Nova geração de mulheres obcecadas pela imagem


Fonte: Correio da AESE 

 

Escritoras, jornalistas e directoras de publicações da área anglo-saxónica começam a olhar com desencanto para a banalização da imagem das mulheres oferecida pelas páginas de algumas revistas e jornais. Várias vozes, entre elas a da Associação Britânica de Mulheres Jornalistas, ergueram as suas críticas para salientar a falta de coerência deste tratamento com as denominadas conquistas feministas que há apenas três décadas auguravam uma nova etapa para as mulheres.

Os protestos, que começaram de modo mais ou menos velado, têm vindo a crescer nos últimos dois anos. «Que aconteceu à boa-fé e ao optimismo das feministas dos anos 70», perguntava Rosie Boycott no diário The Guardian. «As revistas para adolescentes e jovens - raparigas ou rapazes - são profundamente sexistas e concentram-se apenas na imagem e na atracção física», denuncia, «enquanto ridicularizam tudo o resto.» Segundo essas publicações, «o teu corpo deve ser como o de uma estrela». Mas, como isso parece inatingível para a maioria das pessoas, o resultado é uma nova etapa de insegurança, de baixa auto-estima generalizada entre as adolescentes, e que ameaça alargar-se a outras idades e a outros âmbitos - estudos, trabalho - onde, até agora, as raparigas eram claramente superiores.

Mas não é só a preocupação com a atracção física. O que chama também a atenção é a procura deliberada de uma aparência provocante. É o que tenta analisar a autora norte-americana Ariel Levy no livro Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture, onde se interroga: «Como é que estão a ressurgir todos os estereotipos da sexualidade feminina que o movimento feminista se esforçou por erradicar para bem das mulheres?»

O que Levy pretende analisar é «porque é que os jovens de hoje estão a adoptar aspectos escabrosos da actual cultura que provavelmente teriam feito vomitar as suas antepassadas feministas». A autora ficou muito surpreendida quando, ao falar com raparigas que participavam em programas como Girls Gone Wild, lhe diziam que esta evolução não signifi­cava uma derrota do feminismo, mas o seu triunfo, pois supostamente prova que as mulheres se tornaram suficientemente fortes, podendo expressar a sua sexualidade de forma explítica.

Nalgumas publicações, o tom crítico para com supostos defeitos físicos é tão agressivo e generalizado que roça a misogenia. Longe de ficar reduzida a publicações ou sítios da Internet de escassa quali­da­de, a tendência para sobrevalorizar o físico e ridicu­la­rizar as mulheres que não se destacam neste aspecto está a alargar-se também entre as revistas femininas ou à imprensa cor-de-rosa, que sempre reflectiram com uma auréola de glamour a vida das famosas. A elegância do papel couché deu lugar à vulgaridade e à provocação, para desnudar literalmente actrizes conhecidas, que não tinham precisado deste recurso para triunfar na tela ou conseguir estatuetas em Hollywood.

Em Setembro último, Kira Cochrane salientava, na sua habitual coluna, o seu profundo desacordo com actrizes consagradas, como Nicole Kidman e Maggie Gyllenhaal, que desde há alguns anos aceitam participar em capas das publicações, surgindo com pouca roupa ou convertendo-se na imagem de produtos de lingerie. «Porque será que as acho deprimentes?», interroga-se Cochrane, referindo-se a fotografias e capas com este tipo de protagonistas. «É como se afirmassem: não interessa o talento que uma mulher tenha, os prémios que recebeu ou o alcance da sua inteligência... Na hora da verdade, se quiser permanecer na crista da onda, se quiser encher as capas das revistas ou ocupar os papéis principais, tem de se rebaixar a isso, agradar aos homens.»

Actrizes como Julia Stiles - companheira de Matt Damon em The Bourne Ultimatum - ou Rachel McAdams já reagiram e defendem a integridade da sua imagem, apesar de a sua atitude poder travar de algum modo a sua carreira. Stiles está encantada com o facto de todas as mulheres Bourne serem elegantes, seguras de si próprias e aparecerem completamente vestidas. «Sou uma pessoa modesta e geralmente evito os nus e as cenas amorosas, porque muitas vezes as acho gratuitas.» No caso de McAdams, a sua recusa em deixar-se fotografar sem roupa para uma capa da Vanity Fair, em 2005, constituiu um ponto de inflexão na sua carreira, que ia nessa altura num ritmo vertigi­noso, com estreias como The Family Stone, Red Eye ou Wedding Crashers.

A necessidade de travar esta tendência e de con­tra­riar, pelo menos, as consequências sobre os mais vulneráveis - os adolescentes - mobilizou já o comité di­rectivo da Associação Britânica de Mulheres Jornalistas, que, coincidindo com a London Fashion Week, reuniu na British Library uma centena de estu­dan­tes do secundário numa jornada sobre a imagem pessoal. Conclusões unânimes dos jovens: «Os meios de comunicação deveriam ser responsáveis e difundir papéis mais positivos sobre a nossa gera­ção.»

Segundo Fiona Badwon, uma das jornalistas impulsionadoras da iniciativa, «apesar de tantos anos de feminismo, as raparigas ainda dependem da sua imagem». Badwon salientou que as adolescentes se queixam da pressão dos meios de comunicação para que se aproximem de protótipos de beleza totalmente irreais e mostrou os dados de um inquérito recente: 75% das mulheres entre os 16 e os 25 anos declara­ram não se sentirem respeitadas pela imprensa nem pela indústria da moda, o que não significa que sejam capazes de escapar à sua influência.