de cada escola relativamente às autoridades é total, o acesso é livre para todos os alunos seja qual for o rendimento da sua família, a exigência é grande e por regra são menos pressionáveis pelos infinitos grupos de interesse que gravitam em torno das escolas públicas tradicionais.

Daí que os que nela estudam consigam por regra melhores resultados, como provam os levantamentos realizados em Chicago onde se mostra que estes, em média, ficam 80 por cento acima das escolas públicas tradicionais nos mesmos bairros.

"Ao trocarem entre si a experiência de inovações que funcionam, as charter schools podem ajudar outras escolas e mais estudantes através de todo o sistema público de educação", notava um dos apoiantes desta escolha, Tim King, ele mesmo um impulsionador da experiência em áreas urbanas.

 Já quanto ao que Obama disse ao justificar a sua escolha, não poderia ser mais diferente do que temos ouvido aos responsáveis portugueses. Note-se, por exemplo, nesta passagem: "Quando Arne se dirigir aos professores, não o fará falando do alto de uma torre de marfim, antes tendo por base as lições que aprendeu durante os anos em que trabalhou procurando mudar as escolas a partir da base, [não do topo]."