O Papa, a defesa da fé e da razão
Mário Pinto
 
Público, 25-Set-2006

 

1.Para os que conhecem o pensamento de Ratzinger e ainda os sinais do desígnio pastoral do Papa Bento XVI, não foi novidade que, na sua "Lectio Magistralis" na Universidade de Ratisbona, o Papa tenha feito a defesa do diálogo entre a fé e a razão.
Que disse ele, nesse já famoso discurso académico? Resumindo por palavras muito simples, disse que a razão não pode excluir a fé, porque a fé não é irracional, mas deve, isso sim, dialogar com a fé; e que, reciprocamente, a fé deve dialogar com a razão e não se considerar separada nem contraditória da razão. O Papa afirmou estas teses por serem verdade, mas também com o fim de tornar possível um diálogo universal baseado na razão, na intenção de: convidar, por um lado, o "iluminismo" da actualidade a ampliar os horizontes por vezes estreitos em que se auto-limita, na frequente "auto-redução da razão ocidental"; e, por outro lado, convidar as religiões ao diálogo com a razão, que é reflexo da Razão Criadora.

2. Até aqui, provavelmente o discurso do Papa não teria provocado nem surpresa nem emoção. Mas, nesta economia de pensamento, Bento XVI incluiu uma crítica à irracionalidade da "guerra santa", questão da actualidade, e a propósito citou palavras do Imperador bizantino Manuel II Paleólogo, dos fins do século XIV, em diálogo com um sábio persa. "De modo surpreendentemente agreste que nos espanta" (in erstaunlich schroffer, uns überraschend schroffer Form) - preveniu expressamente o Papa -, diz o Imperador ao persa: "mostra-me o que é que Maomé trouxe de novo, e encontrarás coisas más e desumanas como a sua directiva de difundir pela espada a fé que pregou". E logo o Papa continua, dizendo que, depois de se ter pronunciado de modo tão chocante (nachdem er so zugeschlagen hat), o Imperador explica as razões pelas quais a difusão da fé mediante a violência é coisa irracional. As considerações seguintes são notáveis, em defesa da fé e da razão. Recordo apenas, como exemplo: "agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus"; e ainda: "uma razão que é surda ao divino e relega a religião para o âmbito das sub-culturas é incapaz de entrar no diálogo das culturas".

3. Como se vê, o Papa teve o cuidado de qualificar negativamente a forma das declarações que citou, para que ficasse claro que não subscrevia essa forma. Mas também é verdade que nem por isso o Papa evitou a citação como ponto de partida discursivo forte para uma censura racional à "guerra santa". Ora, foi precisamente a forma da pergunta citada que, sumária e inviesadamente, veio a ser propagandeada por alguns meios de comunicação social internacional, aliás já identificados, que, ao abrigo do seu lato direito de interpretar e prever, não apenas titularam uma ofensa do Papa ao Islão, como logo anunciaram reacções violentas dos países islâmicos. O que obviamente funcionou como estímulo das reacções que depois se seguiram, declarações e manifestações de protesto, sobretudo em alguns países muçulmanos. Mas também, deve sublinhar-se, das declarações e manifestações de apoio ao Papa, inclusive de figuras relevantes e representativas da cultura e da religião islâmica.

4. Com tudo isto, resultou de facto, em meu entender, uma ressonância nova, e mais forte, do pensamento do Papa, nesta matéria - aliás inteiramente concordante com outras alocuções, especialmente durante a sua visita à Baviera, de que a imprensa não fez caso porque aí não encontrou sound bytes. Essa ressonância mais forte provocou, infelizmente mas talvez inevitavelmente, polémica e oposições. Aos espíritos livres, isto é, libertos de paixões e ódios, e bem intencionados, isto é, desejosos de promover a razão, a paz e a concórdia entre países e entre culturas, resta (creio eu) tomar a questão substantiva em causa: a da paz e da razão, da liberdade e da fraternidade entre povos e entre culturas; a da condenação da "guerra santa", como irracional.

5. Repito: para fora e para dentro da Igreja, para o ocidente e para o Islão, o discurso do Papa relançou de facto, não com maior novidade, mas com maior força, e talvez com força politicamente insuperável, dois debates que não se separam: o debate da relação entre a fé e a razão e o debate da "guerra santa". Muito simplesmente, eu diria: os que são contra a "guerra santa" (e o Ocidente, em geral, é contra a "guerra santa" e é ameaçado por ela) não poderão criticá-la se não for em nome da razão. Portanto, os que pretendem criticar a "guerra santa" e, ao mesmo tempo, ser contra a razão ou contra uma racionalidade de valor universal (pós-modernismo subjectivista relativista), ficam numa posição absurda e impotente. O mesmo se aplica aos crentes, porque, disse o Papa, "não agir segundo a razão, não agir segundo o logos, é contrário à vontade de Deus".

6. Ora, a guerra já aí está, e precisamente como "guerra santa" (não comparável às cruzadas, que não foram uma "guerra santa", nem uma guerra de conquista, mas sim uma guerra de reconquista, como foi aqui na Península a "reconquista cristã"). É tempo de pensar e de reconhecer que não é digno deixar a questão da "guerra santa" aos argumentos da força das armas ou dos interesses grosseiros do poder geopolítico, do dinheiro, do petróleo, com o requinte de por cima nos darmos ao luxo de criticar esses argumentos. E de facto corre por aí, em matéria de segurança internacional, um pensamento "politicamente correcto" europeu contra os Estados Unidos, do mesmo passo que a Europa se demite, não só de agir mas até mesmo de pensar.

7. Se desejamos um diálogo universal (não apenas político) entre culturas, entre civilizações, entre povos, não se podem excluir as religiões; e se se incluem as religiões, pode o diálogo fazer-se à margem da razão? Ou na descrença da razão? Não pode. Assim, o irracionalismo pós-modernista, que, em (falso) nome da razão, expulsa as doutrinas e as crenças do espaço público e cultural, é afinal obscurantista, absurdo e desumano, em simetria com o irracionalismo religioso fundamentalista. Ambos são, ainda por cima, suicidas.

8. É muito animador verificar que muitas vozes de não crentes exprimiram nesta ocasião a sua convergência filosófica com as teses defendidas pelo Papa, que é atacado por sectores integristas do Islão. Creio que é preciso fazer suceder a este episódio a defesa e a promoção de um mais intenso e respeitoso diálogo universal entre a razão e a fé, entre a laicidade e as religiões. Se lançado em reciprocidade com o Islão, esse diálogo poderia, e em sinergia com o diálogo inter-religioso, que já se iniciou, abrir uma nova época na vida interior do próprio Islão e do "ocidente", e nas suas relações recíprocas. O que seria verdadeiramente histórico.

Professor Universitário

ADENDA. Para se comprovar que não está em causa a questão diplomática de um discurso do Papa, mas sim a doutrina da Igreja Católica e uma madura convicção teológica e filosófica de Ratzinger, para ficar mais mais claro que não se trata de uma crítica ao Islão, mas de uma crítica à irracionalidade religiosa, no Islão como no cristianismo, permita-se-me que, para os que estão menos informados, deixe aqui a sugestão de leitura de um livro de Ratzinger, em tradução portuguesa da editora Aletheia, intitulado A Europa de Bento; e, já agora, também de um outro livro de Ratzinger, do qual, de momento, só disponho da edição italiana: Fede, Verità, Tolleranza, ed. Cantagalli, Siena, 2003.