Ganhar amigos

 

Os manuais dizem que são três as tarefas dos responsáveis de comunicação na gestão de controvérsias: argumentativa, difusiva e associativa.

 

Tarefa argumentativa: construir mensagens. Os conteúdos são o centro do processo comunicativo. A mensagem, aquilo que comunico, é a substância do trabalho de comunicação nas controvérsias. E, como se dizia antes, é uma tarefa que passar por formular argumentos, por encontrar razões que sejam um alimento para a inteligência.

Tarefa expositiva: preparar rostos. Na gestão de controvérsias, além do "quê", são decisivos os rostos que expressam as mensagens: o "quem". Muitas vezes, e especialmente num clima de conflito, o porta-voz tem tanta importância como a mensagem.

Tarefa associativa: estabelecer relações pessoais. Um efeito da controvérsia é o endurecimento de posições em relação ao adversário. Por vezes, basta ser identificado como católico, ou como pertencente a certas realidades eclesiais, para que a pessoa seja posta em causa: "não pensa pela sua própria cabeça". O modo mais directo de evitar este "preconceito de grupo" é, sem dúvida, a relação pessoal. quando há contacto directo, os rótulos desfazem-se.

Ganhar um amigo implica uma alteração das relações, sem haver necessariamente uma alteração substancial nos valores fundamentais que se defendem. A liberdade das duas partes fica intacta. Neste sentido, o comunicador da Igreja pode propor-se tornar cada debate público numa ocasião de ficar com amigos e de evitar ter novos inimigos. O cristianismo é a religião do logos, da razão, e é também - tanto ou mais - a religião da caridade, da amizade.

Sem o desejar, Bento XVI foi envolvido em controvérsias locais logo desde que defendeu a sua tese académica, e ao longo da sua vida de docente; a nível mundial, como prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, e desde que ocupa a cátedra de Pedro é posto de vez em quando no epicentro das disputas, mesmo não querendo. Nesses momentos de controvérsia mediática, nunca perdeu a serenidade nem a paz que o caracterizam.

Foi fiel ao seu método: diálogo com a inteligência, abordagem positiva da sua proposta, clareza cristalina nas mensagens, extrema amabilidade no comportamento. As controvérsias do Papa são sinais evidentes da sua relevância e da eficácia da sua comunicação. O "caso" de Bento XVI é um exemplo claro de que as controvérsias apropriadas, quando são bem geridas, são o reverso da medalha da relevância.